Não há rapport, razão, relação sexual

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Ana Lúcia Bastos Falcão




Desde o início, em seus seminários, Lacan foi bordejando alguns conceitos que deram contorno à afirmação - Não há rapport, razão, relação sexual.



No seminário de 1953, A Relação de Objeto já aludia à triangulação Edípica como sendo uma composição da relação mãe-criança-pai com o vértice de um dos triângulos apontando para o falo. Acentuava que não se tratava de uma relação ternária, mas quaternária na qual a primazia era do falo como objeto imaginário.



No texto A significação do falo e Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina, Lacan esclarece o que é comum e o que diferencia as posições masculina e feminina. É justamente nesse sentido que insiste na concepção freudiana acerca da fase fálica como comum aos dois sexos. Por intermédio de sua clínica, constatou que a relação do desejo ao falo é estabelecida, desconsiderando a diferença anatômica entre os sexos. Freud já se referia ao falo como atributo universal quando descrevia a fase fálica na qual as diferenças entre os sexos eram "completamente eclipsadas pelas suas semelhanças... a menininha é um homenzinho"(Freud,S-118b). Em 1923, no artigo A Organização genital infantil, ressaltava a primazia do falo em detrimento da primazia dos órgãos genitais. No complexo de Édipo, o menino, ao olhar a região genital da menina, sente-se ameaçado, "não vê nada ou rejeita o que viu"(Freud,S-281d), procurando encobrir sua percepção. A posteriori, a ameaça do pai adquire realidade a partir dessa visão anterior que o atormenta. Freud diz que a relação do menino com a visão da castração da menina marcará para sempre sua relação com as mulheres. O menino desiste das investidas no pênis por seu interesse narcísico: momento de saída, recalcamento "feito em pedaços pelo choque da castração"(Freud,S-285d). Em 1931, no artigo Feminilidade, expressa que, na fase fálica, só existe a masculinidade: a feminilidade não existe. A antítese estaria entre "possuir um órgão genital masculino e ser castrado"(Freud,S-161a). Na puberdade, surgiria a polaridade masculino/feminino na qual a masculinidade combinaria "os fatores de sujeito, atividade e posse do pênis"(Freud,S-161a), enquanto a feminilidade, as de objeto e passividade. A menina em oposição ao menino, entraria no complexo de Édipo pela castração. Posteriormente uma "nova onda de recalcamento" afetaria a sexualidade do clitóris,... parcela da sexualidade masculina"(Freud,S-208/9e). O recalque do clitóris/falo faz da vagina o órgão primordial, processo de transição do qual "nada existe de análogo no homem"(Freud,S-236f) Nessa passagem, a menina desloca seu desejo em torno da equação pênis-criança. Freud sempre chamou a atenção para a região obscura e enigmática, que era, para ele, a questão do feminino: um continente negro.



Lacan sublinha a primazia do falo como significante primordial para a estruturação do sujeito: é em torno dele que gira todo o complexo de castração. No entanto, a castração que importa não é a do sujeito (criança), mas a do Outro materno; é a partir dela que ele constrói todo o complexo. É o efeito da percepção da mãe como castrada, não fálica, que repercute no sujeito, desencadeando sua posição em relação à castração e à assunção de seu sexo. A castração do Outro efetiva a castração do sujeito. No texto De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose, Lacan esclarece que o nome do pai faz passar, para debaixo da barra do recalque, o desejo materno, desejo do falo, tendo como efeito a significação fálica, instituindo o sujeito, "não mais em posição de mero objeto do desejo para a mãe - Desejo Materno"(D'Agostino,L), mas como sujeito dividido. No seminário O Avesso da Psicanálise, em 1968, Lacan recorreu à metáfora de um crocodilo com uma pedra na boca como sendo a representação do desejo materno. O falo recalcado seria essa pedra, esse rolo que impede que o crocodilo feche a boca, embora nunca se saiba...de repente ele poderá fechar essa "bocarra", esmagando o sujeito.



