O gigante sem coração

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O gigante sem coração

(Conto sueco)


Como imã, os postos sempre se atraem; é assim com o homem e mulher, com o masculino e feminino. Um tem a necessidade do outro para se definir na sua originalidade. A mulher é precisamente mulher por oposição ao homem, e vice-versa; sem isso permaneceriam na sua condição assexuada de pessoa humana.


Se de um lado existe a atração, o desejo da intimidade, e o namoro e até a paixão, o contrário também é verdade: o conflito, à distância, o medo e até o ódio. Lidar com os encontros dos opostos é aprendizado, e inicialmente parecemos verdadeiros gigantes desajeitados e sem coração, muito impulsivos e até e só querendo “carne”. É dessa tentativa de casamento do masculino com o feminino, e das dificuldades que encontramos o caminho, que o presente conto nos fala.


Para mais informações e interpretações a respeito do conto não deixem de ler: O QUE CONTA O CONTO? Jette Bonaventure. Imperdível.

O gigante sem coração

Era uma vez um rei q tinha sete filhos. Ele estava muito doente e precisava ser substituido, mas queria primeiro ver os filhos casados para depois escolher quem seria seu sucessor. Resolveu dar um cavalo para cada filho para que fossem procurar esposas, já que onde moravam não havia mulheres. Pediu ao mais novo que ficasse com ele para ajudá-lo no castelo e ele concordou, mas o rei pediu que os irmãos trouxessem uma esposa para o mais novo.
Os seis filhos partiram, cada um com seu cavalo e um pouco de comida. Foram em direção da floresta e começaram a procura das esposas. Andaram muitos dias e nada, a fome já estava ficando enorme, pois a comida acabara. De repente, viram ao longe uma luz acesa e se dirigiram para lá. Era um lindo castelo e eles bateram na porta e foram atendidos por um criado. Perguntaram se o rei estava e ele disse que sim. Pediu que entrassem e chamou o rei para falar com eles, pois achou-os muito sujos e esquisitos. Quando o rei chegou, eles contaram porque estavam tão sujos e a verdade sobre a busca de esposas. O rei mandou que tomassem banho, deu-lhes roupas limpas e convidou-os para jantar. Assim fizeram e, qual não foi a surpresa de todos, quando entraram no salão e viram, em volta da mesa, seis lindas jovens. Ficaram muito felizes e pediram ao rei se podiam desposar suas filhas. Ele concordou e, cada um, escolheu a sua preferida. Viveram um tempo no castelo até o casamento, mas depois pediram ao rei para irem ver o pai que os esperava para escolher o sucessor. Assim, despediram-se do rei e foram embora cada um no seu cavalo com a esposa atrás. Nem se lembraram do irmão mais novo. Andaram bastante, até um deles resolver cortar caminho por um atalho e todos concordaram, para encurtar a viagem. Porém, neste caminho morava um Gigante, o gigante sem coração, em uma gruta.Quando eles passaram por ela o gigante fez com que eles virassem estátuas de pedras com seus cavalos e esposas.
O rei, pai deles, estava cada dia mais doente e eles não davam notícia. O filho mais novo(parvo ou simplório), com pena do pai, resolveu que iria procurar os irmãos. O pai pediu que ele não fosse porque só havia uma égua velha no castelo e ele não chegaria a lugar nenhum. Mas ele estava disposto e montou na égua somente com um pedaço de pão para a viagem. Despediu-se do pai prometendo trazer os irmãos de volta ao castelo.
Lá se foi o rapaz andando pela floresta, andou muito até que resolveu sentar-se embaixo de uma árvore e comer um naco do seu pão. Quando comia ouviu uma voz que pedia se ele daria um pedaço para ele. Olhou e viu um Corvo no galho, tirou um naco do pão e deu ao corvo. Este agradeceu e disse-lhe que quando precisasse dele, era só chamar que ele o ajudaria. Ele agracedeu e seguiu viagem. Andou mais e mais e, novamente resolveu descansar, só que estava perto de um riacho e sentou-se na relva, mas logo escutou um gemido e, quando olhou era um Salmão que estava fora d’água se debatendo. Ele pegou-o e colocou dentro do riacho. O salmão disse-lhe que se precisasse dele era só chamar, e mergulhou. Ele continuou sua viagem, mas a égua já não se aguentava mais de pé, ele quase a levava nas costas, mas perto de uma estrada ele avistou um Lobo. Teve medo, mas logo o lobo disse que era amigo e só precisava comer pois a fome era muita. Pediu a ele que lhe desse a égua para comer e ele lhe ajudaria no que precisasse. O rapaz ficou sem saber o que fazer, mas realmente a égua estava mais morta do que viva e ele contou ao lobo porque estava viajando e, esse, na mesma hora, disse saber onde estavam seus irmãos. Sendo assim, ele concordou que o lobo comesse a égua. Após seu banquete, o lobo se fortaleceu e mandou que o rapaz montasse no seu lombo. Assim que ele montou, o lobo saiu em disparada e, rapidamente, chegou a gruta onde estavam os irmãos estátuas. Ele ficou sem saber o que fazer, mas o lobo disse que entrasse na gruta porque aquela hora o Gigante estava fazendo suas maldades. O lobo ficou na porta da gruta tomando conta para avisá-lo quando o gigante chegasse.
