Sobre os Chistes

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Mesa Temática: Estruturas Clínicas e Formações do Inconsciente


Ana Lúcia Bastos Falcão


Apresentado no Simpósio de Brasília/DF - 2002


“Aquele que deixa, dessa forma, escapar inopinadamente a verdade na realidade está feliz em tirar a máscara”.

Sigmund Freud


O texto de Freud, Os chistes e sua relação com o inconsciente, foi publicado em 1905. Nele Freud aborda os chistes, seus vários mecanismos, associando-os aos do sonho- condensação e deslocamento- e à própria neurose. Reconhecia, assim, no chiste a “textura” própria da formação do inconsciente. Chamou a atenção acerca da importância da linguagem, mas, primordialmente, fundamentou, como caráter essencial, seguir o fio da palavra. A despeito dos neurologistas, para os quais interessava a afânise da palavra, déficit indicador de algum distúrbio ou fenômeno, a Freud, em oposição, o interesse estava na referência interna da palavra. É o sentido, o valor da palavra, que representa o sujeito do inconsciente para outra representação.



Nos chistes é sublinhado o jogo de palavras, o aparente nonsense, a destituição de sentido remetendo, a porteriori, a uma nova representação, a um outro significante para o sujeito. Freud ressalta a “necessidade psicológica” do sujeito no processo formador do chiste, tendência a uma significância. Assim, a atribuição de um sentido a um comentário e a descoberta nele de uma verdade, até então inconsciente, são aspectos do chiste em seu caráter revelador do “impossível”, do inacessível pelas vias comuns do pensamento. O chiste promove um desconcerto, no entanto, é sucedido por um esclarecimento. Ultrapassa seu próprio conteúdo, ensejando um passo a mais, passo de sentido, sustentado pela própria cadeia significante. Mas a compreensão dos chistes estaria vinculada ao conhecimento dos determinantes “subjetivos” de seu autor. Comparando o determinante da neurose ao do chiste, Freud salientou a importância em “compreender” a condição da pessoa envolvida nessa formação do inconsciente, a quem ocorre o chiste. Em alguns tipos de chistes, um de seus motores, é a dificuldade do sujeito em criticar ou com a agressividade direta etc. É possível apenas através de um projeto tortuoso a liberação dessa energia.


Enquanto, no que denominamos cômico, não há necessidade da comunicação, no chiste há uma necessidade de contá-lo a alguém, necessidade ligada, imprescindivelmente, à elaboração do próprio chiste a partir dos obstáculos da razão. O chiste não se realiza sozinho e só se conclui com a comunicação da idéia a alguém. Na própria estruturação do chiste encontraríamos três pessoas: o autor, aquele a quem o chiste vem; a segunda pessoa sobre quem o chiste versa ou seu objeto e a terceira pessoa, aquela que o escuta. Apesar do prazer envolvido em sua elaboração, a própria pessoa a quem ocorre o chiste não consegue rir dele, ela prescinde da pessoa que foi objeto do chiste, mas não prescinde de alguém para escutá-lo. É exatamente a terceira pessoa a quem é comunicado o resultado do chiste. A terceira pessoa avalia a “tarefa da elaboração do chiste”, incidindo em uma espécie de julgamento dos propósitos dele, portanto, é preciso que exista nela “benevolência” e neutralidade, “ausência de qualquer fator” que possa inibir sua comunicação. O chiste exige uma platéia própria. É necessário um “acordo psíquico” entre o autor e aquele que o escuta, as mesmas inibições internas só superadas com a conclusão do chiste. O ouvinte quando escuta deve ter o hábito de erigir semelhante inibição a que a primeira pessoa superou para elaborá-lo, é isto que provoca o riso. A colaboração da terceira pessoa, do ouvinte, faz parte da realização do chiste. Presenteada com o chiste, ela constitui a possibilidade de emergir o prazer. O processo se passa então entre a primeira pessoa e a terceira. A atenção apanhada desprevenida somada à descarga inibitória liberada se completa a partir da surpresa do chiste.



