Em busca de integração


Em busca da integração




Restaurar a imagem da deusa parece ser tarefa hercúlea, pois o patriarcado não se dispõe a partilhar seu poder. Mesmo assim, as últimas décadas assistiram a mudanças significativas. Os esforços de elevação da conscientização do movimento feminista trouxeram para frente de batalha a necessidade de igualdade entre homens e mulheres. Os atributos da mulher vêm sendo compreendidos em outros papéis que não sejam o de esposa e mãe.

Mudanças não menos significativas vêm ocorrendo no mundo interior; o aspecto separado do feminino divino vem sendo curado de dentro para fora. A cura consiste em integrar as imagens femininas antigas de tal maneira que possamos nos relacionar com elas através de nossa mitologia cultural.



Um exemplo desse fenômeno vem do inconsciente de mulher que fora, anteriormente, católica devota. A igreja lhe propiciara um modo de viver conectado com a espiritualidade, mas apenas até certo ponto. Já em sua fase adulta, ela começou a encontrar, nos ensinamentos da igreja, um sentido de esclarecimento ou de apoio para o seu senso de si própria enquanto mulher. De fato, dava-se praticamente o oposto – ela sentia estar secando, sentia que sua vida espiritual estava diminuindo.

Depois de passar por doença grave e por outros problemas pessoais, ela abandonou a igreja para buscar outras aventuras que lhe proporcionassem desenvolvimento espiritual.



A certa altura, teve muitos sonhos em que a igreja e os símbolos do cristianismo eram reduzidos a ruínas e cinzas. Ela tornou-se mais consciente da integridade de sua natureza feminina; era mais do que esposa e mãe perfeita. Mas não querendo fragmentar a sua fé, a questão agora consistia em como conciliar sua nova consciência da natureza feminina com as imagens do feminino na mitologia cristã. O processo de transformação foi apresentado num sonho:



Eu entrei numa casa antiga e muito bonita. No aposento da frente, cerca de uma dúzia de mulheres estavam sentadas em círculo. Elas celebravam algum rito religioso. Fui andando até os fundos da casa. Lá encontrei uma pequena capela. O altar havia sido preparado para a missa, mas não havia ninguém lá. Reuni-me, então, às outras mulheres e, quando entrei, trouxe ao grupo uma estátua da Virgem Maria.



O círculo de mulheres “celebrando algum rito religioso” é remanescente de antigos cultos de mulheres que mantinham vivos os mistérios femininos. Em sua busca pessoal, ela começou a apreciar esses mistérios. O ritual cristão da missa deixara de ser um fator ativo em sua vida; fora relegado aos fundos da “casa” psíquica. Mas agora ela traz uma imagem daquele lugar, uma estátua de Maria, para ser conscientemente integrada à sua recém-descoberta compreensão da natureza feminina.



Outro sonho de um padre, demonstra a tremenda dificuldade do feminino em relação aos ensinamentos ortodoxo da igreja:



O bispo e eu estamos andando por uma estrada. Há uma fazenda e um charco, e estamos atravessando uma ponte. Vemos uma enorme ave branca – maior do que uma pessoa – presa nas raízes de uma árvore. A ave nos chama, e diz que ela pode fazer grandes maravilhas e fatores. Reconheço que ela esta sofrendo e que não consegue sair dali sozinha. Tomo uma de suas asas e desembaraço-a da árvore na qual havia caído. Eu chamo o bispo e ele se ajoelha e faz uma oração; ele se debruça sobre o corpo dela, mostrando a si mesmo e a mim como sua pele e ossos estão envelhecidos. Ela fica mais calma e pede para ver os amuletos do bispo. Ele abre uma pequena bolsa e mostra-lhe três talismãs esculpidos em ossos. Um é uma cruz de osso. O outro é uma âncora quase de um formato de um coração. O terceiro não tenho muita certeza, talvez fosse um pequeno frasco com o formato do número oito.



O sonho se passa no domínio da grande mãe: solo fértil, charcos e água. Há um desvio para a terra do inconsciente. Em nível objetivo, o bispo é análogo à própria autoridade espiritual interna do padre, símbolo do Si-mesmo. A ave branca, símbolo da paz tem a ver com as imagens tanto de Afrodite quanto do Espírito Santo. É enorme, maior do que a vida, como se para enfatizar a gravidade da situação.

Quando um fator importante para a saúde psíquica é subvalorizado ou ignorado na vida consciente, suas proporções e significado serão correspondentemente ampliados no inconsciente. Vemos aqui a compensação inconsciente para a falta consciente de reverência pela natureza feminina. A árvore é fator-armadilha que impede a ave branca de ser livre.



