O Acolhimento, a Escuta e o Cuidado: algumas notas sobre o tratamento da loucura*


Doris Rinaldi







A transformação da ‘loucura’ em ‘doença mental’ é historicamente correlata ao nascimento da psiquiatria e do asilo, como espaço de tratamento da alienação mental. O marco desse nascimento está associado ao Alienismo, com o ‘tratamento moral’ de Pinel que, ao libertar os loucos das correntes e delimitar um espaço onde a loucura pôde tornar-se objeto de uma terapêutica, ao mesmo tempo aprisiona-a, como ‘doença mental’, ao saber médico. Como indica Foucault (1993) , o advento da ordem psiquiátrica se dá simultaneamente ao surgimento de um espaço que é, paradoxalmente, lugar de expressão da verdade da loucura e lugar de sua abolição.



A ordem psiquiátrica opera, ainda hoje, pela suposição de que o saber está no médico e a ignorância no doente. É o lugar onde o ‘louco’ procura sinais de sua identidade perdida nos critérios de objetivação diagnóstica, onde não será mais do que um objeto do saber científico. É este saber que o qualifica como ‘doente mental’ e traça o seu destino de isolamento, respondendo a uma demanda da sociedade que procura afastar de si aquilo que a questiona no mais íntimo de si mesma, isto é, nas suas relações com a morte, com a sexualidade e com a liberdade.



O isolamento do ‘doente’, por sua vez, no meio fechado do hospital, faz surgir o que Maud Mannoni (1971,p.25), ao se referir à segregação psiquiátrica, denomina de uma “doença ‘institucional’ que se superpõe à doença inicial, deformando-a ou fixando-a de maneira anormal.” O tratamento basicamente medicamentoso, mesmo que associado a outros procedimentos terapêuticos, dirige-se aos critérios de adaptação social, onde é a fala do sujeito, sua verdade, que não pode ser escutada. O saber psiquiátrico tradicional, tal como é transmitido nos hospitais, e principalmente naqueles que se dedicam à formação de novos médicos, coloca-se ao abrigo de qualquer imprevisto, melhor dizendo, ao abrigo das interpelações do inconsciente. Como tal, não permite o surgimento de uma verdade singular, constituindo-se como uma forma de defesa fundada no cientificismo médico. Ao enquadrar o ‘doente’ numa classificação nosográfica que determinará o valor de sua palavra, isto é, a desconfiança em relação a sua palavra, não é apenas este que é calado, mas também o próprio médico, ao se proteger das perturbações que a loucura traz, ao invocar esse outro em nós mesmos do qual não queremos tomar conhecimento.



Ainda que nesses duzentos e poucos anos que nos separam da obra de Pinel mudanças tenham ocorrido no tratamento da loucura, com o questionamento da própria ordem psiquiátrica nas últimas décadas, podemos perceber nas novas práticas que se desenvolvem a presença de valores e atitudes da velha prática moral normalizadora.



Não há dúvida de que os diversos movimentos internacionais que se consubstanciaram na experiência das comunidades terapêuticas, na antipsiquiatria, na psicoterapia institucional, na psiquiatria democrática, realizaram uma crítica profunda da ordem psiquiátrica e da cultura asilar e manicomial, procurando implementar várias tentativas de reformas. No Brasil, esse movimento tomou forma nos anos 80 , através da ‘luta anti-manicomial’, tendo, nos anos 90, desenvolvido-se no sentido da proposta de uma Reforma Psiquiátrica, com a apresentação e discussão do projeto de lei Paulo Delgado, recentemente aprovado no Congresso Nacional e sancionado pelo Presidente da República. Mesmo que os asilos ainda continuem em número elevado no País, certamente este movimento teve conseqüências no sentido de introduzir transformações na assistência psiquiátrica, através da criação de diversos serviços alternativos ao modelo dominante hospitalocêntrico, tais como hospitais-dia, lares abrigados e centros de atenção psicossocial (CAPS).



Entretanto, a criação desta rede não garante, por si só, a transformação dos modos tradicionais de lidar com a loucura, uma vez que não se trata apenas de reformar a assistência através da criação social e administrativa de novas e necessárias formas de tratar o chamado ‘louco’, mas de contestar radicalmente a nossa relação com ele, enraizada em nossa cultura. Como afirma Mannoni (op.cit.,p.74)



"Se considerarmos a linguagem como solidária com a verdade, não poderemos deixar de colocar a questão sobre o que procuramos eliminar em nós, quando recusamos a linguagem do psicótico. O que recusamos é uma verdade que nos perturba. Nossa recusa conduz o psicótico a um mundo privado, separado do nosso. Na nossa cultura os seres têm, cada vez mais, dificuldades em fazer entrar o verdadeiro no seu dizer e, quando se põem a dizer a verdade sobre nossa sociedade e sobre nós mesmos, tudo se passa como se nas estruturas que nós lhe oferecemos não houvesse para eles outra escolha que não a da loucura."



Nesse sentido, torna-se importante não apenas reformar, mas desconstruir a ordem psiquiátrica. Esta desconstrução que, de certa forma, confina com o paradigma da desinstitucionalização que norteia a Reforma Psiquiátrica, deve ter, a meu ver, duas faces: do ponto de vista político-institucional, ela se realiza através da defesa da cidadania do louco, de seus direitos, da exigência de respeito social a sua diferença, da criação de espaços de sociabilidade para ele e da substituição do modelo manicomial por outros dispositivos. Esta tem sido a face mais explorada pelos partidários da Reforma Psiquiátrica. Entretanto, todas estas propostas perderão em parte o seu valor se esquecermos a dimensão clínica do fenômeno da psicose, como uma delimitação inscrita pela psicanálise no campo da loucura, a partir do questionamento introduzido por Freud da oposição normal x patológico, que abre uma possibilidade de comunicação entre razão e desrazão. É essa dimensão que permite reconhecer a singularidade de cada sujeito no enfrentamento de um conflito que nos acomete a todos, ainda que com destinos diferentes. Citando mais uma vez Mannoni (op.cit,p.37):



"À pergunta: que é a loucura? Freud respondeu mostrando que não era preciso opor a loucura à normalidade. O que se descobre na loucura está de certa maneira já no inconsciente de cada um e os loucos simplesmente sucumbiram numa luta que é a mesma para todos e que todos temos de conduzir sem interrupção.....(mas) por que alguns sucumbem e outros não?"



Para Freud, ao contrário da concepção psiquiátrica, o delírio é uma tentativa de cura e, como tal, deve se escutado e não suprimido através da medicação. A dimensão clínica, nesta perspectiva, ao contrário da ordem psiquiátrica, valoriza o discurso do psicótico, suas produções, na medida em que supõe que ele veicula um desejo, lhe oferecendo uma escuta, instrumento fundamental para a realização de um trabalho terapêutico.



A escuta na prática psicanalítica inaugurada por Freud é o dispositivo que, do lado do analista, corresponde à regra fundamental da psicanálise para o paciente, de dizer tudo o que lhe vier à cabeça, sem ser detido por sentimentos como vergonha e senso crítico - a “associação livre”. De sua parte o analista deve apenas escutar, sem se preocupar se está lembrando alguma coisa e sem estabelecer uma seleção do material. A isso Freud designa como “atenção flutuante” ou “atenção uniformemente suspensa”, dispositivo através do qual o psicanalista se abandona inteiramente à ‘memória inconsciente’ (Freud, (1912) 1976, p. 150).



Como se pode ver, Freud propõe a direção do tratamento não a partir de um saber previamente instituído, mas de uma abertura inconsciente, onde o terapeuta deve, antes de mais nada, abrir mão de seus preconceitos. É isso que permitirá a ele escutar as particularidade do discurso de cada sujeito que lhe traz uma queixa, as diferenças que o constituem enquanto tal. Naquilo que o psicótico fala, ele se dá a conhecer, mesmo que não possa reconhecer-se no que diz.



É bem verdade que Freud recuou diante do fenômeno da psicose ao afirmar que o tratamento psicanalítico tinha seus limites, considerando que os pacientes psicóticos eram inacessíveis aos esforços terapêuticos, em virtude de dificuldades no estabelecimento do vínculo transferencial. Ainda assim, sua contribuição à análise dessa questão é fundamental, uma vez que o tema da psicose foi uma de suas preocupações desde o início de sua obra, tendo nos legado a primorosa análise de um caso de paranóia - o Caso Schreber - onde subverte a concepção de psicose como falha, desrazão, algo a ser corrigido. Ao contrário, nesta análise ele demonstra a riqueza do universo schrebiano, formulando aí sua concepção central do delírio como forma de cura.



Outros psicanalistas que se seguiram a Freud, como Lacan, não têm, entretanto, a mesma opinião, considerando que é possível o tratamento da psicose pelo dispositivo analítico, ainda que com algumas diferenças em relação ao tratamento psicanalítico das neuroses. Bem, a isso voltaremos mais tarde. Importa assinalar que a escuta permanece como o instrumento essencial deste tratamento, na medida em que a psicose é concebida como implicando uma relação particular do sujeito com a linguagem.



O dispositivo psicanalítico da escuta vem sendo apropriado pelas novas formas de assistência surgidas no bojo da discussão da reforma psiquiátrica. Os profissionais das diversas categorias, em um trabalho que hoje envolve uma equipe multiprofissional que algumas vezes busca, em seu horizonte, a interdisciplinaridade, têm esse instrumento como referência, o que representa, sem dúvida alguma, um grande avanço nas transformações no trato com a loucura. Cláudia Corbisier (1992,p.12), em um trabalho em que discute o papel da escuta na emergência psiquiátrica, chama a atenção para a diferença entre o “escutar e acolher” e o “ver e conter”. A postura tradicional no pronto-socorro psiquiátrico é responder rapidamente a uma suposta urgência que se manifesta, por exemplo, sob a forma de uma crise de agitação, com a sedação medicamentosa ou com a contenção pela força física. Com isso, fica-se sem saber qual era a urgência em jogo, a urgência do atendimento se sobrepondo a do paciente. Quando é possível ter paciência e disponibilidade para suportar o insuportável, a urgência que ali importa pode surgir através de um texto muitas vezes delirante, o que abre a possibilidade de se iniciar um processo terapêutico.



A ideologia da ‘contenção’ está ainda bastante presente, não apenas no serviços psiquiátricos tradicionais, mas mesmo naqueles que procuram se modernizar, incorporando algumas referências novas introduzidas com a Reforma Psiquiátrica. É ainda ‘moeda corrente’, indicando a maneira dominante de se lidar com os problemas relacionados ao sofrimento psíquico. Isto fica claro no texto de Bernardo (1999), em que a autora, ao referir-se à estruturação do trabalho em um determinado serviço de psiquiatria, mostra como são tratadas as questões consideradas pelo discurso médico externas ao quadro psicopatológico do doente.



Os profissionais coadjuvantes entram em cena para resolverem tais questões e limparem o campo da instituição médica. São na maioria os psicólogos e os assistentes sociais que geralmente são solicitados para conter os problemas familiares ou sociais (op.cit., p.140)



Assim, dentro desta lógica, não são apenas as ‘agitações’ que devem se contidas, mas também os problemas familiares ou sociais, tarefa que cabe aos profissionais ‘coadjuvantes’.



Contudo, é neste mesmo serviço que a noção de escuta passa a ser, nos últimos anos, também ‘moeda corrente’, pelo menos para parte dos profissionais envolvidos. Vejamos alguns trechos de entrevistas:



- Eu acho que um dos principais procedimentos é a escuta, inclusive é a escuta que qualifica o terapêutico. Você pode fazer qualquer coisa na sua vida, mas se você tem uma escuta profissional, de ajuda, enfim, para estar fazendo isso, essa escuta participa do terapêutico ( psiquiatra).

- Quanto ao acompanhamento terapêutico é a escuta mesmo. ...O instrumento do psicólogo, seja no consultório, seja na instituição. Mas no sentido de acolhimento mesmo do paciente, para ele saber que tem alguém para escutá-lo, para dar uma certa orientação também. (psicóloga).