Quando o rapaz entrou na gruta teve uma surpresa, pois, sentada numa cama, estava um linda moça. Ele perguntou quem era ela e soube que estava ali pois o gigante sem coração que morava na gruta a tinha roubado de seus pais ainda criança e ela só sairia dali quando alguém encontrasse o coração do gigante e conseguisse matá-lo. O rapaz ficou em pânico, mas ela teve a idéia dele se esconder embaixo da cama e, quem sabe, descobririam onde estava o coração do gigante. Assim fizeram. Quando o Gigante chegou, sentiu cheiro de carne humana e teve um ataque, pois queria comer quem estivesse ali, mas a moça disse que eram ossos que os corvos tinham deixado cair. Ele jantou e foi deitar-se. A moça começou a conversar com ele e perguntar onde estava seu coração. Ele riu muito e disse que estava logo ali na soleira da porta, enterrado. Pela manhã, quando o Gigante saiu, eles foram cavucar a terra da soleira, mas não encontraram nada de coração. Para o gigante não perceber, encheram de flores a soleira da porta. Quando ele chegou ficou irritado, pois não gostava das flores. A moça disse que era para alegrar a casa, mas ele churtou as flores para fora da gruta. À noite foi tudo igual e o gigante disse que mentira e o coração estava dentro do armário do quarto. Pela manhã, eles começaram a busca no armário, mas nada encontraram. Ficaram decepcionados, mas pegaram mais flores e enfeitaram o armário com guirlandas.Mais uma vez o Gigante se enfureceu.Mas não desistiram. Naquela noite a moça foi muito meiga com o gigante, e ele já irritado com a mesma pergunta todos os dias disse : “Ninguém encontrará meu coração, porque está dentro de uma Igreja que tem um Poço no meio e dentro do poço tem um Pato e dentro do pato tem um Ovo e dentro do ovo está meu Coração.” Como pode perceber é impossível alguém achá-lo. Pela manhã eles estavam tristes, mas o rapaz resolveu tentar achar a Igreja e contou tudo para o lobo, seu amigo. Este, disse para ele montar no seu lombo, que rapidamente estariam na Igreja. Assim foi feito, e logo o rapaz avistou a Igreja. Chegando perto, viram que estava fechada e a chave estava no alto e não conseguiam pegar. Na mesma hora ele lembrou-se do Corvo da estrada e para sua surpresa este apareceu e pegou a chave na parede e deu-lhe para que abrisse a Igreja. Lá dentro ele viu logo o Poço e chegou perto, mas era muito fundo e o Pato nadava lá embaixo. Tentou puxá-lo com dificuldade, mas quando segurou o pato o Ovo caiu no fundo do Poço. Ele ficou desesperado, mas para sua surpresa viu que o Salmão estava dentro do Poço e pegara o Ovo para ele. Ficou radiante com o Ovo nas mãos, mas o lobo lhe disse que, primeiro ele teria que mandar o gigante retirar o feitiço dos seus irmãos e depois ele o mataria. Ele apertou o coração e o gigante gritou. O lobo foi até ele e contou que o rapaz estava com seu coração nas mãos e que ele teria que desfazer as estátuas e mandá-los embora. Quando o lobo voltou, o rapaz apertou com força o Ovo e o Gigante morreu. Eles voltaram até a Gruta, para ver se a moça ainda estava lá e, para felicidade do rapaz, ela estava ainda sentada na cama.Seus irmãos já tinham partido. Ele pediu que ela fosse com ele para conhecer seu pai e ela aceitou. Os irmãos, já tinham chegado ao Castelo e contaram muitas mentiras ao pai, inclusive que, realmente não encontraram o irmão e não tinham trazido esposa para ele por só encontrarem as seis. O pai ficou muito triste pois amava o seu caçula. Porém, no dia seguinte, para surpresa de todos, o rapaz chegou com a linda moça, montados no Lobo. O pai não entendeu nada e então, ele contou toda a história que havia vivido e que fora ele que salvara os irmãos e as esposas deles. O pai ficou radiante, mesmo estando doente, quis festejar o acontecimento e disse que ele seria o seu sucessor e a moça a rainha. Quem ficou mais feliz foi o Lobo que passou a viver com eles no castelo, mas os irmãos ficaram tristes, porque dali em diante tiveram que ser somente empregados do castelo junto das esposas.