Não há rapport, razão, relação sexual. A relação sexual não existe, a razão é o falo, ou, segundo alguns autores que se referem à existência na língua francesa das duas palavras, rapport e relação,"as relações existem, senão nós não existiríamos". A noção de rapport é que estaria relacionada a "diferença dos sexos, que se fundamenta na linguagem, sobre a relação ao ser e ao ter que desenha, para o homem e a mulher não uma complementaridade, mas um vetor comum"(Szpirko,J).No texto O Aturdito Lacan já havia se referido ao "não há rapport sexual" como não implicando que não existisse relação ao sexo. "É bem isto o que demonstra a castração, mas não mais: a saber que essa relação ao sexo não seja distinta em cada metade, pelo próprio fato de que ela os reparta"(Lacan,J-11f;20-21g). Em 1972, explicita a impossibilidade da existência da relação sexual atribuída à impossibilidade da inscrição da relação entre dois corpos de sexo diferente.



É para o significante recalcado - o falo - que converge toda a questão do não há rapport, razão, relação sexual. O sujeito assume sua posição sempre em referência ao falo, "ela é sem tê-lo", "ele não é sem tê-lo"(Lacan,J). Em 1970, Lacan anuncia que a identificação sexual não está em uma pessoa se acreditar homem ou mulher e, no ano seguinte, elabora as fórmulas da sexuação. Desde que é o falo que está recalcado, ele é obstáculo ao rapport. O rapport propriamente dito é do desejo ao falo e não de um parceiro ao outro. O falo é a "ratio", a medida; é em relação a ele que se posicionam os dois sexos. O impossível do rapport sexual que não cessa de não se escrever diz respeito, então, ao não recalque do rapport sexual, desencontro, monólogo, efeito da diferença entre os sexos.



Em 1972, no seminário Mais, Ainda, continua a reafirmar seu postulado anterior: a primazia do falocentrismo. Tentando responder às críticas feministas que reivindicavam "Direitos iguais", acusando a psicanálise de machista, acrescentava o conceito de gozo suplementar, gozo propriamente feminino, e a afirmação de que A mulher não existe a não ser que o artigo A seja barrado. Lacan traz algumas proposições acerca da "realidade" de cada sexo, construindo as fórmulas de sexuação em torno do termo universal. Na proposição masculina, todos os homens são submetidos à função fálica, formando um conjunto. A regra, a exceção a confirma: há um limite à função fálica, à castração. É ao menos Um, o pai Real não castrado, pai mítico, dono de todas as mulheres, o único detentor do falo que institui a exceção, fazendo com que todos se confortem em se submeterem à castração.A função fálica faz com que o sujeito, através da castração, tenha acesso ao falo simbólico.



Na versão feminina, "as mulheres são não-todas",não totalmente, "submetidas à função fálica"(Lacan,J-h). O universal não poderia partir da função fálica da generalização falocêntrica. A mulher está dividida por um gozo dual, gozo fálico e gozo outro, não-fálico, gozo suplementar, para além do Falo. A mulher se fende, não é toda situada na função fálica. Tem, por um lado, um gozo fálico e, por outro, um gozo a mais nomeado gozo para além do Falo. Lacan se refere ao gozo para além do Falo, dizendo que talvez a mulher nem saiba nada dele a não ser que o experimente, momento a partir do qual ela tem esse saber. A razão, o rapport na mulher, não é só ao falo, ela é não-toda, não-toda tomada pelo gozo fálico. Há um gozo outro, propriamente feminino, do qual é impossível falar e que é sua radical diferença. Não há significante que represente esse gozo suplementar porque é da ausência do significante fálico que a mulher goza: não há inscrição possível da mulher. Só há recalque do falo não havendo possibilidade de se "dizer" desse gozo a mais. É nesse aspecto que a mulher não existe. Na versão feminina do universal, não há exceção, não há uma mulher toda. As mulheres não formam um conjunto, são contadas uma a uma porque não há exceção. Não existe A mulher; ela "é um sonho do homem"(Lacan,J). A mulher toda, plena, não existe a não ser que pensássemos na mãe do psicótico tentando fazer com o filho, completamente assujeitado no lugar do falo, esse todo. Em nossas discussões, nos intrigou uma frase de Lacan " a mulher só entra em função na relação sexual enquanto mãe"(Lacan,J-49h). Os efeitos dessa frase nos recordam outra afirmação _ a mãe abafa a mulher(Laberge,J-c). Se a mulher é barrada, dividida entre um gozo fálico e um gozo suplementar, como poderíamos pensar em uma correspondência mulher-mãe? Isso acarretaria que, sendo como mãe que a mulher entra na relação, no rapport, o filho, como objeto a, estaria funcionando como tampão, rolha no lugar da falta, contrapondo-se à posição da mulher, que goza com a falta do significante.