A árvore, outro símbolo com muitos significados, é associada na psicologia do padre, com a cruz, emblema do cristianismo. Na arte cristã, a cruz é muitas vezes representada por árvore viva, aquela que morre a cada ano e ressurge para a nova vida. Na lendária Árvore da Vida, a árvore cósmica interligando céu, terra e submundo, há frequentemente um pássaro nos galhos mais altos, mas aqui a ave caiu e ficou presa nas raízes. Em outras palavras, a imagem de Afrodite, ou do aspecto feminino do Espírito Santo, está presa nas raízes da tradição cristã – da mesma forma que, quando da origem do monoteísmo, os atributos da deusa do amor eram traídos por atitudes negativas em relação à carne.

O bispo, representando tanto a autoridade espiritual interior do padre, quanto à autoridade externa da Igreja, tem em sua posse talismãs secretos, amuletos primitivos feitos de osso. São reminiscentes de amuletos de xamãs, e são frequentemente esculpidos de maneira exótica, representando o espírito auxiliar. São usados pendurados no pescoço de xamã, costurados em suas vestes ou escondidos dentro de uma trouxa. Um dos amuletos de osso do bispo é um frasco com forma do número oito. Na antiguidade, tais frascos continham os mais preciosos fluidos, perfumes ou elixires curativos. O frasco é simbólico do feminino como receptáculo.

A âncora é símbolo de Cristo, sua forma parecida com a de coração a relaciona com a função do sentimento. Também é associada à Virgem Maria: a haste da âncora, o corpo de Cristo, surge a partir de uma lâmina horizontal, em forma de lua crescente, antigo símbolo da deusa do amor.



A cruz de ossos é simbólica da morte e da ressurreição. Na visão de Ezequiel, os ossos secos voltaram à vida quando o Espírito desceu e soprou uma alma sobre eles. Ossos também são considerados sede da alma, à moldura estrutural fundamental sobre a qual tudo o mais é colocado.

Os três amuletos, então, compreendem aqueles ingredientes mágicos essenciais à vida espiritual mais profunda que o padre buscava a moldura básica para qual o espírito pode descer para inspirar a vida e a alma. O conhecimento antigo é mantido de forma subjetiva pela autoridade interna do padre e objetiva pela Igreja. O uso dessas imagens instintivas e poderosas é ainda outra questão – que o sonho não responde.



Tais imagens são ativas no inconsciente da humanidade, e de maneiras individuais estão sendo trazidas à consciência. Uma imagem feminina dinâmica e transformadora existe, de fato, em nossa tradição cristã ocidental, mas os atributos que faltam à deusa só podem ser restabelecidos para o coletivo por meio de cada um de nós, em nosso modo individual, alargando nossa percepção do feminino.

Através dos tempos, as mulheres têm sido o repositório do significado, das emoções e dos valores atribuídos à deusa do amor. Ao valorizar a natureza prazerosa, autoconfiante e sensual de sua sacerdotisa, a prostituta sagrada, tanto homens como mulheres entram em contato com alguma coisa valiosa dentro de si. As mulheres podem ser portadoras desse aspecto vital da natureza feminina para o mundo. Os homens podem mais uma vez abrir-se para o aspecto feminino dinâmico e assim facilitar as modificações que se fazem necessárias nas estruturas política, social, econômica e religiosa.



Dessa maneira a humanidade pode restaurar a consciência a força criativa e amorosa da natureza feminina, que há tanto tempo era personificada na prostituta sagrada.




 imagem alquímica do matrimônio sagrado, união dos opostos (rei e rainha, sol e lua):



Ó Lua, envolvida em meu doce abraço,

Seja tão forte quanto eu, tão linda de face.

Ó Sol, mais brilhante de todas as luzes

conhecidas pelo homem,

E ainda assim você precisa de mim, como o

Galo da galinha.



Do Rosarium philosophorum (1550).



*



Nota: Há cerca de trinta anos, o patriarcado começou a perder suas bases. O avanço tecnológico elimina a divisão sexual de tarefas. O advento dos anticoncepcionais eficazes e acessíveis desferiu o golpe definitivo nesse sistema, que tem no controle da fecundidade da mulher sua principal razão de ser e, por estar calcado na natureza biológica, sempre foi considerado universal e eterno.



Hoje, a mulher pode não só dividir o poder econômico com o homem, como ter filhos se quiser e quando quiser. Essa transformação radical se distingue do processo de evolução observado até agora. A partir daqui, não temos como avaliar as conseqüências. Estamos vivendo um processo de mutação, após milênios da única ideologia de que temos registro. Talvez tenhamos que guardar várias gerações para vê-lo concluído. Mas os sinais já começam a se esboçar.

Pressentimos a destruição de valores estabelecidos como inquestionáveis, entre eles o amor, o casamento e consequentemente a sexualidade.



A partir da relação com o mundo e com outros, de forma até agora desconhecida, podemos ser afetados por novas sensações. Uma outra sensibilidade emerge nos novos tipos de arte, música, filosofia, no momento em que se rompe com a moral que, durante tanto tempo a através de seus códigos, julgou e subjugou os desejos e o prazer das pessoas. As singularidades de cada um encontram novo campo de expressão.



Sem nos darmos conta, estamos assistindo ao fim do patriarcado e o nascimento de uma nova era.

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