Da paixão do ser à “loucura” do não-saber

Da paixão do ser à “loucura” do não-saber




Trabalho Final para o II Congresso de Convergencia

Instituição: Intersecção Psicanalítica do Brasil

Leitor/Autor: Arlete Mourão





Produzir algo que reflita diferentes trabalhos evocou-me a afirmação de Lacan segundo a qual “não há ordenação coletiva da enunciação, (...) só há ordenação coletiva das resistências”.[1] Portanto, o que trago como resultado de leitura é uma tentativa de ordenação de enunciados, que se configura, senão como resistência, com certeza como a insistência de uma questão singular, a qual denominei da paixão do ser à “loucura” do não-saber. [2]



Optei por esse título, que sob a inclusão de uma negação parafraseia o título Da paixão do ser à loucura de saber”, de Maud Manoni, justamente porque ele permite sintetizar um padrão, que invariável não só nas variantes, mas também nos vários trabalhos preliminares de Intersecção Psicanalítica do Brasil.



Refiro-me a essa condição fundamental para que uma experiência analítica se configure como tal, especialmente no que se refere à possibilidade de passagem de um analisando à condição de analista, que é a dimensão do ser do analista, ou melhor, do seu des-ser enquanto sujeito, na condução da análise.



Esse des-ser, que está em estreita relação com o não-saber, é o que sustenta a escuta e o desejo do analista, elementos ou condições de lógica e ética da práxis analítica, que só podem ser alcançadas na análise do analista – uma análise que tenha ultrapassado o plano das identificações e remetido o sujeito a um mais além, isto é, ao “plano onde se pode presentificar, da realidade do inconsciente, a pulsão”.[3]



Então, é da análise do analista – que, a meu ver, dá o tom dos nossos 8 trabalhos –, que tomo os elementos constituintes desta síntese de leitura, a qual inicio contextualizando nos seguintes recortes.



1 – Trabalho de Ana Lúcia Falcão: O desejo do analista



O desejo do analista não se confunde com o “eu quero ser analista”. Não se apresenta como algo da ordem do ser, dos bens ou da moral, mas refere-se ao saber sem sujeito. Para o analista, sustentar essa posição e fazer função de desejo do analista é possível porque seu lugar não é ontologizado, mas é aquele suposto saber fazer aí com seu sintoma – saber fazer com os restos do real.



2 – Trabalho de Arlete Mourão: O Amor à Letra



Na posição de destituição subjetiva, sujeito e objeto se desconfundem. Essa des-con-fusão permite que o Outro se desconstitua enquanto grande Outro, podendo passar a ser escutado como outro sujeito, ou seja, de tal forma que não se presta mais a servir de tampão para a falta. Essa é a posição do analista, é a posição do savoir faire analítico indispensável para sustentar o desejo do analista e os atos analíticos. Nela, o analista não é sujeito, mas função.



3 – Trabalho de Doris Rinaldi: A função do não-saber no fim de análise e na formação do analista



O desejo do analista surge e se sustenta pela via do saber que não se sabe, ou seja, pela via da douta ignorância. A formação do analista passa pela insistência do analista em sua própria análise, na qual é vivida a experiência desse não-saber, a partir do qual pode-se chegar ao saber fazer com alíngüa, de onde pode nascer o desejo do analista – desejo radicalmente distinto do desejo de ser analista.



4 – Trabalho de Elza Caloba: O gozo na direção da cura



A função primordial de uma análise é fazer o sujeito passar de vítima à responsável – torção essa, que exige do analista uma ética, uma ética do desejo do analista. Essa função primordial é sinônima de se atingir o ser do sujeito, modificando a economia do seu gozo, o que o faz mudar de posição.



5 – Trabalho de Luiza Bradley: Uma escolha de objeto particular



Há uma discordância fundamental entre o eu e o ser, na qual está contida a diferença ressaltada por Freud entre a dimensão da identificação e a dimensão da escolha de objeto. Não é a mesma coisa se estar do lado do sujeito ou do lado do objeto. O objeto pode ser de identificação ou de captura amorosa.



6 – Trabalho de Miriam Nogueira Lima: Amor e ódio numa direção de cura



O analista não participa das paixões do ser, mas funciona na dimensão da douta ignorância, isto é, da ignorância formal que é formadora para o sujeito. Ela consiste em o analista ignorar o que sabe e este é o saber do analista.



É na dimensão dessa ignorância formal que o analista pode sustentar o desejo do analista, que se contrapõe às artimanhas e armadilhas amorodiosas.



7 – Trabalho de Sandra Walter: Narcisismo e transferência



As dificuldades particulares que surgem na análise em função da transferência imaginária, considerada a partir da noção de projeção narcísica máxima, podem convocar o analista em seu próprio narcisismo. É aí, na análise, onde o analista se empresta às reproduções dos fantasmas de cada analisante, que ele está em contato com seu próprio fantasma. Por isso, a condição fundamental da análise está na análise do analista.



8 – Trabalho de Sônia Sarmento: (A) cerca do silêncio em psicanálise



Contracenar a cena muda é função efetiva do analista. O analista vela a rítmica e a arrítimica da cena analítica mediante sua escuta, mediante seu lugar de morto. Isso só pode acontecer se o analista não tentar compreender tudo. Por isso, é importante a análise do analista. A ética analítica exige fazer articulações que permitem algo novo surgir. Trata-se de escutar o que nunca foi escutado – atravessar o vale do silêncio; fazer a palavra surda e muda sair da prisão.