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Marama e o rio dos Crocodilos
(Conto Africano)





Marama e o rio dos crocodilos é outro exemplo do que pode acontecer quando o pai e a mãe desaparecem da vida de sua filha, e a menina órfã aprende a se fazer respeitar pelas pessoas com quem convive. É típico de quem perde todo sistema referencial porque não pode mais viver o mesmo valor que os pais. Tem-se a sensação de ficar órfão realmente. Isto é válido tanto para uma jovem como para um jovem, seja ele asiático, europeu, americano, ou africano como Marama. Branca de Neve e Marama são, em certo ponto, irmães que conheceram a mesma estória. Porém, Marama se confronta de certa maneira com realidades muito primitivas, com o lado violento e feroz, que exige dela muito cedo saber se colocar. Por tocar nesse lado mais primitivo, a leitura deste conto nos fala de outro modo. Mas deixemos o conto falar primeiro.






Marama e o rio dos Crocodilos




Marama era uma menininha e, quando seus pais morreram, o chefe da tribo a entregou aos cuidados de uma das mulheres de aldeia.

Mas era uma mulher má que batia na menina, não lhe dava nada para comer e só pensava em como se livrar dela. Um dia, ela deu a Marama um pilão pesado, que se us para descascar arroz, e lhe disse:

-Vá ao rio dos Crocodilos Bama-Bá e lave este pilão para eu poder usá-lo para descascar arroz.

Marama se pôs a chorar, porque o rio era muito afastado, era muito profundo e caudaloso, cheio de cobras e crocodilos. As pessoas tinham medo de ir até lá e só ás gazelas e os leões iam lá beber.

Porém, Marama tinha tal medo de sua madrasta ruim, que pegou o pilão e foi-se embora.

No caminho para a floresta ela encontrou um leão. Ele sacudiu sua juba e rosnou com uma voz terrível:

- Como você se chama e para onde você vai?

Marama estava com medo mortal, mas cantou com sua doce voz:

-Marama é meu nome

E não tenho mãe...

Vou ao rio

Para lavar este pilão.

Ao rio dos Crocodilos

Minha madrasta me mandou.

Lá só vão gazelas

E leões para beber.

Lá dormem cobras

e crocodilos.

