20 julho 2010

Díptico da idéia de Mulher



                                                                   Maria Madalena



Mariana Warner, em seu estudo sobre a Virgem Maria, afirma:


Juntas, a Virgem Maria e Madalena formam um díptico da idéia de mulher do patriarcado cristão. Não há lugar na arquitetura conceitual da sociedade cristã para a mulher que não seja nem solteira nem prostituta.


Dentro dessa visão convencional, maternidade e sexualidade estão divididas. Além do mais, presume-se que Maria Madalena, o lado sexual de díptico, se tenha arrependido de seus atos impuros.


Madalena, como Eva, deve sua existência à poderosa contracorrente da misoginia no Cristianismo, que associa mulheres com perigos e degradação da carne. Por essa razão, ela se tornou santa proeminente e querida.


Ela oferecia esperança aos mortais que não conseguiam atingir o estado de perfeição da Virgem e que procuravam perdão para seus pecados.


Maria Madalena continuou sendo figura proeminente na tradição cristã, também por razão psicológica. A dimensão arquetípica da natureza feminina erótica elege uma figura para ser portadora de sua projeção. A questão é que os seres humanos, em sua busca espiritual, têm que encontrar uma imagem do feminino que tenha relação com os aspectos eróticos da deusa. Mas a representação da sexualidade pelo pai cristão manipulou a imagem de maneira que Maria Madalena fosse vista como penitente, renunciando à sua sexualidade.

Diferentemente do homem antigo, cujo amor pelo erótico não era considerado incompatível com a espiritualidade, esses líderes cristãos negaram exatamente o necessário para a renovação da vida – o aspecto dinâmico, transformador e feminino da psique.



A figura de Maria Madalena permanece fortemente velada (e obscurecida) por crenças cristãs convencionais, mas, se olharmos para trás do anteparo da ortodoxia, talvez possamos encontrar lá alguns aspectos dinâmicos da natureza feminina e restaurá-los a uma posição justa e apropriada em nossa própria mitologia. Warner escreve:



Exame minucioso dos Evangelhos recusa-se a conceder a Maria Madalena uma identidade, e desafia o pressuposto tradicional de que a mulher de grande beleza e capacidade de amar, verdadeiramente uma prostituta que se arrependeu de sua vida de pecado depois de conhecer Jesus Cristo, aprendendo então a amá-lo.



Há, de fato, certa confusão a respeito de se houve três Marias separadas – Maria de Betânia, irmã de Lázaro; Maria Madalena, a quem Cristo ressuscitado apareceu; e “a pecadora” – ou apenas uma. A igreja grega celebra suas festas em três dias separados, mas a Igreja ocidental combina-as em entidade única, Maria madalena, com apenas um dia festivo (22 de julho).



A questão permanece: quem é Madalena e por que a sua imagem, embora importante, é tão incerta e indefinida?



A incerteza existe em parte porque a imagem foi alterada. Ela ficou presa entre as incongruências da interjeição moral cristã e a imagem arquetípica da natureza feminina erótica. Paradoxalmente, parece haver vínculo entre as forças opostas da imagem de Maria Madalena.



Nos Evangelhos Gnóticos, ela é mulher capaz, ativa e amorosa, com habilidades para conhecer e falar “o Todo” – o que talvez seja uma referência a mais alta Sabedoria, certa compreensão que o coração recebe e contém. Maria Madalena possuía a habilidade de saber de coisas inexplicáveis, como em sua visão de Cristo. Ela não questionava esse seu lado, como faziam os outros. Ela confiava em sua fonte mais íntima. Ela conseguia ver o emissário divino e transmitir sua mensagem aos humanos. Como a prostituta sagrada, ela era mediadora entre o mundo do divino e o mundo dos humanos.



Há mitos que representam à capacidade de Maria Madalena de operar milagres. Diz-se de quando ela viu e falou a Cristo ressuscitado, pois se crê que ela foi a primeira a vê-lo. Ela saiu correndo para contar aos outros discípulos. No caminho, encontrou Pôncio Pilatos, e falou-lhe sobre a maravilhosa novidade. “Prove-o”, disse Pilatos. Naquele momento, passava uma mulher carreando uma cesta de ovos, e Maria Madalena tomou um nas mãos. Quando o ergueu diante de Pilatos, o ovo adquiriu cor vermelho-vivo. Como testemunho desse feito lendário, na catedral em Jerusalém que porta seu nome há uma estátua de Maria Madalena segurando um ovo colorido.