- Existem profissionais aqui que cuidam, que escutam, que dão atenção...Enfim, tem certos profissionais que estão abertos para toda a questão em torno do respeito ao usuário psiquiátrico...( Sobre a função terapêutica do trabalho que desenvolve) Mas não é a escuta, é a disponibilidade, é de você estar junto daquela pessoa que está sofrendo... E de um sofrimento que não é diagnosticado assim... olhando, e nem fazendo exame clínico...É algo muito subjetivo. Então, todo profissional aqui do serviço exerce uma função terapêutica, desde o porteiro até... Você não precisa ter necessariamente essa formação. Aquele que não tem a formação tem a sensibilidade. Isso é uma coisa muito presente dentro dessa área. (assistente social)

- (A respeito dos instrumentos de trabalho) Acho que é principalmente a disponibilidade pra escutar o paciente...Atendimento digno é fazer com que essas pessoas que procuram o serviço de psiquiatria se sintam responsáveis por si mesmas, acolhê-las, e dar voz a essas pessoas, que em muitos locais elas não tem, que elas sejam mais do que simples pacientes (psiquiatra).



É importante observar, nestas falas, que a escuta é pensada na sua função terapêutica associada às idéias de ajuda, acolhimento, cuidado e atenção. Para exercê-la é fundamental a disponibilidade do profissional e o respeito ao usuário. Comecemos pelas noções de disponibilidade e de respeito. São noções essenciais para que o profissional se coloque como aquele que escuta, uma vez que implicam na abertura para o Outro na sua diferença, aqui representado pelo psicótico. Não apenas para ‘escutar por escutar’, mas para dar crédito às suas palavras, buscando reconhecer em que esta alteridade nos interpela.



Por sua vez, para que o psicótico nos fale, é preciso que haja acolhimento. Para isso, como afirma Cavalcanti (1997, p.6), é necessário ultrapassar o momento em que o Outro é visto como hostil para atingirmos o que está verdadeiramente em questão na alteridade : “esta radical inacessibilidade ao Outro. Os psicóticos são particularmente sensíveis a forma como nos colocamos disponíveis ou não para este acolhimento”.



A noção de acolhimento é fundamental para que se possa transformar as maneiras tradicionais de lidar com a loucura, inicialmente no sentido da humanização das relações e, mais radicalmente, no sentido do respeito à palavra do louco. Se este primeiro sentido pode ser considerado como de base, uma vez que implica na ruptura com uma concepção de loucura que a associa à animalidade e à irracionalidade, ele, por si só, não é suficiente. É preciso algo mais, além do estabelecimento de relações mais humanas - e todos nós sabemos do que o homem é capaz - expresso talvez de maneira pouco precisa na idéia de respeito à palavra do louco, principalmente pela carga moral que a noção de respeito traz, mas indicando que tal palavra verdadeiramente nos importa. Ela tem importância para nós na medida em que a relação do homem com o desejo está mediada pela linguagem, e nisto estamos todos envolvidos, como seres falantes. Portanto, não se trata de acolher o psicótico para infantilizá-lo com o objetivo de reeducá-lo ou readaptá-lo, a partir de algum saber já pronto.



Além disso, como pudemos apreender das falas acima, a noção de escuta está também associada à idéia de cuidado. Esta é uma noção bastante difundida nas novas formas de assistência à loucura, que não pode esquecer suas origens, ‘cuidados médicos’, onde se revela a ambigüidade da prática psiquiátrica: ao mesmo tempo tratamento e prática disciplinar. Como nos mostrou Foucault (1993), o hospital psiquiátrico se viu preso desde sua origem na dualidade ‘cuidados-punição’.



Os ‘novos cuidados’, que implicam na criação de uma série de atividades, como reuniões, clubes, oficinas, com o objetivo de abrir um espaço de fala e produção para o alienado, muitas vezes recaem numa prática moral educativa, uma vez que ‘cuidar’ já pressupõe o outro como alguém que precisa de ‘cuidados’, seja como uma ‘criança’, seja como um ‘doente’. Crianças , loucos e primitivos permanecem aí como o nosso tradicional Outro. Como afirma Mannoni “...as estruturas propostas ao alienado são estruturas de cuidados, a ele não é deixada outra oportunidade a não ser a de se cristalizar numa certa apresentação: a história de suas desgraças” (op.cit, p. 67).



Comprometer a escuta na perspectiva do cuidado é, de certa forma, dissolver o que ela pode trazer de realmente novo numa atitude pretensamente humanista, onde a possibilidade de uma verdadeira solidariedade, a partir do reconhecimento das diferenças em nosso destino comum, se esvanece numa prática que se confunde com o exercício da piedade. Nesse sentido, penso que seria importante inverter os termos da equação e comprometer o cuidado na perspectiva da escuta, o que deve implicar necessariamente, para os profissionais, cuidar da sua própria escuta no sentido de livrá-la dos preconceitos e de mantê-la aberta às interpelações do inconsciente.



Porém, quando privilegiamos a escuta do discurso psicótico, o que queremos dizer com isso? Sabe-se que este instrumento, formulado por Freud, como aquilo que guia o trabalho do psicanalista na interpretação, pressupõe a transferência. E são justamente as possibilidades de transferência que aparecem fragilizadas na psicose, o que levou Freud a recuar diante desta clínica. Entretanto, isto não significa que a transferência não seja possível na psicose, como aponta o próprio Freud na análise do caso Schreber, onde identifica o Dr. Flechsig como objeto de transferência para Schreber.



Lacan desenvolve e aprofunda o estudo das psicoses, afirmando que não devemos recuar diante das possibilidades de tratamento, tratamento esse que valoriza fortemente a escuta do delírio. Ele introduz a idéia de que o psicótico “dá testemunho efetivamente de uma certa virada na relação com a linguagem...”(Lacan,1985, p.237) Por isso devemos escutá-lo, mesmo que o que ele diga seja incomunicável e sem sentido para nós.



Ele parte da hipótese, desenvolvida com base na noção freudiana de Verwerfung, de que na psicose falta um significante (a metáfora paterna) que amarre a cadeia simbólica, o que determina uma relação particular com a linguagem, diferente da que ocorre na neurose. Essa relação maciça do sujeito com o significante que surge neste lugar de falta, onde as palavras são tomadas como coisas, numa enxurrada de remanejamentos do significante de onde provém o desastre crescente do imaginário, é estabilizada através da certeza delirante. É, portanto, fundamental a escuta do delírio, pois através dele o sujeito se endereça ao outro. Como afirma Meyer (1998, p.62):



“... devemos estar atentos a respeito da delicadeza da posição do psicanalista no trabalho com psicóticos, como nos chama atenção Calligaris(1989), ao apontar que jamais pode ser uma posição que suprima a constituição do delírio. Ao contrário disto, o analista deve, junto com o paciente, tentar fazer o percurso da constituição do delírio para, assim, construir uma metáfora”.



Diversamente da clínica das neuroses onde o psicanalista ocupa, pela transferência, o lugar de “sujeito suposto saber”, uma vez que é um saber que o sujeito busca no analista, na psicose, ao contrário, o sujeito parte de um saber já constituído, a certeza delirante. Nesse sentido ele não demanda um sujeito suposto saber, mas um testemunho dessa certeza. Por isso Lacan indica um lugar preciso para o psicanalista na clínica da psicose: o de secretário do alienado. Diz ele:



“Vamos aparentemente nos contentar em passar por secretários do alienado. Empregam habitualmente essa expressão para censurar a impotência dos seus alienistas. Pois bem, não só passaremos por seus secretários, mas tomaremos ao pé da letra o que ele nos conta - o que até aqui foi considerado como coisa a ser evitada” (Lacan,op.cit, p.235).



O saber psiquiátrico que suprime o delírio não apenas faz calar o psicótico, mas também elimina a via mais rica de abordagem terapêutica. Se o Outro para o psicótico é um Outro absoluto, objeto de amor (erotomania) e de ódio (paranóia), como na relação do presidente Schreber com o Dr. Flechsig, sendo neste lugar que o terapeuta é convocado, o psiquiatra tradicional se ajusta bem a esse papel, de onde não poderá senão conter e normalizar ao preço de eliminar qualquer possibilidade do psicótico advir como sujeito. É preciso, entretanto, no trabalho com psicóticos, que justamente deste lugar o terapeuta escape, colocando-se, como diz Lacan, como seu secretário, ao testemunhar através da escuta o que ele diz. Trata-se de, junto com ele, propiciar a construção de uma significação que barre a invasão significante e instaure o psicótico como sujeito e não como objeto do gozo do Outro. É desta posição terceira que o terapeuta pode tentar intervir no sentido de estabelecer mediações que abram esta relação binária mortal, aprisionada na especularidade imaginária, em direção à dimensão simbólica.



Como isso pode ser feito e quais as chances de sucesso, só a história de cada caso poderá dizer. O importante é assinalar que, nesta perspectiva, a escuta do discurso do psicótico é fundamental, mais do que por razões humanitárias, que não raras vezes se invertem em seu oposto, pela concepção de que a psicose apresenta uma relação muito particular com a linguagem onde se evidencia a relação com o desejo. É isto, na verdade, que precisa ser escutado e não calado, como acontece na prática psiquiátrica tradicional.



Nesse sentido é preciso estarmos atentos para que, nos novos dispositivos de tratamento da loucura, não recaiamos no engodo dos cuidados que, ao final das contas, podem acabar por desrespeitar a palavra do louco. A indicação de Lacan parece-me valiosa quando mostra que, mais do que cuidar do louco, devemos ser seus secretários, o que subverte a perspectiva original do cuidado.



Portanto, em um momento em que o trabalho com a loucura se desenvolve através da conjugação dos esforços de profissionais de diversas disciplinas, na tentativa de desconstruir a ordem psiquiátrica tradicional, impõe-se o desafio permanente de manter aberta essa escuta para que possamos, com cuidado, isto é, com delicadeza, escutar o louco e escutar-nos a nós próprios, em um constante questionamento de nosso lugar e de nossa prática. Creio ser esta a possibilidade que temos de transformar a negatividade em que nossa cultura mergulhou a loucura em um campo rico de produção e criação.

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Clarice Bacelar-Lemos








"Em tudo a paixão é tudo!" (1)


F. Nietzsche







Até começar o esboço do que lhes trago hoje, eu supunha que a minha pesquisa sobre impotência sexual fosse apenas uma decorrência da minha prática clínica. Essas suposições de superfície...



Mas, ao iniciar o esboço desse escrito veio-me, inesperadamente, uma vaga lembrança que mudou o rumo do meu projeto inicial. Sim, ali estava um enigma encarnado, ou melhor, encadernado. Eu queria ler um livro e meu pai sugeria que eu adiasse a sua leitura. Situo apenas que isso se passou próximo ao Golpe Militar de 1964, porque, algum tempo depois, meu pai teve que queimar quase todos os seus livros. Estávamos então, no Brasil, vivendo o absurdo e ridículo momento da caça aos "suspeitos". Enquanto eu queria aquele livro "fetichizado", meu pai queria que eu lesse um outro, "Os sertões", de Euclides da Cunha, um dos maiores épicos da literatura brasileira, sobre a Guera de Canudos. O fato é que eu queria saber que vontade enigmática era aquela, a daquele homem que estava na capa do livro, sério, com bigode e um nome esquisito: Nietzsche.



Será preciso dizer que parei de escrever? Foi o que fiz e sai atrás de um exemplar daquele livro, pois o da minha infância havia sido queimado. Aquele livro continuava sendo proibido para mim e eu não tinha me dado conta disso. Qual era mesmo a vontade daquele homem? "Vontade de potência", dizia ele.



Em 1886, Nietzsche escreveu para sua irmã Elisabeth dizendo: "Durante os quatro anos vindouros trabalharei na conclusão de minha obra principal. O título é já de estremecer: Vontade de potência -- ensaio de uma transmutação de todos os valores. Para isso tenho necessidade de tudo, de saúde, de solidão, de bom humor." (2)



Adiante ele escreve: "Vontade de potência"não é um ser, não é um devir, mas um pathos, ela é o fato elementar de onde resultam um devir e uma ação...". "Vontade de potência" é somente o esforço para triunfar do nada, para vencer a fatalidade e o aniquilamento: a catástrofe trágica, a morte. Vontade de potência é, assim, a vontade de durar, de crescer, de vencer, de estender e intensificar a vida. É vontade de Mais, Mehrwollen". O Todo é força, e vontade de potência é esse impulso interior da força que gera o movimento. Uma força não existe mais que em sua tensão momentânea." (3)



Bem, agora deixarei Nietzsche por um tempo na estante e abrirei um rascunho de algumas anotações clínicas.