-Então vá, Marama, menina sem mãe! _ disse o leão. Vá e não tenha medo. Vou cuidar para que as gazelas e os leões não incomodem você quando forem beber.

Marama continuou seu caminho e, quando chegou ao rio, um crocodilo horrendo e velho surgiu na sua frente, abrindo sua enorme boca, seus grandes olhos vermelhos lhe saindo da cabeça.

- Qual é seu nome e para onde você vai? – perguntou.

Marama estava com medo mortal, mas cantou com sua doce voz:

-Marama é meu nome

E não tenho mãe...

Vou ao rio

Para lavar este pilão.

Ao rio dos Crocodilos

Minha madrasta me mandou.

Lá só vão gazelas

E leões para beber.

Lá dormem cobras

e crocodilos.

-Então vá, Marama, menina sem mãe! – disse o crocodilo. Lave seu pilão e não fique espantada. Vou cuidar para que as cobras e os corcodilos que vivem no rio não incomodem você.

Marama ajoelhou-se na beira do rio e começou a lavar o pilão. Mas estava tão pesado, que lhes escapou das mãos, desaparecendo na água. Marama começou a chorar, porque não podia voltar para casa sem o pilão. De repente, surgiu na água um crocodilo que lhe estendeu um novo pilão, limpinho e branquinho, incrustado de ouro e prata.

-Leve este pilão para casa, Marama, menina sem mãe, e mostre-o a toda aldeia, a fim de que todo mundo saiba que o poderoso Subara, rei do rio dos crocodilos, é seu amigo.

Marama lhe agradeceu e voltou para casa. No caminho, encontrou de novo o leão.

- Deixe-me pegar o pilão, Marama, menina sem mãe – disse ele. È pesado demais para você. Vou levá-lo até sua casa, assim todo mundo vai saber que o poderoso Subara, rei do rio dos crocodilos é seu amigo.

Quando Marama chegou em casa, a madrasta admirou muito o pilão e lhe perguntou onde o havia encontrado. Marama apenas lhe contou que o tinha encontrado no rio dos crocodilos. Então a madrasta pegou outro velho pilão de arroz, afim de também encontrar um novo, branquinho e incrustado de ouro e prata.



No caminho para a floresta, encontrou-se com o leão. Meneando a juba, ele rugia com voz terrível:

-Quem é você e para onde vai?

A mulher má teve tanto medo, que não conseguiu dizer uma palavra, pôs se a correr a não mais poder. O leão a seguiu com seus olhos até ela desaparecer entre as árvores, e depois simplesmente levantou os ombros.

Quando chegou ao rio, um velho, horroroso crocodilo lhe atravessou o caminho, abrindo uma enorme boca, seus olhos vermelhos e grandes lhe saindo da cabeça.

-Como você se chama e para onde vai? – perguntou.

A mulher má teve tanto medo, que não conseguiu dizer uma palavra e foi pela beira do rio. Não foi muito longe. De todos os lados, os leões e as gazelas que vinham beber no rio a cercaram, assim como as cobras e os crocodilos que viviam no rio, e todos cantavam em coro:

-Marama, a menina sem mãe,

pode vim lavar
seu pilão no rio,
pois o poderoso Subara,
rei do rio,
é seu amigo.

Mas para você, mulher má,
o rio dos crocodilos
significa a morte!
E assim foi.



Maiores informações e interpretações a respeito deste conto leiam: O QUE CONTA O CONTO? Jente Bonaventura
















Branca de Neve

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Branca de Neve

(Conto de Grimm)


Se a mãe-madrasta de João e Maria espantou-nos pela frieza, calculismo e crueldade, parecendo-nos pouco verossímil que alguém possa ter comportamento como o dela, ficamos ainda mais estarrecidos com a maldade terrível da rainha-mãe, madrasta de Branca de Neve. Como é então que esse conto continua tendo o êxito que tem junto as crianças? Tanto Joãozinho e Mariazinha como Branca de Neve deveriam provocar temor nas crianças, um medo terrível de serem um dia abandonadas pela mãe e correrem o risco de ganhar uma madrasta desse cunho! Se fosse a mensagem a principal que a estória deixasse, certamente não teria tantos pequenos adeptos. Sobretudo, porém, o que fica dessas estórias para eles é que as crianças vencem essas figuras de bruxas e acabam ou encontrando um belo príncipe, ou grande tesouro. Só que Branca de Neve aprende algumas outras lições, além das que aprenderam Joãozinho e Mariazinha.