A obtenção de prazer é calculada visando a terceira pessoa, o ouvinte. Havendo obstáculos internos intransponíveis no autor, faltaria a este a condição de descarga. Em relação ao prazer, sua condição de obtê-lo, seria apenas relativa ou parcial. O autor atingiria o riso impossível a partir das impressões causadas por aquele a quem faz rir. Ele utiliza a terceira pessoa e se reúne a ela para suscitar seu próprio riso.


Contando um chiste a alguém o criador do chiste assegura o sucesso de sua elaboração e, além disso, completa seu próprio prazer pela reação provocada em quem escuta, reafirmando o aumento no lucro. O processo do chiste na primeira pessoa acarreta prazer pela suspensão da inibição e diminuição de toda a despesa local, todo gasto de energia associado à inibição, mas não consegue chegar ao fim, a uma “conclusão” se não tiver incluído nele alguém que o escute para que seja possível a obtenção de um alívio geral pela descarga.



O Chiste Familionario


Lacan, nas Formações do Inconsciente, retoma um chiste apresentado no livro de Freud. Trata-se do conhecido chiste Familionario. Heine, poeta e escritor alemão, em seu livro – Reisebilder (Quadros de Viagens) na parte intitulada Os Banhos de Lucas, traz o chiste citado por Freud. Heine dá o nome de um conhecido seu, Hirsch-Hyacint, ao personagem. Permanece a dúvida, não se sabe, ao certo, se Hirsch-Hyancint existiu ou não. Talvez não propriamente com os ditos que Heine lhe deu no livro... Hirsch-Hyacinth no livro é um espirituoso morador de Hamburgo, agente de loteria e mordomo profissional, que se gaba de suas relações próximas com Salomón Rothschild, uma das personalidades mais ricas da Alemanha. Hirsch-Hyacinth comenta: “E tão certo como Deus há de me prover todas as coisas boas, doutor, sentei-me ao lado de Salomón Rothschild e ele me tratou como seu igual_ totalmente familionario.”.


Uma primeira advertência seria que para ser um chiste não bastaria dizer: “ele me tratou de igual para igual” sendo imprescindível o surgimento de algo novo. A novidade, a criação, foi o neologismo familionario. Esse neologismo é o veículo revelador, embora surgindo como algo errado, causando desconcerto, parecendo ininteligível e enigmático. Em um segundo momento há a descoberta acarretando todos os novos sentidos e valores. Familionario, palavra construída a partir dos mecanismos de condensação e deslocamento, metáfora e metonímia, está calcada em um sentido particular. O efeito cômico da palavra remonta à possibilidade de interpretação dela, atribuída à sua formação e características. Freud já havia ressaltado os fundamentos do prazer no chiste nos jogos de palavras e no retorno infantil à arbitrariedade do próprio significante. O comentário de Hirsch-Hiacynt se expressa violentando o código, mas, a exemplo da fragmentação dos sonhos, é possível desvendar por qual trilha ele foi construído. Familionario é a própria mensagem. A princípio, se não nos ativermos ao que é próprio ao “texto” do chiste, nos escaparia a sentença: “Rothschild me tratou familiarmente”. Hirsch, como no texto gostaria de ser chamado, porque mudou um de seus nomes, foi recebido por um milionário como um igual, familiarmente, na medida em que isso pode ocorrer quando se trata de um milionário. O chiste apresenta duas fontes de prazer: a verbalização, no jogo das palavras com o arbitrário do significante ou no nonsense, e o prazer de escapar da censura, de dizer o que se quer dizer sob disfarce. Freud afirma: “É em primeiro lugar a simples forma que transforma em chiste um juízo...”. E citando a frase de Jean Paul explicita: “A posição é vencedora seja entre guerreiros seja entre palavras”(Freud,S. p 26, citando Jean Paul). Encontramos no chiste a abreviação de duas frases:


Rothschild me tratou como um seu igual _ bem familiarmente, tanto quanto é possível a um milionário. Mas o que desaparece é a segunda parte da sentença, condensada no chiste: a referência “ao tratamento familiar”. Familiarmente condensada a milionário, faz surgir como substituto Familionario. Apesar de toda inovação no código, é possível o surgimento do sentido se for levada em conta a condição subjetiva de quem fez o chiste. É “familiar” que está recalcado e, além disso, com a palavra familionar há todo tipo de associações com fama, famoso, fome de brilho.