O que era mesmo aquilo, uma baioneta ou um pênis ereto? De fato, nem uma coisa nem outra, era um braço estendido para mim, hirto, estranho. Não era curioso para mim que aquele braço, como a maioria dos braços, terminasse em mão, estranho era defrontar-me com uma baioneta/pênis com dedos. Para que uma baioneta ou um pênis querem dedos? Enquanto encontrava-me com essas impressões e indagações furtivas dei-me conta que aquilo fazia parte de um corpo. Um corpo que além daquela coisa hirta, estendida em minha direção, tinha dois olhos, aliás, mais do que isso, eles olhavam-me insinuando a possibilidade de haver ali um homem, "armado"?



Estávamos então no umbral da dúvida e da porta, então decidi convidá-lo a entrar. Em seguida resolvi estender-lhe meu braço, segurei a sua mão, que até então encontrava-se suspensa no vazio; ao fazê-lo, a dele reforçou a minha suspeita que eu podia estar, patetica-mente, insistindo que uma estátua respondesse ao meu toque.



Foi assim aquele primeiro momento. Durante um longo período, quando eu abria a porta do meu consultório para chamá-lo ele repetia o mesmo gesto. Depois de um tempo, imaginem vocês, aquela baioneta/pênis flexibilizou, mas então parecia que ele convidava-me com um mímica para uma "luta de braço". Todavia, como a nossa aposta não era a mesma, eu não entrei numa "luta de braço" com ele. Fiquei apenas a escutá-lo.



Ele estava ali por insistência do seu sócio e da sua mulher, ele mesmo não tinha esperança de viver melhor, vinha sendo medicado há mais de quinze anos, depois de um diagnóstico de PMD, dado e confirmado por diversos psiquiatras. Para ser mais preciso, não lembrava de Ter vivido com alegria.



Conta-me que nasceu numa vila de colonos italianos, onde viveu até a adolescência. Por ser neto de imigrantes, traz na sua história vestígios de uma melancolia telúrica, presente na vida daqueles que têm de deixar a sua terra para poder sobreviver alhures. Viveu naquela vila formando com a mãe um par silencioso e triste. Seu pai dali saíra à busca de trabalho para pagar as dívidas decorrentes de uma falência. Voltava poucas vezes, e quando aparecia, sem pedir licença, desmontava aquele par ficando, então, como o homem da sua mãe, mas esque-cia sempre de se colocar como pai para ele. Sentia-se excluído e só.



Os irmãos estudavam na cidade grande e só voltavam à casa paterna nas férias. Seu sonho secreto era sair da vila e ficar muito rico, pois, acreditava que a riqueza traria a desconhecida



felicidade, e restituiria luz aos olhos da sua mãe, que, calada e triste, vivia acomodando a fúria dos credores. Nutria esse sonho com um composto de tristeza e raiva.



No começo da sua adolescência ele e a mãe foram embora para a capital, ajudados pelo irmão mais velho. Poucos anos depois, sem ele Ter ainda ficado rico, a mãe recebeu um diagnóstico de câncer e ele passou a viver a angústia de vê-la sofrer e de esperar a separação definitiva. Não se imaginava sem ela.



Depois da morte da mãe refugiou-se nos seus escritos. Antes, era ele e a mãe. Depois, ele e seus escritos. Ainda escrevia textos teatrais quando conheceu uma atriz que encarnava um de seus personagens, apaixonou-se. Formaram um par até a entrada de outro homem na vida dela. Mais uma vez, via-se excluído e só.



Não suportando viver tão só, depois daquela segunda grande perda, aceitou o convite do seu irmão mais velho para ir trabalhar e morar com ele. Trabalharam alguns anos abrindo estradas numa região da Mata Atlântica. Ali isolou-se nos dois primeiros anos trabalhando textos que lhe possibilitariam tornar-se outro. Seu projeto era exatamente esse, fazer um corte total com o passado e ser outro, acreditando que isso depende apenas do saber e de uma construção lógica.



Ainda morava nessa região quando conheceu a sua esposa. Finalmente ficou rico somando os frutos do seu trabalho com a herança deixada pelo pai dela. Estando rico, seria feliz? Com-prava o que desejava, dias depois não dava mais a mínima importância àquelas coisas, acumulava bens, consumia desmedidamente. Nesse período fez a sua maior crise melancólica.



Ele estava a dizer para mim que não sabia o que desencadeara aquela crise, quando, subita-mente, parou e disse que estava vindo uma lembrança: -- Era um final de tarde e ele encon-trava-se na sua maior fazenda. Estava sentado e quieto, como não conseguia fazê-lo há anos.



Olhava as casas dos empregados, as obras que havia feito, os armazéns abarrotados, aquele mundo de terras. Veio-lhe, então, um pensamento: que apesar de toda riqueza que havia acumulado seu filho iria morrer um dia, como os filhos dos seus empregados, e ele não podia fazer nada para evitar o inevitável. Apenas lembra que saiu daquele lugar se sentindo muito mal, depois entrou numa crise muito forte de agitação, e que foi muito difícil sedarem-no. De-pois disso não conseguia ficar no escuro e só dormia com um velho empregado, da sua confiança, que passou a acompanhá-lo até mesmo nas suas viagens. Por um tempo formaram um par inseparável.



Após suas grandes perdas ele procedia da mesma forma, não queria que ficasse o mínimo vestígio, sequer o menor resto do que foi vivido, fazia um corte radical, mudava de endereço e evitava de todasas formas algum vínculo com o passado. Também prometia a si mesmo que seria outro.



Depois daquele final de tarde na sua fazenda passou a evitar o por-do-sol porque o deixa angustiado.



O ocaso, invariavelmente, traga a luz do dia e oferece a escuridão. Se para alguans a noite é bem vinda, para outros é assustadora. Para ele, tornou-se insuportável. Era uma das suas queixas uma insônia crônica que só cessava quando chegava à exaustão e paralelamente ele já podia ouvir ruídos da cidade ou das pessoas da sua casa que despertavam com o amanhecer. Justificou dessa forma o fato de ter construído seu quarto separado do da mulher, pois, enquanto a sua mulher dormia, ele precisava ficar com a luz acesa. Enquanto as pessoas da sua casa dormiam, ele lia, armava jogos, vigiava a casa, a várias vezes ao quarto dos filhos, etc.. Confessa ter um apego imenso aos filhos e sofre com idéia de que um dia eles irão embora e tem tentado, obstinadamente, retardar esse momento.



Fala sobre sua mulher sem qualquer vestígio de desejo. Nela admira a alegria de viver e a despreocupação com o amanhã.



Vive frequentemente invadido pela angústia, porém a tensão ( física e psíquica) é uma constante. Sobre isso cita alguns exemplos: se a sua mulher chega perto enquanto ele dorme, pula da cama; se alguém o cumprimenta tocando-o de leve, vira-se para brigar. Fica agressivo,



Não consegue se controlar. Reconhece que sempre se antecipa estendendo a mão para cumprimentar as pessoas para mantê-las à distância. Esses períodos de grande tensão são intercalados por outros de prostração, quando se sente como num profundo sono acordado, sem devaneios. Nesses momentos recorre a um suplemento químico para suportar a vida, não deseja nada, nada lhe interessa. Frequentemente tal estado é intercalado por uma expectativa tormentosa e iminente de alguma catástrofe.



Talvez alguns entre os que aqui se encontram pensem que a impotência sexual não seja mais um enigma, desde que já se tem teorizado muito sobre esse tema. Talvez, quem sabe, haja também entre os senhores alguns que alimentem a esperança divina de viver e amar em paz.



O que posso afirmar é que o paciente, ao qual me referi, não tem essa esperança, a verdade da condição humana , a de um ser-para- morte, bate nele de forma implacável, deixando-lhe poucos recursos para se enganar. Ele e um outro paciente moveram em mim o interesse clínico para pesquisar sobre a impotência sexual. Mais precisamente, a impotência sexual na melancolia como um mais além da disfunção erétil peniana.



Não será excessivo dizer que em nenhum momento eles se queixaram de falta de eração peniana. Não padecem dessa forma de impotência sexual mais explícita que aparece, se instala, e mais do que hóspede, se faz senhora do corpo, submetendo o homem a uma assustadora e cruel detumescência peniana. Embora livres dessa explícita modalidade de impotência sexual, os referidos pacientes trazem na mala uma marcante dificuldade para a ação sexual, e uma falta de sentido que sustente o ato sexual.



Vários aspectos teóricos clínicos poderiam ser aqui trabalhados, mas optei por concentrar meu pensar em torno de movimento e sentido, por considerá-los conceitos cruciais para se pensar a inibição, ou seja, esse ponto de interseção entre a impotência sexual e a melancolia.



Confesso que revisitar Nietzsche lendo a obra proibida da minha infância afetou-me ao ponto de desconfiar que Freud leu Nietzsche atrás da porta e não confessou a taravessura. No entanto, Nietzsche, mais despudorado do que Freud não hesitava em confessar: "Ó minha avidez! Em minha alma não há desinteresses. [...] Maldita seja a chama de minha avidez! Ó não poder me reencarnar em mil seres diferentes!" (4)



Pois é, enquanto Nietzsche se colocava como um livre pensador, não suportando sequer algumas amarras do universo filosófico, Freud, ainda comedido, percorria um caminho balizado pelos ideais da Ciência, tentando comportar o seu pensar no bojo do modelo neo-positivista. Por causa desses balizamentos metodológicos Freud, num primeiro momento, imprensa a pulsão nos limites desse modelo. Consequentemente, o fator quantitativo ganha realce nas suas primeiras teorizações sobre a pulsão.



Certamente isso se deu como uma tentativa de Freud de querer dar um matiz fisicalista às suas teorizações, pois, amenizando o caráter ficcional das suas conjecturas, teria mais chance de apresentar o seu projeto de modo que ele obtivesse maior aceitação enquanto projeto científico. Ele, naquela época, ainda aspirava fundar uma nova ciência acreditando ser possível fazê-lo sem produzir uma ruptura radical com o estabelecido. Talvez ele ainda não tivesse se dado conta que já havia tomado outra direção.



Apesar da tônica fisicalista dada por Freud às suas primeiras produções, já podemos entrever nos seus interstícios, elementos antecipatórios que darão corpo à sua próxima concepção do processo pulsional, que só foi apresentado quase vinte anos depois em As pulsões e suas vicissitudes, possibilitando consideráveis avanços no estudo sobre pulsão.



Relembremos então parte do que Freud produziu inicialmente, abrindo caminho para suas futuras teorizações. Refere-se a quantidade, enquanto investimento e ocupação, mas, desde então, ele deixa perpassar a noção de movimento. Na sua primeira arquitetura do aparelho psíquico Freud o concebe como tendo uma direção privilegiada que vai da parte sensorial --



Que recebe a variação da quantidade de movimento, logo, o impacto de um objeto que altera sua quantidade de movimento -- para a parte motora, onde a aceleração imprimida é anulada, zerada, de modo a retornar ao repouso. Quantidade é aqui definida como modificação de um estado, como diferença entre repouso e movimento. Se a quantidade for igual a zero, não haverá mudança de estado. Se for diferente de zero, uma de duas coisas ocorrerá: ou ir-se-á de um estado de movimento para um de repouso, ou , ao contrário, de um de repouso para um de movimento. Freud introduz a lei geral do movimento, ou seja, a lei da inércia. Isto é, um corpo tende a conservar a sua quantidade de movimento enquanto não for perturbado por outro corpo. O aumento quantitativo descreve a passagem de um estado de menos movimento para um estado de mais movimento. A diminuição descreve a passagem inversa.



Quanto ao deslocamento quantitativo indica a passagem de um estado de movimento de um local, de um lugar, para outro. Descarga denomina a passagem de um estado de movimento para um estado de ausência de movimento. Podemos verificar assim, que todas as noções envolvendo quantidade são puramente qualitativas e não quantitativas. Inércia não se refere a um zero absoluto, mas apenas a um estado de ausência de diferença na quantidade de movimento. (5)



Freud (1888-93), no seu artigo sobre "Algumas considerações para um estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas afirma que "cada acontecimento, cada impressão psíquica, é dotado de um certo montante afetivo (Affekbetrag), descarregado pelo eu ou pela via de reação motora ou por um trabalho psíquico associativo." Num outro momento, no seu trabalho sobre "As neuropsicoses de defesa"( 1894) ele chama atenção para o fato de que "[...] cabe diferenciar algo nas funções psíquicas ( cota de afeto, soma de excitação) que tem todas as propriedades de uma quantidade -- embora não tenhamos nenhum meio de medí-la --, algo capaz de aumento, diminuição, deslocamento e descarga, espalhada sobre os traços de memória de representações, algo como uma descarga elétrica sobre a superfície de um corpo".