Ela nasce também em outro contexto: como princesa. Ela é muito bonita e provoca o ciúme da madrasta. Terá que aprender a perder a ingenuidade e não acreditar nas belas “conversas da rainha-madrasta” que a todo custo quer ver a enteada morta.


Seu contato com os anõezinhos irá fazer dela mulher desejável, até quando semimorta, para o belo príncipe. Mas, não nos adiantemos à estória.


Vejamos o que a figura da princesinha repudiada pela madrasta, que conheceu diversas pré-estréias de morte e que acabou sendo reanimada, o que ela pode dizer de nós, meninas e mulheres e, quem sabe, a uma dimensão feminina nos homens também.


Ambas as figuras femininas coexistem nesse conto quase até o fim, e quem sabe também dentro de nós mesmos. Uma menininha inocente, toda bonitinha, mas que contém igualmente um lado adulto, invejoso, que não permiti ao outro lado existir. Tão extremados, o lado mais exigente, que quer ser o melhor e mais conhecido pelos outros, acaba sufocando o lado mais frágil, pequeno e desprotegido.


Pode acontecer tanto dentro de uma mulher como de um homem. Sob o disfarce de querer oferecer o que há de melhor, esse lado acaba na realidade envenenando e paralisando qualquer movimento espontâneo, jovem, informal. Esse ódio entre rainha-madrasta e sua enteada acaba aproximando-as de certa forma, mesmo que seja de forma destrutiva, no primeiro instante. Mas, quando Branca de Neve consegue se livrar do veneno da madrasta, ela se torna mulher e pode se casar. Até aí, era apenas uma jovem perdida na floresta, semimorta. Foi preciso, primeiro, experimentar o veneno dessa “mãe” terrível e, ao mesmo tempo, receber ajuda dos anõezinhos, que exigiram dela cooperação e trabalho.


Devemos, então, concluir com este famoso conto que, para que o lado feminino do nosso ser desabroche, se afirme e finalmente “se case” com o lado masculino, teremos de ter um confronto com uma madrasta, uma mãe ruim? Talvez sim. Mas não podemos esquecer que se trata de imagens e não de pessoas concretas. A experiência que teremos com nossa mãe, ou qualquer figura que tenha características de mãe, até a própria vida, pode a certos momentos ser um seio que nos ampara, compreende-nos, ama-nos, não importando qual seja nosso comportamento; mas, em outros, pode ser uma bruxa que de tanta comida boa acaba nos sufocando, ou alguém que nos inveja. Essa experiência não corresponde a real intenção dessas mães. Elas por sua vez são filhas também.


Para ampliar este tema, o conto seguinte ao da Branca de Neve, e que vem da África, fala-nos da mesma questão, introduzindo agora os bichos.




Maiores informações e interpretação a respeito desse conto leiam: O QUE CONTA O CONTO? Jette Bonaventure

Joãozinho e Mariazinha

Joãozinho e Mariazinha


(Conto Grimm)




Esta é uma das estórias mais contadas para as crianças. Existe uma infinidade de versões ilustradas do conto de Joãozinho e Mariazinha, o que demonstra o quanto ele é preferido pelo público infantil. Porém, quantas mães não sentiram um arrepio a contá-lo aos seus filhos, como se quisessem poupá-los da visão da possibilidade de existirem mãe ou madrastas tão ruins no mundo, capazes de mandar seus filhos se perderem na grande floresta e morrer! Isso vai contra o instinto maternal natural numa mulher! Então, porque esse conto?