Como se vê, de uma forma ou de outra, em todos esses recortes há uma ênfase sobre o fazer analítico, que depende da análise do analista. Será uma coincidência? Será um enviezamento de leitura absolutamente particular?



Creio que não, especialmente porque, em se tratando de sustentar uma práxis cuja lógica e ética se apóiam no fato de que aí, na análise, só existe um sujeito, o analisante, cria-se para o analista o exacerbamento de sua falta-a-ser, o que o convoca a se colocar, fora da análise que conduz, permanentemente em questão. Isso é sinônimo de colocar em questão os elementos em jogo nessa condução.



É na perspectiva desse questionamento que se pode ler esses elementos abordados pelas colegas de IPB, como é o caso do desejo do analista, que se relaciona muito mais à dimensão do corte do que a algo ontologizado, conforme lembra Ana Lúcia. É o caso do não-saber que se opera num fim de análise, como coloca Dóris, e que Miriam considera enquanto “douta ignorância” ou ignorância formal, que é “formadora” para o sujeito. É o caso da escuta do analista, que só se sustenta “se ele não quiser compreender tudo”, como pontua Sônia, o que lhe permite “se prestar às reproduções dos fantasmas de cada um”, conforme observa Sandra. É o caso da possibilidade do analista fazer semblante do objeto a – objeto diferente do objeto de identificação (objeto ideal), que é uma importante diferença apontada por Freud e sobre a qual trabalha Luiza – possibilidade que depende de sua própria análise, e que deve ter-lhe permitido uma “mudança na economia do seu gozo”, como é trabalhado por Elza.



A meu ver, todos esses elementos, que se constituem nos fundamentos da práxis analítica, naquilo que “invaria” nas variantes, podem ser abordados e questionados a partir de uma única perspectiva básica: o “ser” do analista, que deve “não-ser” na análise, que deve “não-saber” no ato psicanalítico. É aí que se ancora o paradigma lacananiano de que a análise só se sustenta se o analista não tiver contas a ajustar com seu ser. É aí que se encontra o nó do trabalho analítico – o nó das resistências à análise. Falar disso, é outra forma de relançar a questão sobre “o que faz com que uma psicanálise opere”, levantada por Lacan em todos os seus Seminários e Escritos.



Sustentar e desenvolver essa questão é abordar o que se passa num fim de análise, não um fim qualquer, pois existe mais de uma forma de se sair de uma análise[4], mas um fim cuja saída compreende a passagem de analisante à analista, ou seja, a ultrapassagem do plano das identificações edípicas, fálicas, ideais, ao plano de identificação à letra, ao sinthome – outra forma de se falar de travessia do fantasma.



No que se refere à sustentação da função (do) analista, o importante dessa ultrapassagem incide sobre a possibilidade que se abre para o sujeito de “funcionar” também em outro registro, que não apenas no registro do Outro, ou seja, de funcionar no registro do semblante do objeto a. Isso só é possível por ele ter se descolado da fixação imaginária que esse objeto recebe na perspectiva fantasmática, enquanto substituição fálica. Tal possibilidade corresponde ao saber fazer com – saber fazer outra coisa com seu sintoma – saber esse, diferente do saber inconsciente, que convoca o Outro para dar sentido ao ser do sujeito. É essa dimensão do sentido que precisa ser ultrapassada no analista.



Funcionar no registro do objeto, ou se colocar enquanto semblante do objeto causa do desejo do Outro, significa ser possível suportar o não sentido, isto é, o não saber sobre o ser. Significa ter chegado, na própria análise, à posição de destituição subjetiva, na qual se prescinde – num determinado nível – do “efeito sujeito” promovido pelo Outro. Assim, não ser sujeito – destituição subjetiva – é prescindir do sentido subjetivo. Sem isso, a saída de uma análise equivale à perversão, ou seja, equivale ao sujeito recusar o não-saber e, nesse lugar, colocar o “eu não quero saber disso”, ou o “eu sei, mas mesmo assim”. Nesse caso, ao invés de semblante, o “analista” se coloca como o próprio objeto causa do desejo do analisante, do qual espera advir um “efeito sujeito”, um efeito que lhe garanta “ser analista”.



Portanto, falar da “análise do analista”, essa análise que permite sustentar o não-senso, significa considerar um exercício que se desenvolve dentro de uma lógica que vai além da Castração[5], vai além da lógica fálica – essa lógica que é implantada no Édipo pela “criação de sentido”, mediante a metáfora paterna, o Nome-do-Pai. A lógica do analista, que é a lógica da Psicanálise, é a lógica do não todo[6], na qual não há um saber – um saber do Outro –, na qual o saber precisa ser inventado, o que é condição do ato analítico, condição de surpresa.



Mais precisamente, para que o lugar e a função (do) analista se sustentem, sustentando a Psicanálise, é necessário que, na experiência, no “padrão” da cura, a dimensão do Real enlace a dimensão do Simbólico, de tal forma que flexibilize a dimensão do Imaginário. Dito de outra forma, para que uma análise se sustente, é preciso, do lado do analista, que a dimensão do sentido – paixões do ser – seja suplantada por uma “foraclusão” do saber do Outro, o que estou chamando de “loucura” do não-saber – que dá título a este trabalho.

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