O ovo é muito apropriado nesse contexto, uma vez que é simbólico da nova vida e da capacidade de dar à luz. O ovo colorido é também associado à Astarte, deusa da primavera, de cujo nome nosso termo “Páscoa” é derivado. Ovos coloridos são usados em celebrações da primavera em honra à deusa, como o são hoje em dia na Páscoa.





Outro mito, proveniente da tradição cristã é aclamado na sexta estação da cruz, fala de mulher que limpou o rosto de Jesus cheio de poeira, suor e lágrimas, quando ele passava a caminho do Calvário. A face de Cristo ficou estampada no pano. Através dos tempos e da tradição, a mulher foi chamada de Verônica, mas este é um nome a que se refere ao fato, “Verônica” é combinação de “verdadeira” (Vera, em latim) e “imagem” (icona). Isso conduzia a especulação sobre se havia verdadeiramente uma mulher chamada Verônica, ou se essa mulher poderia ser Maria Madalena.

Ninguém podia dizer com certeza. Mas o mais importante é o significado psicológico do mito, ou seja, que a natureza feminina ativa encerra a imagem do divino. Como elemento complementador, é a natureza feminina que leva a pessoa ao Si-mesmo.



Outra faceta de uma reconsiderada Maria Madalena vem dos compositores Tim Rice e andrew Webber, na ópera rock Jesus Chist Superstar. Aqui ela é retratada como prostituta profana que se apaixonou pelo homem de Jesus, não pelo Salvador, e por meio de seu amor foi transformada. Ela é representada como que reconforta e acalma o seu amante. A letra da canção sugere que ela era bem parecida com a prostituta sagrada (“O ungüento é doce para o fogo em sua cabeça e em seus pés... fecha os olhos e relaxa”).



Eu não sei como amá-lo,

O que fazer, como tocá-lo,

Eu fui transformada, sim, realmente transformada.

Nos últimos dias, quando olhei para mim mesma,

Senti-me como se fosse outra pessoa.



Maria Madalena, então, a partir de ponto de vista não restrito a atitudes patriarcais, é figura feminina com quem as mulheres podem se relacionar sem trair sua natureza essencial. Sua imagem, como da prostituta sagrada, é capaz de encerrar todos os aspectos dinâmicos e transformadores do feminino – paixão, espiritualidade e prazer.

Filme:
Vídeo do Filme:

 Maria Madalena, se não puder assistir aqui, veja no Youtube:

                                      
                               

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20 julho 2010

Díptico da idéia de Mulher



                                                                   Maria Madalena



Mariana Warner, em seu estudo sobre a Virgem Maria, afirma:


Juntas, a Virgem Maria e Madalena formam um díptico da idéia de mulher do patriarcado cristão. Não há lugar na arquitetura conceitual da sociedade cristã para a mulher que não seja nem solteira nem prostituta.


Dentro dessa visão convencional, maternidade e sexualidade estão divididas. Além do mais, presume-se que Maria Madalena, o lado sexual de díptico, se tenha arrependido de seus atos impuros.


Madalena, como Eva, deve sua existência à poderosa contracorrente da misoginia no Cristianismo, que associa mulheres com perigos e degradação da carne. Por essa razão, ela se tornou santa proeminente e querida.


Ela oferecia esperança aos mortais que não conseguiam atingir o estado de perfeição da Virgem e que procuravam perdão para seus pecados.


Maria Madalena continuou sendo figura proeminente na tradição cristã, também por razão psicológica. A dimensão arquetípica da natureza feminina erótica elege uma figura para ser portadora de sua projeção. A questão é que os seres humanos, em sua busca espiritual, têm que encontrar uma imagem do feminino que tenha relação com os aspectos eróticos da deusa. Mas a representação da sexualidade pelo pai cristão manipulou a imagem de maneira que Maria Madalena fosse vista como penitente, renunciando à sua sexualidade.

Diferentemente do homem antigo, cujo amor pelo erótico não era considerado incompatível com a espiritualidade, esses líderes cristãos negaram exatamente o necessário para a renovação da vida – o aspecto dinâmico, transformador e feminino da psique.



A figura de Maria Madalena permanece fortemente velada (e obscurecida) por crenças cristãs convencionais, mas, se olharmos para trás do anteparo da ortodoxia, talvez possamos encontrar lá alguns aspectos dinâmicos da natureza feminina e restaurá-los a uma posição justa e apropriada em nossa própria mitologia. Warner escreve:



Exame minucioso dos Evangelhos recusa-se a conceder a Maria Madalena uma identidade, e desafia o pressuposto tradicional de que a mulher de grande beleza e capacidade de amar, verdadeiramente uma prostituta que se arrependeu de sua vida de pecado depois de conhecer Jesus Cristo, aprendendo então a amá-lo.



