Com-posições das segundas lacanianas

IPB Brasília
Simpósio de São Luís, 03 e 04 de setembro de 2004.







Introdução







O saber do analista: saber da in-pura ignorância



Antônia Verdésio





O saber do analista não é um saber privilegiado a não ser aquele conferido pela confiança ingênua do sujeito analisante. Esse pensamento mágico dirigido a um sujeito suposto saber atribui um poder ao analista e o status de um “homem que não é como os outros”. Assim está posto o cenário transferêncial que contem as condições propícias para o analista desavisado perder-se em suas identificações imaginárias e narcísicas. Capturado nessa trama relacional e égoica, o analista assume o lugar de mestre e faz da relação analítica uma mágica de reproduções em vez de construções, de respostas em vez de questões. Para não cair em tentação, o analista forja o seu saber em outro lugar, guiado pela ética da psicanálise, no encalço do inconsciente.



O saber do analista é constituído em suas interlocuções teóricas, na supervisão e em seu percurso de analise; é o saber do inconsciente, o saber impossível do não sabido. Portanto, não se trata de uma estratégia metodológica, enquanto lugar configurado de pessoa –analista posicionada em frente (ou atrás) da pessoa – analisante para provocar mudanças. O saber do não sabido é como um ato de fé. Sem lógica racional mas com uma lógica própria. Trata-se de uma posição subjetiva, real, conseqüência do atravessamento de uma análise, marcada pela experiência de sujeito faltoso, de resto e rastro de fantasias ressignificadas. É no paradoxo dessa ausência de saber constituído (do lado analista) e do saber que está lá (do lado do analisando) que a escuta analítica silenciosa e vazia de desejo instiga o inconsciente. Aguçado, desnorteado e insistente, o reprimido enfim pode retornar e se manifestar. Assim e somente na posição subjetiva da douta ignorância é que o analista pode realizar o seu oficio, ou seja, fazer advir o sujeito do analisante, traído pelos significantes de sua fala. Destituído de um saber pré-constituido, o analista favorece o surgimento de uma fala verdadeira e de criação por parte do analisando.



O SABER e a FORMAÇÃO estão implicados na mesma ordem do impossível. A impossibilidade do saber move, estimula a busca, frustra, marca a falta e alimenta o que entre analistas é chamado de formação permanente. Saber e Formação do analista: “uma conversa puxa a outra”.



A formação do analista está assentada sobre uma dupla via, paradoxalmente anunciando uma quase dicotomia entre:



· o saber adquirido, acumulado pela transmissão, pela produção e pela interlocução entre pares;



· e o saber não sabido, unicamente adquirido pela experiência do inconsciente, na análise pessoal. Enquanto o saber da transmissão é necessário e interminável, o saber do inconsciente em seu signo de ignorância move o analista, sustenta a angustia e dá sentido a sua formação.



Para Freud, havia três desafios impossíveis de sustentar: governar, educar e psicanalisar. Retornando a essa afirmação freudiana, Lacan relaciona o “impossível” nos três casos à condição humana de ser de falta.



É no final de uma análise, na experiência de “desser” do analista e de resto vivido pelo analisando, que o ser de falta está desvelado. É a condição propicia, única e indestituível para a entrada do sujeito desejante. Desejante, inclusive, para tornar-se analista e para ingressar e/ou continuar uma formação.











O saber que não sabe



Maria Emília Riveira Santos







Compreendo que Lacan, nos Escritos, aborda a questão da “douta ignorância” do analista, esse saber que não sabe, como condição necessária para que o trabalho com o inconsciente seja possível, pois o saber do analista não pode obliterar o saber do sujeito.



Esse saber colocado em questão na análise é um saber inconsciente, domínio do sujeito analisando, sobre o qual a única possibilidade de “saber” se esboça através da reconstrução da sua rede significante. Penso que, para que a análise encaminhe o sujeito pela sua rede significante, é necessário que o analista não saiba, de antemão, algo que só o sujeito sabe.



O conhecimento epistemológico, a compreensão intelectual sobre a estratégia do analista para essa atuação deve ser do domínio daqueles que desejam exercer a psicanálise. Possibilidade de transmissão esboçada através do discurso do mestre que, desse lugar, ensina qual a posição do analista no encaminhamento de uma análise.



Partindo dessa consideração, penso que o analista deve saber que essa sua posição de “nada saber” deve permitir ao analisando elaborar um saber subjetivado pela sua própria condição de sujeito desejante, compreensão emocional, condição propiciada pela falta, que o leva a ser, ou seja, que o leva a construir alguma teoria sobre si mesmo que possa tamponar parcialmente a falta, o não ser.











A interpretação e a transferência na formação da escuta psicanalítica.



“Ser ou não ser, eis a questão.”

Josenita Costa







O uso da interpretação como uma técnica, trazida da A Interpretação dos Sonhos, evidencia a própria escuta de Freud do sujeito do inconsciente. Escuta que ocorre da leitura dos sonhos, lapsos e simples ditos, não como fizeram a religião e a filosofia, mas, acrescentada da especificidade singular da psicanálise – o sentido último é sempre sexual. Sendo assim, a interpretação se faz parte da dinâmica da análise.