Desde as suas primeiras elaborações sobre pulsão Freud tem o cuidado de não igualar pulsão e estímulo mental afirmando que: "Um estímulo pulsional não surge do mundo exterior, mas de dentro do próprio organismo. Por esse motivo ele atua diferentemente sobre a mente, e diferentes ações se tornam necessárias para removê-lo. Além disso, tudo que é essencial num estímulo fica encoberto, se presumimos que ele atua com um impacto único, podendo ser removido por uma ação conveniente. Um exemplo típico disso é a fuga motora proveniente da fonte de estimulação. Uma pulsão, por outro lado, jamais atua como um impacto momentâneo, mas sempre como uma força que imprime um impacto constante." (6) Desse modo Freud introduz nas suas elaborações o princípio de constância. Diferentemente dos estímulos externos ou mesmo da necessidade, que atuam como uma força de choque momentânea, algo que do ponto de vista energético seria aproximado a uma energia cinética, a excitação pulsional teria que ser concebida como uma energia potencial. Não se trata de um fator apenas impelidor de um movimento entendido como uma descarga ou um behavior, mas de um processo de transformação complexo O aparato psíquico já é então concebido como um aparato de captura, transformações e ordenação de intensidades que lhe chegam de fora, de fora do aparato, sendo que as intensidades que mais lhe afetam são as pulsionais.



Nas suas formulações metapsicológicas ( 1915) Freud conceitua pulsão como "medida do trabalho exigido do aparelho psíquico em razão de sua ligação com o corpo"e tenta decompor seus quatro termos: pressão ( impulso), finalidade, objeto e fonte. Sobre a pressão da pulsão diz Freud: "Por pressão ( Drang ) de uma pulsão compreendemos seu fator motor, a quantidade de força ou a medida da exigência de trabalho que ela representa. A característica de exercer pressão é comum a todas as pulsões; é, de fato, sua própria essência. Toda pulsão é uma parcela de atividade; se falarmos em termos gerais de pulsões passivas, podemos apenas querer dizer pulsões cuja finalidade é passiva."(7)



Freud, 1920, em "Além do princípio de prazer", conclui que para poder avançar nas suas teorizações precisa reformular radicalmente a sua teoria das pulsões e introduzir o novo conceito de pulsão de morte. A partir daí a oposição entre a pulsão sexual e o eu é sucedida pela oposição entre pulsão de morte e a pulsão de vida.



De difícil apreensão pela experiência, a pulsão de morte costuma aparecer fusionada com a pulsão de vida, à exceção da epilepsia onde pode se manifestar no seu estado puro. Comumente ela se manifesta entrelaçada com a pulsão de vida, "o que é evidenciado na pulsão de agressão onde encontramos a tendência a se apropriar do objeto, pertencente ao registro da pulsão de vida, pois ela visa antes de mais nada unir-se a ele, e tendência a destruí-lo, que provém da pulsão de morte." (8)



Depois de uma década em "O mal-estar na cultura, Freud consegue aproximar-se de forma mais efetiva da pulsão de morte, suportando reconhecer a sua plena autonomia enquanto pulsão de destruição. Freud, então, aproxima-se de uma formulação demoníaca ou nitzscheana?



Penso que Nietzsche, se antecipou a Freud vislumbrando a pulsão, -- inclusive a sua expressão enquanto pulsão de morte -- ao afirmar que "ontade de potência" não é um ser, não é um devir, mas um pathos, --- ela é o fato elementar de onde resultam um devir e uma ação..."



Na sua acepção mais geral pathos significa "algo que acontece", quer em referência ao próprio evento, quer à pessoa afetada. O pathos é tanto o que acontece aos corpos, como o que acontece às almas. Ele é uma capacidade para a mudança num sujeito ou então a própria mudança em si, e mudança particularmente qualitativa. (9)



Finalmente Freud irá teorizar sobre a pulsão de morte reconhecendo não apenas a sua ação destruidora mas a sua ação transformadora, atuando disjuntamente e impedindo a perpetuação de formas ou uniões constituídas por Eros. Ora, se entendermos o desejo como pura diferença, o projeto de Eros seria o da eliminação da diferença, e, portanto, do desejo. A pulsão de morte não traz na sua força apenas o poder de destruição, mas também constitui-se numa força criadora e não conservadora, impondo novos começos ao invés de reproduzir o mesmo. Sendo a verdadeira morte a do desejo, da diferença, que, em verdade, provém da ação de Eros, na sua busca incessante da unificação, da indiferenciação.



No primeiro livro de "Vontade de potência", filosofando sobre o niilismo nos diz Nietzsche: "O bem da totalidade exige o abandono do indivíduo" [ ...] Ora, não existe semelhante totalidade! [...]" (10) No primeiro capítulo do livro quarto, ao falar sobre "o eterno retorno" ele diz: "Meios de suportá-lo: transmutação de todos os valores. Não mais o prazer causado pela certeza, mas pela incerteza; não mais a "causa" e o "efeito", mas a criação contínua; não mais a vontade de conservação, mas a vontade de potência; não mais a expressão humilde "tudo é subjetivo --- mas "é também a nossa obra! Sejamos dela orgulhosos" (11) ( N. p. ) Acrescentando adiante: " A força, o repouso, o permanecer igual a si mesmo, contradizem-se entre si... A medida de força ( como quantidade) é fixa, sua essência é fluida [...] A força não pode se deter [...] A teoria da constância da energia exige o "Eterno Retorno".(12) ( N. p. ...)



Temos aí o movimento pulsional semi-descrito. A chave para a ação e a paixão é a oposição, as coisas idênticas não podem atuar umas sobre as outras.



Vejam os senhores que não foi um mero descuido meu deixar que Nietzsche falasse lá da estante, lugar onde tentei deixá-lo por alguns minutos. Mas como eu começaria a falar sobre pulsão, movimento, potência, sem considerá-lo?



Bem, podem ficar tranquilos porque agora eu fiz um acerto com Nietzsche: ele ficará calado por um tempo para que eu possa tentar algumas articulações psicanalíticas, pois o meu tempo nessa Reunião já está acabando. É a descontinuidade... seria terrível se tudo fosse um permanente contínuo, um bloco uniforme. Como aquele braço baioneta esquecido de flexibilizar, de produzir movimento. Ou como o pênis insistentemente ereto de um outro paciente melancólico que não sabia que direção dar àquilo, não via sentido em penetrar o corpo de uma mulher; por mais que alguma tentasse seduzí-lo seu corpo não se movimentava, Não havia desejo para movimentá-lo, sentia-se ôco e tudo ôco de sentido. Ao seu pênis não faltava reção, mas seu corpo não se movimentava em direção ao outro; não se erigia, não se expandia, permanecia ôco e parado frente ao chamado sexual.



Já o paciente do qual falei inicialmente, passava as noites insone, angustiado e tenso, enquanto a sua mulher dormia numa cama distante da dele para não ser incomodada com a luz que ele deixava acesa. Quando recém casados ele trabalhava pela madrugada a dentro para ficar rico. Se ele não pensa numa separação conjugal, com ela faz um par para quê? Para não usufruir da sexualidade com ela e ter , certamente, uma boa desculpa para as mulheres que o abordam. Paixão mesmo só sentiu por aquela atriz que curiosamente encarnava uma personagem sua. Ao se ver excluído e desesperadamente só, prometeu a si mesmo que não se apaixonaria nunca mais. Deixar-se afetar tanto assim pelo outro, nunca mais!



Para estar imune aos riscos de ser excluído, de defrontar-se com a verdade de que na paixão e no sexo não se faz Um, buscou a segurança de uma vida amorosa sem maiores interesses, sem avidez, absolutamente monótona, como uma jibóia digerindo sua presa. Uma linha reta, sem oscilação, sem acaso, sem maiores incertezas. Tenta se escorar num amor predominantemente fraterno que só imagina ameaçado pela morte. Sentir-se afetado, com seu lado objeto às escâncaras, nunca mais.



Desculpem-me, eu fiz uma promessa a vocês mas estou sem poder cumprí-la. Nietzsche ainda insiste em falar algo sobre o amor apaixonado, ele está aqui dizendo bem baixinho: "Quem não amar com sabedoria desespera-se com o poder do amor." (13)



A pulsão é pura potência, a pulsão é vazia de forma, de sentido; não sexual, nem agressiva, mas apenas pulsão. Ela é externa ao aparato psíquico e se situa para além da linguagem e da ordem, portanto, no lugar do acaso e da dispersão.



É o outro materno quem, no começo da vida do indivíduo, dá à pulsão qualidade e sentido, quer dizer, significação e direção. Ao dar valor e sentido aos movimentos dispersos e desordenados do seu bebê, a mãe ou seu substituto o faz sentir que existe e que não lhe é indiferente. Inicia-se assim um jogo de trocas entre os lados sujeito e objeto de cada um. O que se joga e como se joga, nesse primeiro par, deixará marcas e trilhas, livres ou com impedimentos.



O devoramento do Outro/objeto pelo melancólico promove uma paralisação, ou seja, uma forma dolorosa de fazer Um. Ele encontra-se paralisado, impotente, para viver o amor apaixonado. Supõe estar livre de ser afetado pelo Outro não cedendo sua face de objeto. Assim defende-se dessa modalidade de amor que inexoravelmente leva o sujeito a sentir-se afetado na medida que introduz a diferença, a disjunção, a perda, o desejo, a incerteza...



Ao incorporar o objeto (o Outro), defende-se de: "Uma dor -- a dor de existir -- que corresponde à zerificação, a uma ausência total do Outro. Dito de outro modo, há aqui um estilhaçamento do Outro, uma separação total do Outro como tesouro de significantes ou como Outro que cuida, o Outro do amor." (14)



O melancólico traz uma outra modalidade de impotência sexual que está para além da disfunção erétil peniana. Se na relação de amor encontram-se meios de se dar a mão novamente ao desejo, ao melancólico falta a possibilidade de uma ilusão mínima que cause o desejo e permita seu corpo erigir-se e voltar-se em direção ao outro acreditando poder ser desejado e amado por ele. Em verdade, o Outro já foi tragado e encontra-se bem guardado no Eu do melancólico.



Entre outras coisas, falta ao melancólico a plasticidade para construir e sustentar ilusões. Tal dificuldade inicia-se na sua relação com um Outro materno que não consegue oferecer-se para um jogo de demandas, de significantes amorosos, de dar sentido ao sem sentido, de receber e fazer retornar significantes e demandas.



Desamparado, sem contar amorosamente com um Outro materno para lhe iniciar na vida acreditando na ilusão do amor, o melancólico tende a ficar parado, inibido, frente à verdade da castração.



Temos na música popular brasileira uma composição que chama muito minha atenção por falar de algo que falta ao melancólico para ele poder amar com sabedoria: ilusão. Certamente seria mais fácil se ele pudesse viver o que diz Mário Lago:



"Nada além, nada além de uma ilusão

Chega bem, é demais para o meu coração

Acreditando em tudo que o amor mentindo sempre diz

Eu vou vivendo assim feliz na ilusão de ser feliz

Se o amor só nos causa sofrimento e dor

É melhor, bem melhor, a ilusão do amor

Eu não quero e não peço para o meu coração

Nada além de uma linda ilusão."

***
Carlos Eduardo Pinto Carvalheira






IV Jornada da Escola Freudiana de João Pessoa - João Pessoa, 03 e 04 de dezembro de 2004









INTRODUÇÃO ÀS EPIFANIAS DE JOYCE







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Que importa nossa covardia se há na terra



um único homem valente,



que importa a tristeza se houve no tempo



alguém que se disse feliz,



que importa minha perdida geração,



esse indefinido espelho,



se teus livros a justificam.



Eu sou os outros. Eu sou todos aqueles



que teu rigor obstinado resgatou.



Sou os que não conheces e os que salvas.



Jorge Luís Borges - Invocação a Joyce



















Em Borges percebe-se o valor epifânico da arte de Joyce: “Eu sou os outros... Sou os que não conheces e os que salvas”.







Antes de Joyce a epifania na literatura parecia significar apenas o óbvio: uma obra ou parte dela, onde se narrava o episódio da revelação. No dicionário de Aurélio, entre outras significações, as duas palavras se confundem:







Epifania – aparição ou manifestação divina; festividade religiosa com que se celebra essa aparição; dia de reis;







Revelação – entre os cristãos, ação divina que comunica aos homens os desígnios de Deus e a verdade que estes envolvem, sobretudo através da palavra consignada nos livros sagrados.