Há, de fato, certa confusão a respeito de se houve três Marias separadas – Maria de Betânia, irmã de Lázaro; Maria Madalena, a quem Cristo ressuscitado apareceu; e “a pecadora” – ou apenas uma. A igreja grega celebra suas festas em três dias separados, mas a Igreja ocidental combina-as em entidade única, Maria madalena, com apenas um dia festivo (22 de julho).



A questão permanece: quem é Madalena e por que a sua imagem, embora importante, é tão incerta e indefinida?



A incerteza existe em parte porque a imagem foi alterada. Ela ficou presa entre as incongruências da interjeição moral cristã e a imagem arquetípica da natureza feminina erótica. Paradoxalmente, parece haver vínculo entre as forças opostas da imagem de Maria Madalena.



Nos Evangelhos Gnóticos, ela é mulher capaz, ativa e amorosa, com habilidades para conhecer e falar “o Todo” – o que talvez seja uma referência a mais alta Sabedoria, certa compreensão que o coração recebe e contém. Maria Madalena possuía a habilidade de saber de coisas inexplicáveis, como em sua visão de Cristo. Ela não questionava esse seu lado, como faziam os outros. Ela confiava em sua fonte mais íntima. Ela conseguia ver o emissário divino e transmitir sua mensagem aos humanos. Como a prostituta sagrada, ela era mediadora entre o mundo do divino e o mundo dos humanos.



Há mitos que representam à capacidade de Maria Madalena de operar milagres. Diz-se de quando ela viu e falou a Cristo ressuscitado, pois se crê que ela foi a primeira a vê-lo. Ela saiu correndo para contar aos outros discípulos. No caminho, encontrou Pôncio Pilatos, e falou-lhe sobre a maravilhosa novidade. “Prove-o”, disse Pilatos. Naquele momento, passava uma mulher carreando uma cesta de ovos, e Maria Madalena tomou um nas mãos. Quando o ergueu diante de Pilatos, o ovo adquiriu cor vermelho-vivo. Como testemunho desse feito lendário, na catedral em Jerusalém que porta seu nome há uma estátua de Maria Madalena segurando um ovo colorido.



O ovo é muito apropriado nesse contexto, uma vez que é simbólico da nova vida e da capacidade de dar à luz. O ovo colorido é também associado à Astarte, deusa da primavera, de cujo nome nosso termo “Páscoa” é derivado. Ovos coloridos são usados em celebrações da primavera em honra à deusa, como o são hoje em dia na Páscoa.





Outro mito, proveniente da tradição cristã é aclamado na sexta estação da cruz, fala de mulher que limpou o rosto de Jesus cheio de poeira, suor e lágrimas, quando ele passava a caminho do Calvário. A face de Cristo ficou estampada no pano. Através dos tempos e da tradição, a mulher foi chamada de Verônica, mas este é um nome a que se refere ao fato, “Verônica” é combinação de “verdadeira” (Vera, em latim) e “imagem” (icona). Isso conduzia a especulação sobre se havia verdadeiramente uma mulher chamada Verônica, ou se essa mulher poderia ser Maria Madalena.

Ninguém podia dizer com certeza. Mas o mais importante é o significado psicológico do mito, ou seja, que a natureza feminina ativa encerra a imagem do divino. Como elemento complementador, é a natureza feminina que leva a pessoa ao Si-mesmo.



Outra faceta de uma reconsiderada Maria Madalena vem dos compositores Tim Rice e andrew Webber, na ópera rock Jesus Chist Superstar. Aqui ela é retratada como prostituta profana que se apaixonou pelo homem de Jesus, não pelo Salvador, e por meio de seu amor foi transformada. Ela é representada como que reconforta e acalma o seu amante. A letra da canção sugere que ela era bem parecida com a prostituta sagrada (“O ungüento é doce para o fogo em sua cabeça e em seus pés... fecha os olhos e relaxa”).



Eu não sei como amá-lo,

O que fazer, como tocá-lo,

Eu fui transformada, sim, realmente transformada.

Nos últimos dias, quando olhei para mim mesma,

Senti-me como se fosse outra pessoa.



Maria Madalena, então, a partir de ponto de vista não restrito a atitudes patriarcais, é figura feminina com quem as mulheres podem se relacionar sem trair sua natureza essencial. Sua imagem, como da prostituta sagrada, é capaz de encerrar todos os aspectos dinâmicos e transformadores do feminino – paixão, espiritualidade e prazer.

Filme:
Vídeo do Filme:

 Maria Madalena, se não puder assistir aqui, veja no Youtube:

                                      
                               

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