A técnica dos chistes relembra toda a primazia do simbólico ressaltada por Lacan. Nas Formações do Inconsciente, Lacan distinguiu a importância do presente do discurso ao invés do discurso do presente ou a primazia da realidade do discurso e não da realidade factual. Concluiu valorizando a atualização no discurso do passado historiado pelo sujeito “que fala da antiga pátria de seu primitivo jogo com as palavras”(Freud,S. p 160).


É isto que o chiste traz, abertura para se escutar o que nele fala, o que ele suporta da cadeia significante, promovendo a articulação de algo novo. No seminário O Avesso da Psicanálise, Lacan sublinha, abordando o discurso do analista, a possibilidade de, no lugar da produção, surgir um novo significante unário -S1- que modifica, rearticulando a cadeia significante, fazendo surgir outro significante que deixe de ter para o sujeito o peso do sofrimento e dos determinantes infantis.


Sobre o chiste e o autor: Uma ficção


Freud refere a Hirsch como uma criação de Heine, um Sancho Pança do poeta. Heine, um dos autores prediletos de Freud, se serviu do disfarce de seu personagem para falar pela boca dele. Hirsch foi para Heine “como uma máscara fina”(Freud,S. p 136), ficção e autoparódia. Heine ao modo de Hirsch, seu personagem, também trocou seu nome de batismo aos 27 anos de Harry por Heinrich para escapar da sua origem judaica. Nascido em Düsseldorff, na Alemanha, filho de um pai comerciante falido e desvalorizado, que gostava de filosofar e fazer versos, e de uma mãe de intelectualidade razoável, “recebeu dela todos os seus projetos” antecipados. Ela via nele o futuro: um grande general da Corte Napoleônica, mas a idealização de Napoleão decai. Depois ela substitui este projeto por um único desejo: que ele consiga poder através do dinheiro. Heine é proibido por ela de ler livros e fazer versos. Queria impedi-lo de ser poeta “um pobre diabo que faz versos por umas moedas e sempre morre no asilo”. Betty encontra uma outra saída única para ver seu desejo realizado: enviar Heine para morar com o meio-irmão do pai dele. Salomón Heine, foi um rico banqueiro, comerciante, que recebeu Heine como a um sobrinho pobre, tratando-o muito familiarmente, o que o amargurou por muito tempo. Heine quis casar com a filha dele, mas foi rejeitado por ela por causa de seus escassos recursos. Tentou ser comerciante e advogado, mas não foi bem sucedido e terminou sua carreira sendo jornalista e fazendo versos. Tornou-se um literato do Romantismo reconhecido na França, onde morou, e até hoje não conquistou admiradores em sua terra natal.


Foi este o contexto “familiar”, talvez, onde se formou “familionario”. O “solo da emoção subjetiva” (Freud,S p 136) para a construção desse chiste, particularmente, foi a história repetida. O chiste proporcionou a Heine obter prazer do que foi para ele amargura e, ao mesmo tempo, lhe deu oportunidade de comentar sobre o tio com quem tinha uma dívida, mas que lhe tratou com desdém. Heine procurou, mesmo tendo esbarrado com a palavra do Pai dele pouco valorizada pela mãe, uma saída identificatória, possivelmente, muito bem sucedida. Lacan ressaltava que o pai só entra no “triangulo quaternário” a partir do desejo materno, da outorga de sua palavra, de seu lugar. Exemplifica isto com todo tipo de alusões, desvalorizando a realidade ambiental, sociológica e comportamental. Para falar da função paterna, apresentou em uma de suas lições um primeiro triângulo constituído pelo grande Outro materno, criança e falus. Ressaltou que é no Outro materno, na articulação inconsciente de seu desejo que está a possibilidade da outorga deste outro lugar, abertura para a entrada do pai que priva a mãe da criança. Essa foi minha contribuição para tentar pensar os chistes com o “Familionário” de Heine e a articulação com a particularidade de sua história. O poeta conseguiu que o “familiar” ficasse recalcado fazendo de Hirsch apenas um personagem que contribuiu para a sua fama e seu brilho no campo da literatura.

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