Foi James Joyce quem trouxe do pensamento tomista [1] o conceito de epifania para a literatura. Ela se dá pela integração entre: integritas, consonantia, claritas e quidditas. [2]





A partir desses conceitos filosóficos, Joyce define com simplicidade a epifania em “Stephen Hero”: “uma manifestação súbita, quer na vulgaridade do discurso ou do gesto, ou em uma frase memorável da própria mente. Ele acreditava que cabia ao homem de letras registrar estas epifanias com um cuidado extremo, visto que elas mesmas são os momentos mais delicados e evanescentes” .







Para Joyce, o estado epifânico do artista seria um luminoso êxtase silencioso de prazer estético: “um estado espiritual muito similar à condição cardíaca que o fisiologista italiano Luigi Galvani, servindo-se de uma frase tão bonita quanto à de Shelley, chamou de encantamento do coração.” [3]







Affonso Romano de Sant’Anna, inspirado em Joyce, define que epifania em literatura “significa o relato de uma experiência que a princípio se mostra simples e rotineira, mas que acaba por mostrar toda a força de uma inusitada revelação. É a percepção de uma realidade atordoante, quando os objetos mais simples, os gestos mais banais e as situações mais cotidianas comportam iluminação súbita na consciência dos figurantes, e a grandiosidade do êxtase pouco tem a ver com o elemento prosaico em que se inscreve o personagem.” [4]







Os críticos comentam que as epifanias de Joyce são tão vazias que não conseguem efetuar uma certa transmissão mística, pela via poética – elas representam um fracasso, muito mais um resíduo do que sua expressão. Discordo. Já li crítica similar a Clarice Lispector, por abordar o real, o inatingível. Até escritores que admiram Joyce dizem que os seus monólogos, embora grandiosos, são falhos porque são desordenados. Pensem... o fluxo da consciência ser bem disciplinado, organizado... Mas é no “vazio” das epifanias que se faz arte, e esse nada está repleto de algo que não pode ser dito, a não ser por efeito de sentido. Grande parte de suas epifanias são libertárias, quebram ilusões, e dessa queda, desse dejeto, a verdade é deslumbrada pelo subterfúgio do que parece a alguns – epifanias ocas de sentido.







Do “Retrato do Artista quando Jovem”, obra-prima do romance autobiográfico que tem como herói Stephen Dedalus, alter ego de Joyce, tentei dividir as suas epifanias em:







Sublimatórias – quando há um movimento de ascensão ou sublimação do ser: “a vida tornava-se um dom divino, e da qual cada momento e cada sensação, mesmo a vista de uma simples folha desabrochando no broto de árvore, a sua alma se agradaria, agradecendo ao doador” [5];







Libertárias – por meio da quebra de ilusões, se necessário partindo para as apostasias mais contundentes: “Não servirei àquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria ou minha igreja; e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza” [6] ; e







De encantamento – pura estética, pura forma. Essa idéia é dada quando em “O Retrato...” Stephen descreve a Lynch: “o artista, como o deus da criação, permanece dentro ou atrás ou além ou acima de sua obra invisível, clarificado fora da existência, indiferente, aparando suas unhas”.



“Fruto maduro” é um exemplo de Epifania sublimatória. No “Retrato...”, Stephen se envolve numa forte discussão com três condiscípulos, sobre quem seria o maior poeta. Mesmo sendo espancado por esses colegas ele, imbuído por uma ética[7], sustenta ser Byron o maior poeta, não confessando – como eles queriam – que “Byron não prestava”. E o ódio que ficou por ser surrado, ele sublima por meio de uma ilusão artística:







... “tinha sentido que havia uma força oculta, que lhe ia tirando a capa de ódio acumulado, em um momento, com a mesma facilidade com que se desprende a casca (ou pele, peel) suave de um fruto maduro.”







Ao mesmo tempo em que Stephen tira de si suavemente o sentimento de ódio acumulado – como a pele de um fruto maduro –, deixa para trás as pessoas que o surraram. Pela arte da palavra metaforizada, esse sentimento se desprende e ele se eleva, amadurece.







Comenta Freud em “Totem e Tabu”:







“Somente na arte ocorre que um homem devorado por seus desejos faça o que se assemelha a uma satisfação e que graças à ilusão artística, esse jogo produza uma ação sobre os afetos, como se fosse algo de real.”







Mario Quintana, grande poeta brasileiro, compôs uma epifania que se assemelha à de Joyce. Depois de ter perdido a terceira indicação para a Academia Brasileira de Letras, ele compôs o célebre “Poeminha do Contra”:







“Todos esses que aí estão



atravancando meu caminho,



eles passarão...



eu passarinho!”







O poeta sublimou também o sentimento de desgosto e talvez de ódio. Bastava apenas esse “poeminha”, para imortalizar toda a sua obra.







O que Quintana diz por “efeito de sentido” percebe-se em “eles passarão” (o sentimento de mágoa e as pessoas que não o aceitaram na ABL). E ele – feliz como passarinho, dando seus vôos artísticos.







Pode-se ir mais longe na elaboração :







Ao som de passarão e passarinho, a obra do poeta se imortaliza. O verbo se faz carne literalmente: passarão se transforma em pássaro grande, velho, beirando a morte e passarinho, ao mesmo tempo, torna-se um verbo inconjugável: passar-inho – a poesia se revela, realizando o desejo do escritor – morrer e ser imortal.







Da magia dessas epifanias de Joyce e Quintana, o verbo se faz carne [8] – os frutos amadurecem e os pássaros voam.







Joyce se utiliza de efeito de sentido ao quebrar a ilusão de um amor casto, na seguinte epifania libertária:







Ao virar uma esquina em Dublin, incidente corriqueiro segundo Joyce, ele ouve um diálogo que lhe inspira as estrofes “ardentes” da “vilanela” da sedutora, que se pode ler no “Retrato”:







“Uma jovem está nos degraus de uma casa, conversando com um rapaz:



Moça (falando discretamente) – Ah, sim... eu estava ... na... ca... pe... la...



Rapaz (sempre muito baixo) – ... Eu... ... eu...



Moça (com doçura) – Ah... mas... você é... mui... to... mal... do... so. ”







Percebe-se que Joyce em suas epifanias quase sempre joga com luz e trevas, pureza e pecado, céu e inferno.







Uma jovem balbucia – e a palavra capela (chapel) envolvida pelo desejo, fende-se em duas:



Chap – fender-se, abrir-se, gretar-se, entregar-se;







El – vara, antiga medida de comprimento.







Da palavra capela, que significa pureza, oração, amor – a jovenzinha sem querer querendo revela-se falhando – escancara inesperadamente o seu desejo: abrir-se, entregar-se... Surge o confronto entre amor e paixão, pureza e luxúria, santidade e pecado. A capela rui e a bela jovem dá luz a outro texto. Da trivialidade de uma palavra balbuciada, emerge a malícia conivente, pura, gostosa e sórdida: nela – o mal... do... so... de... se... jo; nele – alumbramento e gozo (o que quer de mim esse anjo diabólico que candidamente me seduz? )







O efeito de sentido surge exatamente da inesperada queda do objeto a. Na cândida jovem emerge o ardente desejo da mulher não-toda na função fálica: “sou a carne que sempre diz sim”. [9]





Eis mais um enigma de Joyce, ao utilizar uma palavra-valise – chap / el – que os críticos não conseguiram desvendar.







Na maioria das epifanias, Joyce parece denunciar a existência de um amor impossível, inatingível: semblant’amour – portanto não só difere, mas contrapõe-se radicalmente ao que Catherine Millot fala sobre a busca do “místico” que tenta inscrever sua experiência no discurso religioso suscetível de lhe dar um sentido. Suas epifanias, principalmente as de libertação e encantamento[10], não pretendem levar mensagens de “auto-ajuda”. Em Joyce, não há comunhão de idéias nem desejo narcísico de identificação do leitor, ao contrário, ele espera a singularidade de cada um.







Muitos críticos não percebem o encanto das epifanias, mas tive a grata satisfação de ler “A escritura começa onde a psicanálise termina”, de Serge André:







“Dar corpo a este “nada dizer” ou a esta abertura da linguagem, é talvez a tarefa mais importante da escrita, uma tarefa quase sagrada, cujo monopólio lhe pertenceria. Este nada – que não é ausência de algo, mas pelo contrário a presença maciça do que escapa à categoria “algo”, posto que depende, por natureza, do que não pode ser dito sem ficar automaticamente marcado pela denegação da palavra – será esse o obscuro objeto do desejo de escrever?”







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Quem elevou a língua ao nível da Coisa, deve ainda dar provas de seu amor pisoteando-a, estripando-a, esmiuçando-a até as migalhas para extrair dela a única singularidade quando ela não é outra coisa senão uma massa informe, nem sequer um grito, apenas um esforço.”







E finalmente, as epifanias de encantamento – penisolate e “uísque orvalhado”.







E nessa parte do trabalho, por se tratar de algo bastante enigmático, utilizo um artifício-valise: a parodiábola, misto de paródia (ode, que perverte o sentido de outra ode) e parábola (narração alegórica que representa uma coisa para dar idéia de outra maior)[11]. E para fazer esse artifício, nada melhor do que dormir e sonhar em pleno seminário de psicanálise e literatura.











PENISOLATE E UÍSQUE ORVALHADO







Em um seminário de literatura e psicanálise sobre epifanias e palavras-valise, encontrei uma amiga. Há poucos dias, ela me disse não entender as epifanias de Joyce. Parece ser queixa comum entre meus colegas. Não se trata do conceito de epifania, mas de algo que não pode ser entendido – “as epifanias são esvaziadas de sentido”.







Naquele dia, eu estava angustiado por ter discutido com um colega, querendo um braço amigo para me amparar. E quando eu contasse o que ocorreu...: Não foi nada, isso acontece com todo mundo, logo você esquece... Venha, vamos conversar e tomar um cafezinho, que a preocupação passa. Com essa certeza, aproximei-me dela:







– Minha amiga, eu queria que você me ouvisse, estou precisando de um puxão de orelhas.



Percebendo toda minha insegurança e angústia, ela dirigiu os olhos para mim – estranhos... brilhantes – choravam! E sorrindo, me disse:







– Você já as puxou.







Fiquei atônito – ela não sabia o que era epifania e falou como mestre, não fazendo pergunta, mas dando resposta – você já as puxou – e o conteúdo não precisou ser revelado. Foi tão abrupta e inesperada esta resposta, que algo me transformou: minha insegurança desapareceu de imediato, fiquei quase em estado eufórico. Mesmo sofrendo, me passou confiança. Parecia ter dito: acredito em você – acredite também. Assim, me deu forças, não só para acabar com aquele mal estar temporário, mas para terminar este trabalho, que eu estava com grande dificuldade em concluir. O que o meu trabalho tem a ver com o puxão de orelhas? – ainda hoje elas me doem...



E por quem seus olhos choravam?







Repentinamente várias idéias me iluminaram, por momentos percebi claramente qual a linha a seguir no meu trabalho. Recostei a cabeça na cadeira e relaxado, comecei a divagar... O mistério do mundo:[12]









“O mistério de tudo





Aproxima-se tanto do meu ser,



Chega aos olhos meus

d’alma tão de perto,



Que me dissolvo em trevas



e universo...



Em trevas me apavoro



escuramente.”







Joyce também se dissolve em luz e trevas, quebrando as ilusões com sua natural irreverência – ele estudou as epifanias de São Tomás acompanhado de duas “belezas venéreas – Nelly Fresca e Rosália, a puta do Cais de Carvão” – momento místico e trivial, simbolizando a própria transmutação que as epifanias sofrem ao passarem das mãos de um santo homem para as de um homem pecador... esquisito... acho que estou dormindo... as minhas idéias misturam-se às palavras distantes do conferencista, pronunciadas sonoramente:







– Porque meus colegas ficam petrificados diante das epifanias e não se dão conta de que a análise é um enigma encantado – onde há revelação e transformação. Quando o verbo inesperadamente surge, algo é revelado em momento único, não produto da identificação, mas da singularidade, da verdade de cada um. Por natureza, uma análise já é epifânica: ela representa o próprio desvelamento do ser, através de um texto não dito. E psicanálise é a maior palavra-valise que existe, porque carrega com ela todas as palavras não ditas...