Enfim, retornando ao não há rapport, razão, relação sexual, concluiríamos: há impossibilidade de emparelhar o todo e o não-todo, não há uma relação comum ao gozo. Esbarramos novamente na "relação de cada sexo com a função fálica colocando-se como obstáculo à relação com o outro sexo"(Millot,C). "O gozo fálico é o obstáculo pelo qual o homem não chega a gozar do corpo da mulher"(Jacques,Lacan-15h), porque, mais especificamente, "isso de que ele goza é o gozo do órgão" enquanto do lado feminino há o gozo fálico e o gozo Outro sem correspondência.



Não há rapport sexual na neurose, na psicose...

Lacan refere que a linguagem deve ser tomada como funcionando em suplência pela ausência da única fonte do real que não pode vir a se formar em ser, a relação sexual. Segundo Benjamin Domb, é a linguagem que se interpõe, separando o corpo da criança do corpo da mãe, barreira que interdita o rapport sexual. No seminário Momento de Concluir (11/04/1978), Lacan enuncia que "não há relação sexual", mas abre um parênteses: "salvo para as gerações vizinhas, a saber os parentes por um lado e os filhos pelo outro. É no que se detém - falo da relação sexual - e no que se detém a interdição do incesto"...Em outro momento, reporta-se a triplicidade que funda o fato da sucessão das gerações, dizendo que "Há três, três gerações, entre as quais há relação sexual". No seminário O Sinthoma, utiliza Joyce para falar do sinthoma; a obra de Joyce seria tomada como um território através do qual ele pode estabilizar sua estrutura. O próprio Joyce teria dito que sabia, iria ocupar os universitários por muitos e muitos anos estudando sua obra. A produção de Joyce foi de muita importância para sua estrutura; enfim, foi na literatura que ele pôde utilizar a linguagem de maneira muito particular. Deixando de lado a questão da estrutura de Joyce, Lacan, reportando-se à relação de Joyce com Nora, afirma que, embora ele diga que a relação sexual não exista, ele tinha com ela uma "relação sexual estranha"(Lacan,J-61i-10/2/76). A partir dessas leituras, permaneceu como ponto controvertido se, na psicose, poderíamos dizer que há rapport sexual. Sabemos que - não há rapport sexual - diz respeito à existência do recalque do falo que obstaculiza o rapport, no entanto, tratando-se da psicose, poderíamos dizer que há rapport sexual? Não havendo recalque do falo, haveria rapport do grande Outro materno com o filho, mesmo que esmagado? Tratando-se da psicose, a permanência do "sujeito" no lugar do falo do Outro, atrelamento e aprisionamento que faz dele "pedaço", "complemento", "acessório" para o desejo materno. A falta de inserção do psicótico como falasser, que, embora esteja na linguagem, não se apropria dela. Neste aspecto, poderíamos falar que há rapport sexual? Esta questão ficou como enigma para nós.

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