À interpretação, Freud contrapôs as construções em análise, revelando a pretensão equivocada de a tudo se interpretar. O analista escuta, nos diz Lacan, mas não necessariamente interpreta e nunca despeja sobre o analisando verdades já prontas. Em outro momento nos ensina tratar-se, então, mais de uma posição do que de um padrão.



E, não seria esta postura uma atitude derivada de uma posição de ouvinte? Ouvinte que dá lugar, pelo apagamento do eu, ao não sujeito da interpretação. Como seria, para o analisando que se quer analista, esta passagem? O analisando tão escutado em sua análise, suportará o lugar de morto?



Até aqui, em seu itinerário, foi lhe exigido apenas que falasse. Falando se escutou e se escutando se reconheceu no palpitar de seu desejo.



Na assunção de sua escolha (?) de se fazer analista, o analisando renunciará agora e será lugar de não saber, de Outro cujo equívoco ele já apreendeu no engendramento da interpretação com a transferência, em sua análise pessoal.



A cada vez que um de nós se fez ou se faz psicanalista, ressuscita as mesmas questões de Freud, mais de cem anos atrás. A formação acontece quando não é mais psicologia, psiquiatria ou educação. É algo além dos ensinamentos teóricos, práticos, comportamentais.



Este é o legado de Freud, algo para além que não se encontra na leitura de sua obra, nos Seminários de Lacan, mas na tessitura própria da transferência: uma escuta/lugar de onde emerge a construção de uma subjetividade única.



A transferência possibilita, disponibiliza, transfere o lugar do gozo, da repetição, do sofrimento e se oferece como argamassa para além, como um lugar de saber suposto, para além onde um outro se escutará também desejante.



Isto nos diz um pouco sobre ser ou não ser uma escuta psicanalítica.







A transferência – o que é pedido e o que é dado na análise?



Rosana Rolando Aguiar







Conceituado como vínculo afetivo intenso, é por meio da transferência que se instaura o processo de análise. Este vínculo independe do contexto da realidade, a própria demanda de análise pressupõe uma dimensão transferencial.



Ao analista é suposto ocupar somente o lugar de morto nesse processo, nada saber, o buraco, o lugar marcado da falta, o sentido que não pode ser dado plenamente pela palavra. Trata-se, então, de uma posição que o analista não comparece enquanto sujeito.



É construída, com cada analisante, uma relação particular e totalmente subjetiva. O silêncio do analista permite que o paciente se dê conta de seus significantes. É nessa particularidade em cada relação transferencial, situação analítica, que o analista passa a fazer parte do sintoma do analisante, a palavra então é dirigida a ele.



A transferência dá acesso ao inconsciente de maneira enigmática e particular. Nesse sentido, então, o sujeito passa a estar alienado ao desejo do analista, tudo é atualizado e dirigido ao Outro – lugar da fala, lugar da verdade (suposta verdade).



O que é pedido? Amor, reconhecimento...



O que é dado? Escuta, silêncio...







Psicanálise e Educação: equívocos e possibilidades



Marisa Brito Neves







O campo da psicanálise sempre foi alvo de equívocos. Já em 1958, Lacan apontava para as práticas duvidosas que, em nome da psicanálise, realizavam reeducação emocional dos pacientes. Nos dias atuais, a relação da Psicanálise com a Educação tem se configurado como um campo fértil de produções de equívocos e, dialeticamente, como um campo de possibilidades.



É fato que, atualmente, a psicanálise circula em diversos espaços sociais.



Em relação ao encontro da Psicanálise com a Educação, percebe-se que a Psicanálise – enquanto corpo teórico – e a Educação – enquanto discurso social – imbricaram-se em um processo de construções que afetaram tanto o corpo teórico como o discurso social. No entanto, faz-se necessário considerar:



· A especificidade da relação educativa para não tornar o discurso pedagógico num discurso psicanalítico. A educação tem sua natureza específica e na escola trabalha-se considerando o sujeito que pensa e raciocina, diferentemente da psicanálise, que se interessa pelo sujeito recalcado e inconsciente.



· O papel do professor deve ser o de mediador do conhecimento e este, necessita ser considerado como uma convicção culturalmente aceita e socialmente partilhada. Dessa forma, o conhecimento é tido como um elemento terceiro que favorecerá a emergência desse sujeito-aluno, ao modo da lei, que no momento do Édipo, possibilitou a emergência do sujeito.



· Ao modo do analista, o professor não deve assumir-se como onipotente e detentor do conhecimento para poder, assim, possibilitar espaço para a produção criativa e singular do aluno. Pois, ao colocar o aluno no lugar daquele que não sabe, não possibilita, também, que a criança expresse sua subjetividade, seu saber, e por ficarem, assim, ensinante e aprendente presos nessa relação dual, portanto imaginária, o acesso à simbolização dessa relação fica impossibilitado, pois a apropriação do conhecimento por parte do aluno significaria a destruição do próprio ensinante e não da sua imagem idealizada.

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