Estranho... as epifanias, são esvaziadas de sentido? Quando li “Ulisses”, não alcancei as epifanias de Joyce. Seria por efeito da síndrome do eco, quando Lacan ocupando posição efetiva no ideal do ego de muitos, questiona: “Joyce é louco? Eu não sou, porque me inspiro nele. E Joyce, se inspira em quem?”







Influenciadas pelo ditado “quem pergunta tem a resposta”, as pessoas confundem-se, criando um outro: “na própria pergunta está a resposta” e deduzem: se Lacan diz que não é louco – sendo psicanalista, jamais poderia ser?! –, apenas se







inspira em Joyce, enquanto este – quem sabe? – ou se inspira na filha, que é louca, ou a inspiração viria dele mesmo, e a loucura também... Será que houve uma denegação e nesta Lacan se identifica com Joyce, parecendo dizer: eu me inspiro nele, mas não sou igual a ele... Quando diz isso, parece afirmar o contrário: eu também sou louco... – de que loucura ele fala?! – porque ao me inspirar em Joyce, também sou influenciado por ele, passo a falar o mesmo idioma dele... E as pessoas em quem na verdade Joyce se inspira, eu também me inspiro: sintomadaquin. Na verdade é São Tomás de Aquino, o santo homem, que salva da loucura os dois irreverentes religiosos Joyce/Lacan... Eu mesmo não acho que eles tenham distúrbio de linguagem... Talvez um deles seja até daltônico..., não distinguindo determinadas cores, jamais confundindo palavras... Foi São Tomás que trouxe nas tábuas uma ética: amar a Deus sobre todas as coisas... honrar pai e mãe... o sinthome de Lacan... as epifanias de Joyce... e não pecar contra a castidade! E ninguém pode negar – eles absorveram esta ética por meio de seus idiomas (éticos e epifânicos): epifaunético de Lacan e et(il)icoepifânico de Joyce...







... foi dessa identificação, desse ato falho, desse quarto nó trivial não múltiplo de três, que nasceu a maior epifania já criada por Lacan: o retorno do nome do pai sãotomasdeaquino; do mesmo pai, Lacan criou também um mesmo filho Joyce/Lacan. Mas na identificação, não há mourre. E a análise ou interpretação torna-se impossível, ou interminável...







... Joyce jamais poderia ser interpretado por Lacan por este carregar uma profunda admiração e rivalidade em relação ao escritor Joyce – levando-o a uma identificação. Portanto, o personagem que foi interpretado por amor ou por amoródio não foi Joyce, mas um personagem divanesco criado por Lacan – mistura de genes ou de gênios: Joyce/Lacan – sem levar em consideração o grande desejo que ele tinha em comprovar a tese sobre o nó borromeano. A sua interpretação portanto está sujeita a fatores que jamais poderiam deixá-lo numa posição de certa neutralidade... O interessante é que essa figura “divanesca” criada por Lacan, carregada de palavras-valise, de duas identidades, enriquece o estudo do sinthome e inverte a direção tradicional da articulação da psicanálise com a literatura e com a religião...







... a psicanálise sempre busca na literatura e na religião, a sua matéria prima: foi com Édipo e não com Sófocles que Freud exemplificou seu grande feito – a invenção do complexo de Édipo – sobre o qual repousa a doutrina psicanalítica...







... Lacan e outros seguidores de Freud parecem-me ter seguido por este caminho: primeiro gozava-se na literatura e na religião para depois gozar da literatura ou da religião na psicanálise. Podendo-se assim dizer que a psicanálise é uma “ciência gozada” – estranha. Não é por acaso que trata do “real” e se interessa por obras como as de James Joyce e de Clarice Lispector – “obras estranhas” Mas, quando Lacan cria um personagem “Joyce o Sint’home”, ele faz da psicanálise literatura e, ao canonizar Joyce, (e ele também por identificação) – parece fazer da psicanálise religião, invertendo assim a usual articulação da psicanálise com a “arte” e com a “crença”...







... por que eu não consegui perceber as epifanias em “Ulysses”? ... Mas em “Finnegan’s Wake”, já livre dos ecos, fiquei abismado com as epifanias de Joyce. Logo na primeira página, “penisolate” – palavra-valise que parece carregar de sentimentos a Irlanda. Depois de ouvir os significantes – sol, pênis, penny, pena isolada de um escritor, Isolda, e muitos outros..., fechei os olhos e os condensei em um poemeto:







Irlanda! Irlanda!



Península isoldada



Fálica e ensolarada



Por Joyce e Nora sonhada...







... não me satisfaço com um, dois ou mais significantes, apreendo todos. As palavras-valise são enigmas encantados que me dão o dom da revelação e da criação. No primeiro momento, eu sonhei a Irlanda para depois misturar o seu mar às águas do Capibaribe – meu rio, hoje, carrega o mar irlandês: olho da janela e vejo o Capibaribe, uma faixa estreita de água cercada por terra a se perder de vista... Capibaribe, Capiberibe, cheio de luas... as bebedeiras nos bares do cais do porto – pedaços de carne e queijo regados a uísque – pedaços de palavras, sussurros, balbucios ...







... a vitrola tocava Capiba:







“Eu daqui não saio



eu não vou embora



tanta mulher bonita



e minha mãe sem nora!”...







... senhora – sem... nora – nome que vem por lei de uma língua-mãe – elo de ligação entre as mães irlandesas e as mães de língua portuguesa. O idioma de Nora era a língua fundamental que Joyce e Lacan falavam – de um amor impossível: senhora – tanta mulher bonita – e minha mãe señora...







... e embriagado por um uísque epifânico, cujo malte de cevada foi fabricado sob um arco-íris orvalhado, sem dar sentido a nada, muito menos a Joyce, caio de uma escada tão alta que mais parece um penhasco. Na queda, ouço um trovão: sem ruídos..., cem palavras..., a canção de Finnegan’s Wake:







“Uma manhã, Tim cheio de uísque



Caiu da escada e quebrou a cabeça



..........................................................



Para seu cadáver velar

..........................................................



Seu corpo deitaram na cama



Um galão de uísque aos pés



Um barril de cerveja à cabeça”.



..........................................................











E na queda, rio, rio, rio...



Ela – rio – nuinha para mim



E ereto em baixo de águas e de anáguas



Eu me afogo no rio, rio, rio...



Refletindo o fálico brilho de um sol







Em suas águas, agora leitosas



– Liebfraumilch –



Bebo numa taça de vinho tinto



Pedaços de palavras, balbucios, sussurros ...



Pedaços de carne e beijos regados a uísque.







– Acorda, santo homem! Está na hora da sua análise com Lacan – você é louco? Me assustou, chegou foi bêbado!







– Nora, está zangada, pensou que eu tinha morrido? O meu amor por você é uma epifania, parece não ter sentido, mas transborda de sentimentos, algo impossível de dizer... do vazio surge você – minha mulher –. Me dá um beijo!







– Não vem, não! Parece que ainda sonha...







– Você, o inverso da minha luva, e não me ama mais?







– E o amor existe? Quem é que fica tão perto e tão distante de mim, como se fosse um deus, indiferente, a aparar as unhas?







–Ah! Meu amor, todo homem tem uma Nora. Se não tem, as mães o têm.







– Acorda, acorda, você está roncando, em pleno seminário! Venha tomar um café...







– Ora! É a segunda vez que me acordam... Não, obrigado senão eu não durmo...







– E o que você estava fazendo durante todo o seminário?

Da paixão do ser à “loucura” do não-saber




Trabalho Final para o II Congresso de Convergencia

Instituição: Intersecção Psicanalítica do Brasil

Leitor/Autor: Arlete Mourão





Produzir algo que reflita diferentes trabalhos evocou-me a afirmação de Lacan segundo a qual “não há ordenação coletiva da enunciação, (...) só há ordenação coletiva das resistências”.[1] Portanto, o que trago como resultado de leitura é uma tentativa de ordenação de enunciados, que se configura, senão como resistência, com certeza como a insistência de uma questão singular, a qual denominei da paixão do ser à “loucura” do não-saber. [2]



Optei por esse título, que sob a inclusão de uma negação parafraseia o título Da paixão do ser à loucura de saber”, de Maud Manoni, justamente porque ele permite sintetizar um padrão, que invariável não só nas variantes, mas também nos vários trabalhos preliminares de Intersecção Psicanalítica do Brasil.



Refiro-me a essa condição fundamental para que uma experiência analítica se configure como tal, especialmente no que se refere à possibilidade de passagem de um analisando à condição de analista, que é a dimensão do ser do analista, ou melhor, do seu des-ser enquanto sujeito, na condução da análise.



Esse des-ser, que está em estreita relação com o não-saber, é o que sustenta a escuta e o desejo do analista, elementos ou condições de lógica e ética da práxis analítica, que só podem ser alcançadas na análise do analista – uma análise que tenha ultrapassado o plano das identificações e remetido o sujeito a um mais além, isto é, ao “plano onde se pode presentificar, da realidade do inconsciente, a pulsão”.[3]



Então, é da análise do analista – que, a meu ver, dá o tom dos nossos 8 trabalhos –, que tomo os elementos constituintes desta síntese de leitura, a qual inicio contextualizando nos seguintes recortes.



1 – Trabalho de Ana Lúcia Falcão: O desejo do analista



O desejo do analista não se confunde com o “eu quero ser analista”. Não se apresenta como algo da ordem do ser, dos bens ou da moral, mas refere-se ao saber sem sujeito. Para o analista, sustentar essa posição e fazer função de desejo do analista é possível porque seu lugar não é ontologizado, mas é aquele suposto saber fazer aí com seu sintoma – saber fazer com os restos do real.



2 – Trabalho de Arlete Mourão: O Amor à Letra



Na posição de destituição subjetiva, sujeito e objeto se desconfundem. Essa des-con-fusão permite que o Outro se desconstitua enquanto grande Outro, podendo passar a ser escutado como outro sujeito, ou seja, de tal forma que não se presta mais a servir de tampão para a falta. Essa é a posição do analista, é a posição do savoir faire analítico indispensável para sustentar o desejo do analista e os atos analíticos. Nela, o analista não é sujeito, mas função.



3 – Trabalho de Doris Rinaldi: A função do não-saber no fim de análise e na formação do analista



O desejo do analista surge e se sustenta pela via do saber que não se sabe, ou seja, pela via da douta ignorância. A formação do analista passa pela insistência do analista em sua própria análise, na qual é vivida a experiência desse não-saber, a partir do qual pode-se chegar ao saber fazer com alíngüa, de onde pode nascer o desejo do analista – desejo radicalmente distinto do desejo de ser analista.



4 – Trabalho de Elza Caloba: O gozo na direção da cura



A função primordial de uma análise é fazer o sujeito passar de vítima à responsável – torção essa, que exige do analista uma ética, uma ética do desejo do analista. Essa função primordial é sinônima de se atingir o ser do sujeito, modificando a economia do seu gozo, o que o faz mudar de posição.



5 – Trabalho de Luiza Bradley: Uma escolha de objeto particular



Há uma discordância fundamental entre o eu e o ser, na qual está contida a diferença ressaltada por Freud entre a dimensão da identificação e a dimensão da escolha de objeto. Não é a mesma coisa se estar do lado do sujeito ou do lado do objeto. O objeto pode ser de identificação ou de captura amorosa.



6 – Trabalho de Miriam Nogueira Lima: Amor e ódio numa direção de cura



O analista não participa das paixões do ser, mas funciona na dimensão da douta ignorância, isto é, da ignorância formal que é formadora para o sujeito. Ela consiste em o analista ignorar o que sabe e este é o saber do analista.



É na dimensão dessa ignorância formal que o analista pode sustentar o desejo do analista, que se contrapõe às artimanhas e armadilhas amorodiosas.



7 – Trabalho de Sandra Walter: Narcisismo e transferência



As dificuldades particulares que surgem na análise em função da transferência imaginária, considerada a partir da noção de projeção narcísica máxima, podem convocar o analista em seu próprio narcisismo. É aí, na análise, onde o analista se empresta às reproduções dos fantasmas de cada analisante, que ele está em contato com seu próprio fantasma. Por isso, a condição fundamental da análise está na análise do analista.



8 – Trabalho de Sônia Sarmento: (A) cerca do silêncio em psicanálise



Contracenar a cena muda é função efetiva do analista. O analista vela a rítmica e a arrítimica da cena analítica mediante sua escuta, mediante seu lugar de morto. Isso só pode acontecer se o analista não tentar compreender tudo. Por isso, é importante a análise do analista. A ética analítica exige fazer articulações que permitem algo novo surgir. Trata-se de escutar o que nunca foi escutado – atravessar o vale do silêncio; fazer a palavra surda e muda sair da prisão.



