Branca de Neve

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Branca de Neve

(Conto de Grimm)


Se a mãe-madrasta de João e Maria espantou-nos pela frieza, calculismo e crueldade, parecendo-nos pouco verossímil que alguém possa ter comportamento como o dela, ficamos ainda mais estarrecidos com a maldade terrível da rainha-mãe, madrasta de Branca de Neve. Como é então que esse conto continua tendo o êxito que tem junto as crianças? Tanto Joãozinho e Mariazinha como Branca de Neve deveriam provocar temor nas crianças, um medo terrível de serem um dia abandonadas pela mãe e correrem o risco de ganhar uma madrasta desse cunho! Se fosse a mensagem a principal que a estória deixasse, certamente não teria tantos pequenos adeptos. Sobretudo, porém, o que fica dessas estórias para eles é que as crianças vencem essas figuras de bruxas e acabam ou encontrando um belo príncipe, ou grande tesouro. Só que Branca de Neve aprende algumas outras lições, além das que aprenderam Joãozinho e Mariazinha.


Ela nasce também em outro contexto: como princesa. Ela é muito bonita e provoca o ciúme da madrasta. Terá que aprender a perder a ingenuidade e não acreditar nas belas “conversas da rainha-madrasta” que a todo custo quer ver a enteada morta.


Seu contato com os anõezinhos irá fazer dela mulher desejável, até quando semimorta, para o belo príncipe. Mas, não nos adiantemos à estória.


Vejamos o que a figura da princesinha repudiada pela madrasta, que conheceu diversas pré-estréias de morte e que acabou sendo reanimada, o que ela pode dizer de nós, meninas e mulheres e, quem sabe, a uma dimensão feminina nos homens também.


Ambas as figuras femininas coexistem nesse conto quase até o fim, e quem sabe também dentro de nós mesmos. Uma menininha inocente, toda bonitinha, mas que contém igualmente um lado adulto, invejoso, que não permiti ao outro lado existir. Tão extremados, o lado mais exigente, que quer ser o melhor e mais conhecido pelos outros, acaba sufocando o lado mais frágil, pequeno e desprotegido.


Pode acontecer tanto dentro de uma mulher como de um homem. Sob o disfarce de querer oferecer o que há de melhor, esse lado acaba na realidade envenenando e paralisando qualquer movimento espontâneo, jovem, informal. Esse ódio entre rainha-madrasta e sua enteada acaba aproximando-as de certa forma, mesmo que seja de forma destrutiva, no primeiro instante. Mas, quando Branca de Neve consegue se livrar do veneno da madrasta, ela se torna mulher e pode se casar. Até aí, era apenas uma jovem perdida na floresta, semimorta. Foi preciso, primeiro, experimentar o veneno dessa “mãe” terrível e, ao mesmo tempo, receber ajuda dos anõezinhos, que exigiram dela cooperação e trabalho.


Devemos, então, concluir com este famoso conto que, para que o lado feminino do nosso ser desabroche, se afirme e finalmente “se case” com o lado masculino, teremos de ter um confronto com uma madrasta, uma mãe ruim? Talvez sim. Mas não podemos esquecer que se trata de imagens e não de pessoas concretas. A experiência que teremos com nossa mãe, ou qualquer figura que tenha características de mãe, até a própria vida, pode a certos momentos ser um seio que nos ampara, compreende-nos, ama-nos, não importando qual seja nosso comportamento; mas, em outros, pode ser uma bruxa que de tanta comida boa acaba nos sufocando, ou alguém que nos inveja. Essa experiência não corresponde a real intenção dessas mães. Elas por sua vez são filhas também.


Para ampliar este tema, o conto seguinte ao da Branca de Neve, e que vem da África, fala-nos da mesma questão, introduzindo agora os bichos.




Maiores informações e interpretação a respeito desse conto leiam: O QUE CONTA O CONTO? Jette Bonaventure

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