A deusa através dos tempos

A deusa através dos tempos


O inconsciente normalmente estabelece uma ponte sobre o vão entre as atitudes religiosas modernas e o antigo domínio da deusa.

Há correlações entre a deusa do amor e a imagem de Sofia/Sabedoria na tradição judaico-cristã. Os cânticos em que a deusa do amor e a Sabedoria descrevem a sim próprias como o ser feminino divino que reina sobre o céu e a terra e todas as coisas criadas, são notavelmente semelhantes. Os criadores dos seguintes cânticos, embora separados pelo tempo e pela distância, representam tanto a majestade quanto a influência da natureza feminina divina.



Cântico a Inana:



Ao fim do dia, a estrela Radiante, a Grande Luz que enche o céu,

A Senhora da Noite aparece nos céus.

As pessoas em todas as terras erguem seus olhos para ela...

As criaturas quadrúpedes da alta estepe,

Os jardins e pomares exuberantes, as árvores e os bambus verdes,

Os peixes das profundezas e as aves dos céus...

As criaturas vivas e o povo numeroso da Suméria ajoelham-se diante dela.



A força cósmica de Afrodite é descrita por Eurípedes em Hipólito:



Meu reino estende-se sobre todos os homens e orgulha-se do nome que eu, deusa de Chipre, carrego, tanto nas cortes dos céus quanto entre todos aqueles que habitam dentro dos limites dos mares e as fronteiras de Atlas, contemplando a luz do sol.



A invocação a Vênus, registrada por Lúcrecio, começa:



Mãe de Enéas e sua raça, deleite dos homens e deuses, geradora-de-vida Vênus, é por sua ação que sob o girar das constelações do céu toda a natureza prolifera com vida, tanto o mar que mantém à tona os nossos barcos quanto à terra que produz o nosso alimento. Através de você todas as criaturas vivas são concebidas e surgem para ver a luz do sol... Você sozinha é a força que guia o universo e sem você nada emerge para o brilhante mundo iluminado pelo sol para crescer em alegria e encanto.



O reino, o poder e as qualidades de geradora-de-vida também são compartilhadas por Sofia/Sabedoria. Em Eclesiástico 24,3-18, a Sabedoria diz de si mesma.



Eu saí da boca do Altíssimo,

E como uma névoa cobri toda a terra.

Eu habitei nos lugares mais altos,

E o meu trono é sobre uma coluna de nuvem.

Eu só fiz todo o giro do céu,

E penetrei a profundidade do abismo.

Andei sobre as ondas do mar,

E percorri toda a terra; e em todos os povos, e entre

todas as nações tive primazia...

Elevei-me como o cedro do Líbano,

E como ciprestes do monte Sião...

Difundi um perfume como o cinamomo e o bálsamo

aromático,

E como mirra escolhida exalei suave perfume.

Como a vide lancei flores de agradável odor

E as minhas flores dão frutos de honra e de honestidade

Eu sou a mãe do amor formoso,

E do temor e da ciência, e da santa esperança:

Portanto, sendo eu eterna, sou dada a todos os meus

Filhos que foram escolhidos por ele.



O domínio majestoso da Sabedoria não conhece fronteiras, tal com a deusa. Como foi visto nos primeiros capítulos, ela é associada a fragrâncias de aroma doce, os perfumes da natureza usados pela deusa. Ampliando a descrição que a própria Sabedoria faz de si própria, Jung escreve:



Como Ruach, o espírito de Deus, ela pairou sobre as águas do começo. Como Deus, ela possui o seu trono no céu... Ela é o numem feminino... Um reflexo de Istar... A confirmação disso se dá por meio da comparação pormenorizada da Sabedoria com árvores, tais como cedro, a palmeira, o terebinto (“árvore da terebentina”), da oliveira, do cipreste etc.

Todas essas árvores têm sido desde os tempos antigos, símbolos da deusa semítica do amor e deusa-mãe. Uma árvore santa sempre permaneceu ao lado de seu altar em lugares altos... Como o Espírito Santo, a Sabedoria é dada como dádiva ao eleito...



...Ela é enviada do céu e do trono da glória como um “Espírito Santo”. Como uma psicopompa ela leva o caminho a Deus e garante imortalidade.

Sua coexistência com Jeová significa o hieros gamos perpétuo do qual os mundos são concebidos e nascem.



Não importa que nome venha a ter, a deusa do amor é relacionada à terra, ao corpo, à paixão, à sexualidade e à fertilidade. Ela é à força do amor propulsora, transformadora e mística que une um elemento humano ao divino. As imagens da deusa divina que personifica os aspectos risonho, radiante, independente e sensual da natureza feminina existe desde que há registros históricos. E pode continuar a existir em nosso tempo se permitirmos que a sua imagem seja restabelecida e que tome o seu lugar de direito na compreensão consciente.

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