Como se vê, de uma forma ou de outra, em todos esses recortes há uma ênfase sobre o fazer analítico, que depende da análise do analista. Será uma coincidência? Será um enviezamento de leitura absolutamente particular?



Creio que não, especialmente porque, em se tratando de sustentar uma práxis cuja lógica e ética se apóiam no fato de que aí, na análise, só existe um sujeito, o analisante, cria-se para o analista o exacerbamento de sua falta-a-ser, o que o convoca a se colocar, fora da análise que conduz, permanentemente em questão. Isso é sinônimo de colocar em questão os elementos em jogo nessa condução.



É na perspectiva desse questionamento que se pode ler esses elementos abordados pelas colegas de IPB, como é o caso do desejo do analista, que se relaciona muito mais à dimensão do corte do que a algo ontologizado, conforme lembra Ana Lúcia. É o caso do não-saber que se opera num fim de análise, como coloca Dóris, e que Miriam considera enquanto “douta ignorância” ou ignorância formal, que é “formadora” para o sujeito. É o caso da escuta do analista, que só se sustenta “se ele não quiser compreender tudo”, como pontua Sônia, o que lhe permite “se prestar às reproduções dos fantasmas de cada um”, conforme observa Sandra. É o caso da possibilidade do analista fazer semblante do objeto a – objeto diferente do objeto de identificação (objeto ideal), que é uma importante diferença apontada por Freud e sobre a qual trabalha Luiza – possibilidade que depende de sua própria análise, e que deve ter-lhe permitido uma “mudança na economia do seu gozo”, como é trabalhado por Elza.



A meu ver, todos esses elementos, que se constituem nos fundamentos da práxis analítica, naquilo que “invaria” nas variantes, podem ser abordados e questionados a partir de uma única perspectiva básica: o “ser” do analista, que deve “não-ser” na análise, que deve “não-saber” no ato psicanalítico. É aí que se ancora o paradigma lacananiano de que a análise só se sustenta se o analista não tiver contas a ajustar com seu ser. É aí que se encontra o nó do trabalho analítico – o nó das resistências à análise. Falar disso, é outra forma de relançar a questão sobre “o que faz com que uma psicanálise opere”, levantada por Lacan em todos os seus Seminários e Escritos.



Sustentar e desenvolver essa questão é abordar o que se passa num fim de análise, não um fim qualquer, pois existe mais de uma forma de se sair de uma análise[4], mas um fim cuja saída compreende a passagem de analisante à analista, ou seja, a ultrapassagem do plano das identificações edípicas, fálicas, ideais, ao plano de identificação à letra, ao sinthome – outra forma de se falar de travessia do fantasma.



No que se refere à sustentação da função (do) analista, o importante dessa ultrapassagem incide sobre a possibilidade que se abre para o sujeito de “funcionar” também em outro registro, que não apenas no registro do Outro, ou seja, de funcionar no registro do semblante do objeto a. Isso só é possível por ele ter se descolado da fixação imaginária que esse objeto recebe na perspectiva fantasmática, enquanto substituição fálica. Tal possibilidade corresponde ao saber fazer com – saber fazer outra coisa com seu sintoma – saber esse, diferente do saber inconsciente, que convoca o Outro para dar sentido ao ser do sujeito. É essa dimensão do sentido que precisa ser ultrapassada no analista.



Funcionar no registro do objeto, ou se colocar enquanto semblante do objeto causa do desejo do Outro, significa ser possível suportar o não sentido, isto é, o não saber sobre o ser. Significa ter chegado, na própria análise, à posição de destituição subjetiva, na qual se prescinde – num determinado nível – do “efeito sujeito” promovido pelo Outro. Assim, não ser sujeito – destituição subjetiva – é prescindir do sentido subjetivo. Sem isso, a saída de uma análise equivale à perversão, ou seja, equivale ao sujeito recusar o não-saber e, nesse lugar, colocar o “eu não quero saber disso”, ou o “eu sei, mas mesmo assim”. Nesse caso, ao invés de semblante, o “analista” se coloca como o próprio objeto causa do desejo do analisante, do qual espera advir um “efeito sujeito”, um efeito que lhe garanta “ser analista”.



Portanto, falar da “análise do analista”, essa análise que permite sustentar o não-senso, significa considerar um exercício que se desenvolve dentro de uma lógica que vai além da Castração[5], vai além da lógica fálica – essa lógica que é implantada no Édipo pela “criação de sentido”, mediante a metáfora paterna, o Nome-do-Pai. A lógica do analista, que é a lógica da Psicanálise, é a lógica do não todo[6], na qual não há um saber – um saber do Outro –, na qual o saber precisa ser inventado, o que é condição do ato analítico, condição de surpresa.



Mais precisamente, para que o lugar e a função (do) analista se sustentem, sustentando a Psicanálise, é necessário que, na experiência, no “padrão” da cura, a dimensão do Real enlace a dimensão do Simbólico, de tal forma que flexibilize a dimensão do Imaginário. Dito de outra forma, para que uma análise se sustente, é preciso, do lado do analista, que a dimensão do sentido – paixões do ser – seja suplantada por uma “foraclusão” do saber do Outro, o que estou chamando de “loucura” do não-saber – que dá título a este trabalho.

A Culpa é do Lacan ?

A REGULAÇÃO DA PSICANÁLISE: A Culpa é do Lacan ?


Arlete Mourão[1]


Tema: Questões sobre a tentativa de regulamentação da profissão de psicanalista no Brasil



A Culpa é do Lacan foi o título que me ocorreu a partir de uma matéria publicada no jornal O Globo, em abril deste ano. Seu teor era o de uma entrevista com o pastor evangélico e “psicanalista” Heitor A . Silva. Ali ficou exposto claramente o grotesco dessa situação, ou seja, o absurdo da apropriação e deturpação da psicanálise por grupos ligados à religião, os quais tentam regulamentar a profissão de psicanalista. À tal entrevista seguiram-se algumas ponderações sobre o assunto feitas por psicanalistas, dentre as quais as de Chaim S. Katz, a qual me chamou a atenção pela afirmação: “... de alguma forma, Lacan abriu caminho para esse pessoal, através da idéia mal compreendida de auto-formação...”



Regulação, por sua vez, é a expressão que tem sido utilizada por alguns segmentos da psicanálise no Brasil para exprimir a necessidade de alguma normatização da formação do psicanalista, de tal forma que a psicanálise não fique vulnerável a apropriações indébitas, como está sendo o caso com os evangélicos. A diferença que ela comportaria em relação à regulamentação é a de que uma normatização da psicanálise seria feita não pelas normas do Estado, mas pelas das sociedades psicanalíticas que pleiteariam, junto ao Ministério da Educação, o reconhecimento da formação do analista, ministrada por elas. Seria uma espécie de oficialização dessas formações dentro de um estatuto de pós-graduação lato sensu, perspectiva que levaria a psicanálise para um discurso religioso[2], tanto quanto sua apropriação por grupos religiosos.



Essa não é uma possibilidade compartilhada por todos, mas apenas por um dos segmentos psicanalíticos, e provavelmente aponta para uma precipitação provocada pelo jocoso desta atual tentativa de regulamentação, e seus iminentes riscos. Por isso, minha intenção com este texto é a de tentar, por meio desses dois significantes – auto-formação e regulação –, retomar as implicações dessa tentativa, de forma que se possa encontrar um meio de lidar com ela, que esteja mais de acordo com o próprio discurso psicanalítico.



Para tal, parto do pressuposto de que, para além da oposição entre psicanálise e religião, o que está em jogo e precisa ser problematizado nesse assunto são as questões da formação do psicanalista e da transmissão/ensino da psicanálise. Aqui, trata-se de uma outra oposição, que é aquela da divergência entre as diferentes tendências da psicanálise acerca dessas duas questões. Afinal, faz parte da história do movimento psicanalítico que as divergências se dêem especialmente em torno delas. Talvez seja em função disso que se possa entender o arrefecimento da inédita mobilização que esse Projeto de Regulamentação conseguiu, reunindo, apesar de tais divergências, todos os segmentos psicanalíticos brasileiros[3].



Entretanto, não se pode deixar cair no esquecimento o fato de que a situação é muito grave[4] e de que a atual tentativa de regulamentação – que aliás não é a primeira, pois já existiram outras e, com certeza, continuarão a existir, caso esta não seja aprovada[5] – fere princípios fundamentais da psicanálise. Além disso, não se pode esquecer também que às implicações do movimento de globalização[6] somam-se, no Brasil, injunções políticas onde o que conta é a lógica da “composição” e na qual a bancada evangélica tem peso. É com isso que as associações psicanalíticas “evangélicas” contam para aprovar o projeto de regulamentação. Por fim, cabe ainda lembrar que temos uma responsabilidade ética diante dessa situação, e se não quisermos ficar simplesmente derrubando Projetos – ou queremos [7] ? – este é um momento profícuo para discutirmos as questões nela implicadas, articulando aí nossas divergências[8].



É nesse sentido que trago então algumas pontuações, utilizando-me das expressões auto- formação e regulação, pois elas estão no seio dessas divergências.



I – Sobre a Formação:



Começando pela possibilidade de que Lacan tenha dado margem à referida apropriação em função da auto-formação, é preciso primeiro retificar essa idéia. Não é disso que se trata com o aforismo lacaniano do autorizar-se por si, ao qual geralmente se esquece de completar com o “alguns outros”. A asserção completa é: o analista só se autoriza de/por si mesmo ... e alguns outros[9].



É a partir dela que se pode retomar uma discussão sobre a questão da formação do psicanalista, de tal forma que ela não se preste a oportunismos – como o das “formações evangélicas” – mas que corresponda a um rigor conceitual onde o ser psicanalista prescinda das implicações de uma regulamentação profissional.



Uma primeira e fundamental premissa que se impõe pelo aforismo é o de que o ser psicanalista não corresponde a uma simples habilitação, mas faz parte da própria subjetividade de um sujeito. Isso só pode ser compreendido levando-se em consideração o que se passa exclusivamente dentro de uma experiência com o inconsciente, isto é, na análise, e particularmente na sua conclusão. Só aí é que se pode precisar o que é da ordem de uma passagem de analisando à analista – da ordem do que se passa com esse sujeito.



Entre outras coisas, aí se passa uma experiência radical de falta – de falta de sentido do ser. Pode-se dizer que após a apreensão, desconstrução e reelaboração das identificações, resta a esse sujeito ter de haver-se com a desilusão de seu narcisismo, com o vazio do qual a pulsão faz borda, com a parcialidade do objeto, com a fragilidade e desconhecimento de seu eu e, especialmente, com a inconsistência do Outro. Tais confrontações implicam o engendramento de uma subjetividade radicalmente cindida – marcada pela divisão entre um saber inconsciente e a verdade da impotência,[10] da castração. É a esta subjetividade, enquanto consequência lógica do processo de análise, que corresponde o ser psicanalista[11], ou seja, a falta-a-ser, ou o des-ser[12].



Cada um que já passou por essa experiência sabe, com muito sofrimento, que depois dela não se consegue mais viver nenhuma plenitude ou onipotência, nem quanto a si mesmo, num, principalmente, quanto ao Outro – um Outro absoluto tomado como ideal de acolhimento e/ou de identificação enquanto Ideal do Eu. Cada um sabe que, mesmo tentando, não consegue mais instituir um novo analista a quem possa autorizar uma escuta[13] a não ser pontualmente – posto que a contingência deste Outro passa a ser prerrogativa exclusiva da alteridade constituinte do próprio inconsciente (Outra Cena) – da própria condição de ser falante.



É dentro desse registro que cabe só ao sujeito autorizar-se enquanto analista, e não ser autorizado por um Outro, pois neste caso a análise ainda não estaria concluída. Além disso, tal autorização refere-se ao efeito de um processo inconsciente, e não simplesmente a um ato de vontade. Trata-se de um responsabilizar-se por seus próprios atos, mas a partir de uma perspectiva inconsciente.



II – Sobre a Transmissão:



Tal como a formação, não há como deixar de se abordar a questão da transmissão da psicanálise também a partir da experiência do final da análise. Trata-se aí de considerar a dimensão do saber em jogo nessa experiência. Sobre isto pode-se dizer que na passagem de analisando a analista, a instauração de uma subjetividade marcada pela falta implica a aquisição de um saber – inconsciente – sobre isso. Este configura-se enquanto um savoir-faire, e não enquanto um saber formalizado, generalizável. O sujeito sabe-se sintoma e, afinal, cada caso é um caso, e o sentido dado a cada sintoma, a cada experiência, é único. É esse o saber passível de transmissão numa análise.