Os sociólogos nos explicarão que antigamente eram muito freqüentes as mães morrerem no parto, e os filhos ficarem órfãos e terem uma madrasta. O conto serviria, assim, para permitir à criança órfã entrever a possibilidade de sobreviver, mesmo sem mãe e com uma madrasta, acabar com a bruxa e se tornar rica depois de muito sofrimento.


Mas, será que João e Maria- e quantas crianças no mundo não têm esse nome- não poderiam ter haver com qualquer criança no seu confronto com a figura da mãe? E, talvez, não só ter haver com os meninos de pouca idade, mas poderiam referir-se a um lado infantil de nós, adultos, e nossa necessidade de rever como a figura da mãe em nível pessoal.


A própria vida certamente é uma mãe, seja ela boa protetora e afetuosa, ou má, cheia de perigos, querendo nos conduzir para dificuldades, sofrimentos, e terminando em morte.


Ela até pode até parecer uma madrasta nesse sentido.


Devemos ter cuidado, sendo mulher e mãe, de não nos identificarmos totalmente com a função de mãe, esquecendo que também somos uma Mariazinha. Isso quer dizer que todos nós, de alguma maneira, passamos pela situação de sermos mãe e filha, ou filho, ao mesmo tempo. Conhecemos desde pequenos, desde que não somos mais carregados no colo, à sensação de abandono. É como se se revelasse à criança, com essa experiência, que sua mãe pode ser um pouco madrasta. De repente, ela para de lhe dar comida na boca e exige que ela coma sozinha; é levada a escola, e a mãe a abandona ali. Ao mesmo tempo em que se sente feliz de ser maior, sente-se também abandonada. São “florestas” que a criança tem de enfrentar; pois, sentindo-se pequenina e só, experimenta o abandono, ao mesmo tempo em que tem a curiosidade e a vontade de conhecer essa nova realidade.






Maiores informações e outras interpretrações a respeito desse conto leiam: O QUE CONTA O CONTO? Jente Bonaventure.

O alfaiatezinho Valente

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O alfaiatezinho Valente
(Conto de Grimm)


No mundo da fantasia, da imagem que, quando trabalhada, transforma e enriquece a realidade, vamos entrando no tema herói. Quem é herói nos contos de fada, como é que ele surge, que características ele tem e como é que ele consegue ser vitorioso?


Entre os gregos, nos tempos arcaicos, o herói tinha função principal ser o que mostrava.


O caminho de volta para a imortalidade, para a era onde reinava a nobreza, a beleza e a bondade. Era um exemplo para quem quisesse buscar a solução da famosa pergunta: “de onde vem, quem és e para onde vais?”.


Há muitas semelhanças entre os heróis da mitologia grega e os dos contos de fada, mas infelizmente não percebemos tão claramente, porque seria muito estranho para nós se um conto acabasse com a morte do herói, que para os antigos era o momento mais elevado de seu caminho.




Talvez, o que tenham em comum seja o fato que qualquer pessoa, mesmo quem nasça em berço mais humilde possível, o caçulinha, o bobinho da família, possa se torna herói. O pequeno alfaiate que encontraremos no conto a seguir, recontado pelos irmãos Grimm, enquadra-se muito bem nesse tipo de herói: um humilde artesão, que de repente passa a enfrentar enormes gigantes e recebe, por fim a coroa de rei.




Só que a estória nos choca constantemente, porque o meio que o alfaiate usa não nos parece nada louváveis; finge o tempo todo, faz-se valente quando na verdade é um pobre diabo. Engana o quanto pode. No entanto, sentimos certa simpatia pela sua esperteza e astúcia, e passamos no final a olhá-lo com muito mais apreço. Quem sabe ele não consiga nos transmitir a idéia de que até o mais pobre e humilde, aquele que só sabe mata moscas, tem chances também de ser coroado?




Maiores informações e interpretação a respeito do conto leiam: O QUE CONTA O CONTO? Jette Bonaventure.


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