Todo homem é a própria caça

Por: Luís Henrique Pellanda



Calculo que seja meio-dia. Cruzo a Osório com pressa, tenho pouco tempo para viver entre os turnos do expediente e, detrás de cada palmeira, me espreita uma cigana. Saltam pelo meu caminho, tentam me emboscar, se espalham pela praça anarquicamente, como os bombons de uma caixa violada, coloridas surpresas de Páscoa. São predadoras que se interpõem entre meu corpo e meu futuro; eu resisto à ameaça de suas mãos — vem cá —, ao enigma de seu sotaque, ao babado de seus vestidos — vem cá, vem? —, suas mangas bufantes e acetinadas — vem cá, menino! Não vou, não sou menino, menino onde? Procuro não mover o pescoço, congelo as sobrancelhas, comprimo os beiços, estoico. Basta, digo a mim mesmo, chega dessas aventuras de calçadão. Não as encaro, ciganinhas, mas sim, noto na periferia do meu olho direito uma sugestão agradável de celofane, um tilintar de pulseiras, pedras falsas, dentes de ouro — e por fim um salto, o bote de uma tigresa. Nossos sentidos são armadilhas embutidas na alma, penso. Todo homem é sua própria caça, e comigo não será diferente.

A garra me captura pelo antebraço e sou obrigado a interromper minha marcha vida afora. A fera tem unhas roxas e compridas, o rosto talhado em cobre duro, a voz mais bonita que a boca, os cabelos mais velhos que eu. Atrás de nós, o grande chafariz se desliga abruptamente — o que houve, quem o desligou? — e o mundo parece ficar mais silencioso; na verdade, não me lembro de silêncio mais vasto que aquele, tão devastador e, ao mesmo tempo, familiar. A cigana, imortal, se aproveita da mudez súbita das águas, fala baixo, só para mim:


— Uma mulher…


Não quero ouvir, deixo isso claro, tento libertar meu braço. Ela o aperta ainda mais, aquilo me irrita, me obriga a reagir, a me mover de modo agressivo.


— Uma mulher vai se atravessar no teu rumo.

Que novidade, respondo, e enfim, num arranco mais bruto do cotovelo, me livro de sua mão áspera, tchau, obrigado — vem cá, volta, menino! — e já retomo a direção da Avenida Luiz Xavier, rindo da ironia de ser amaldiçoado por uma cigana justamente ali, no bafo da Boca Maldita, e logo ao meio-dia, hora aberta e perigosa. Quer dizer, calculo que seja meio-dia e checo o antigo relógio da praça: nossa, os ponteiros enlouqueceram, correm no sentido anti-horário, o dos minutos na velocidade dos segundos, o das horas no pique dos minutos. Mas quem é que cuida desse relógio maluco?

Continuação aqui

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