Ora, pela singularidade desse saber, ninguém pode dar testemunho a não ser o próprio sujeito que para tal autoriza-se. Também aqui, trata-se de algo que não é da ordem de um ato de vontade, mas de um efeito – efeito de transmissão, que decorre de uma mudança na economia de um desejo no qual o Outro deixou de ser encarnável – passou a referir-se ao Outro da alteridade subjetiva. Em outras palavras, pode-se dizer que é possível a um sujeito, depois da análise, falar de um outro lugar – falar dentro de um registro de discurso analítico que não é agenciado pelo Eu, mas pela falta (do objeto). E isso pode provocar efeitos – efeitos de transmissão, em termos da transmissão de uma falta.



Portanto, é dentro dessa perspectiva de experiência de falta que, tanto a formação quanto a transmissão podem ser consideradas como a elaboração – permanente – desta subjetividade marcada pela destituição da posse imaginária de uma verdade e por um saber que nada mais é que a vivência da própria incompletude, perspectivas que colocam em causa o próprio psicanalista em sua relação com a psicanálise. Nas duas dimensões, não há como deixar o próprio sujeito fora de seu encontro – ou desencontro – com isso, a partir de sua experiência de análise, e não de critérios exteriores a ela. Tem-se aqui uma questão de ética – ética da experiência com o inconsciente.



III – Sobre a Regulação:



É a partir, então, dessa experiência de análise, dessa transmissão, dessa autorização – que não remetem a uma profissão, nem a uma especialização, mas dizem respeito a uma posição subjetiva inconsciente – que se pode retomar a idéia de uma regulação.



Tal como a regulamentação, uma regulação da função[14] do psicanalista implica a sua delimitação por critérios externos à própria análise, o que requer uma problematização. Além do fato de que regular seria concordar que ser psicanalista é uma profissão, é preciso considerar que, se o saber fazer com o saber inconsciente – ser psicanalista – faz parte de uma transmissão que só é possível na e através da transferência com um analista, isso é sinônimo de que nenhuma norma externa à própria análise teria condições de regular a transmissão desse saber – nem mesmo a das instituições psicanalíticas, posto que desta transmissão só há garantias dentro de uma análise, que se configure como didática.



Entretanto, isso tem uma outra vertente. Na medida em que um sujeito autoriza-se analista, passa a sustentar uma alteridade diante da qual a análise é necessária mas não é suficiente,[15] ou seja, essa sustentação convoca necessariamente o ...alguns outros do aforismo lacaniano, o que corresponde à passagem do privado ao público que circunscreve, então, a necessidade dos pares e da instituição psicanalítica. É nessa dimensão que se pode falar de uma garantia exterior à análise. Ela refere-se ao fato de que a instituição pode garantir o espaço para a viabilização, não de autorizações, mas de testemunho dessas autorizações, na medida em que possibilita a articulação de diferenças. Sem esse espaço, a autorização não se caucionaria dentro de um registro simbólico, mas correria o risco de referir-se apenas enquanto demanda imaginária.



Mas será que essa “caução” se deixaria normatizar? Como conciliar a ética da experiência do inconsciente com uma ética institucional ?



Se a delimitação de uma formação subjetiva inconsciente, como a condição de ser analista, não é determinada por critérios de um poder público (regulamentação), mas pelas consequências de uma análise, sua deliberação por um poder privado (regulação) – no caso o das instituições psicanalíticas – também é problemático. Isso porque tal deliberação implicaria um “regrar”, ou seja, criar critérios e tempos pré-fixados para algo que é atemporal e cuja natureza é da ordem da subversão – é da ordem de uma elaboração permanente. Além disso, são essas condições de “regramentos”, de enquistamentos em instâncias de poder, que dão margem a arranjos institucionais tanto de caráter corporativista quanto de organizações socialmente atópicas, quanto de deturpações da psicanálise, como é o caso da SPOB e outras. Não é o regrar que dá garantias da formação e/ou da psicanálise.



Mesmo assim, é necessário considerar que, se não há garantias na formação do psicanalista, isso não é sinônimo de que a sociedade deva ficar sem garantias da psicanálise. Qual seria uma garantia possível da psicanálise à sociedade? Como informar à sociedade que o ser psicanalista não se refere a uma afirmação do ser, mas do “des-ser” e com isto não pode se configurar como uma profissão? Como transmitir que o que está em jogo na formação não se refere a um saber comum, mas a um saber inconsciente que transcende o sentido, tornando a formação do psicanalista infindável – permanente – e impossível de ser ditada por normas exteriores ?



IV – Sobre uma possível saída (regulação x delimitação - legalidade x legitimidade)



Penso que uma das saídas possíveis para essas questões – e é isto que trago então para discussão – seria a de se tentar deslocar a questão de uma regulamentação para a de uma delimitação do campo freudiano, por meio de uma dimensão de discurso – do discurso psicanalítico.



Em outras palavras, tratar-se-ia aqui de um esclarecimento à sociedade sobre a singularidade da psicanálise, mediante uma produção discursiva que pudesse depor sobre os seus fundamentos, seu método e modos de eficácia de sua ação e seu corpo teórico, especialmente no que dizem respeito à sexualidade infantil, ao recalque, às pulsões, ao complexo de Édipo e de Castração, assim como à especifidade da formação do psicanalista em relação com à análise pessoal.



A meu ver, esta seria uma forma psicanalítica de afirmar a singularidade da psicanálise por meio de seu próprio discurso, e com isso marcar sua diferença em relação a outros campos do saber, como o da medicina, o da psicologia, o da antropologia, o da religião, etc. Além do mais, isso permitiria direcionar a questão de uma legalidade da psicanálise, para a de uma legitimidade, a partir de sua própria estrutura, e não em função de regulamentações ou regulações.



Por fim, poderia se pensar que na delimitação do campo psicanalítico, onde há tantas divergências, a dimensão de um discurso comum – enquanto estrutura política coletiva – poderia garantir não só a sobrevivência da psicanálise como tal, mas da psicanálise não enquistada em guetos.



.......................................................



ANEXO I



SITUAÇÃO ATUAL DA TENTATIVA DE REGULAMENTAÇÃO



Existe uma proliferação crescente de associações que vêm formando “psicanalistas clínicos”, como são chamados, com carteira profissional e diploma, e em todos os estados brasileiros. Tais associações como a SPOB (Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil), a Corpo CESBAN (Conselho Regional de Psicanálise e Orientação & Centro de Ensino Superior Batista Nacional), a (ISPB) Instituto Superior de Psicanálise de Brasília , etc. são todas dirigidas por pastores batistas presbiterianos. Umas assumem declaradamente o uso da psicanálise para objetivos religiosos, outras se dizem conhecedoras da psicanálise, e que seu uso desta não se confunde com a prática religiosa. Entretanto, sabe-se como isso não pode se sustentar, entre outras coisas, por colocar seriamente em risco a neutralidade necessária ao exercício clínico e teórico da psicanálise. Também é patente a desinformação, ou a informação enganosa, dos candidatos que cursam disciplinas que vão desde Primeiros Socorros, passando por Hipnose, até Parapsicologia. Já é grande o número deles que procuram tanto psicanalistas quanto instituições realmente psicanalíticas para “complementar” a formação, como dizem, mas não abrem mão de já se considerarem psicanalistas.



O mais grave ainda é que não existe nada que possamos objetivamente fazer. Até o momento, só a SPOB (http://www.spob.com.br/) em pouco mais de três anos já formou com diploma, festa e paraninfo, cerca de 3.700 psicanalistas, e já está arregimentando outros 2.000 para iniciar novas turmas neste semestre, que estarão formadas em julho de 2003. Os folders publicitários (exemplar anexo) sobre isto são colados diariamente em todas as caixas de correio de Brasília. Os cursos duram 320 horas, e a análise pessoal é uma vaga exigência.



A única ação oficial com consistência que pôde ser agilizada contra isso, até aqui, foi impetrada pelo Conselho Federal de Psicologia, e unicamente porque essas entidades (SPOB e CESBAN) criaram o CONSELHO FEDERAL DE PSICANÁLISE CLÍNICA DO BRASIL, sendo portanto uma ação no âmbito de conselhos.



A psicanálise mesmo, as instituições psicanalíticas, não têm nenhum recurso eficaz para agir contra isso. As pessoas que tentaram, como o presidente da ABP (IPA), junto com o CRP estão respondendo a um rigoroso processo acionado pela SPOB, que tem um enorme poder econômico.



Para culminar, em novembro de 2000, a SPOB através de um deputado federal, também pastor evangélico, deu entrada oficial no Projeto de Lei no. 3944/2000 que visa regulamentar a profissão psicanalista clínico. Tal Projeto além de ser absurdamente desconhecedor dos princípios da psicanálise é oportunista, como se pode ver no seguinte recorte: “a verdade é que a formação e a fiscalização do exercício profissional da psicanálise nunca foram normatizados, valendo tão somente os princípios doutrinários de cada corrente da psicanálise, nem sempre acordes e quantas vezes frontais, tornando a classe de psicanalistas até suspeita, o que demanda uma urgente regulamentação que discipline todos os ângulos dessa profissão, socialmente útil e legalmente fiscalizável, acabando com os partidarismos e com as reais ameças à saúde do povo”;



Quanto ao autor do Projeto, para se ter uma idéia da sua inserção psicanalítica, recorto aqui alguns trechos de uma das entrevistas[16] que ele deu para a imprensa:



O que é a SPOB ?



Dr. Heitor (diretor-executivo, pastor evangélico): “É uma sociedade que visa a popularização da psicanálise (...) e que tem como bandeira a regulamentação (...)”;



Como o senhor vê o fenômeno da possessão demoníaca no processo psicanalítico ?



Dr. Heitor : “(...) A OMS tem um código que classifica o transtorno mental da síndrome de possessão, que uns vêem como possessão, outros, como esquizofrenia. Na experiência clínica, uma coisa é esquizofrenia, outra é a possessão”;



O senhor concebe a idéia de pecado ?



Dr. Heitor: “Concebo, claro”;



E como o senhor lida com a sexualidade no tratamento ?



Dr. Heitor: “Instinto. Institualidade. Concebo o pecado, mas não genericamente. Pecado do ponto de vista religioso é uma coisa, do ponto de vista da antropologia é outra”;



Mas como religioso, seu conceito de religioso difere daquele do antropólogo.



Dr. Heitor : “No meio religioso, não na psicanálise”;



Na prática psicanalítica há uma tendência libertadora. Na esfera da psicanálise, não existe punição.



Dr. Heitor: “Não se pode confundir libertação com libertinagem ....”;



Uma outra idéia que se pode ter do caótico dessa situação foi retratada pela revista Veja, de 20 de setembro de 2000, através de alguns depoimentos desses pastores, entre os quais tinha-se o seguinte: “para diferenciar uma neurose de uma possessão, que têm sintomas parecidos, eu evoco o nome de Jesus. Um psicótico nunca reagiria agressivamente ao nome de Jesus ....”.



E concluindo esses recortes, reproduzo aqui a correspondência que colocaram sob a porta do meu consultório no momento em que eu estava escrevendo este texto, e , que é só mais uma versão das que têm chegado com freqüência:



“Caro(a) Doutor(a):



Solicito-lhes alguns poucos minutos para exame do seguinte conteúdo:



(...)



Permito-me esta abordagem em busca de saudável integração em sua equipe multidiciscplinar, objetivando avaliar neuroses de múltiplas causas, em parcerias, e próprias da psicanálise.



A par disso farei o possível para atender, além do psicossomático e do somatopsíquico, a parte financeira do paciente, sendo cada caso considerado com muito zelo (....).



Aproveito a oportunidade para informá-lo de que sou graduado em Odontologia, com especialização em Endodontia há trinta e um anos.



À minha recente formação em Psicanálise somo a observação em Vivência Clínica, a preocupação com o autoconhecimento, os meus sonhos, a preocupação com saúde mental das pessoas e, também, o estudo do binômio mente/espírito sob a ótica espírita-cristã, desde 1968; portanto, uma experiência na Faculdade da Vida durante longos trinta e três anos.



(...)



Preocupado com seu tempo apresento uma expectativa para um prazeroso contato pessoal, no meu ou no seu consultório, informal mas significativo (...).

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