O homem que morreu, de D.H. Lawrence.


O homem que morreu, de D.H. Lawrence.



A estupefação experimentada por um homem encontrando sua anima – a guia interior que pode conter os mistérios da sexualidade e da espiritualidade – è ilustrada na curta novela de D.H. Lawrence, The Man Who Died (O homem que morreu).

Trata-se da estória de um andarilho, em Jerusalém figura de Cristo que levava vida pública atormentada, e que agora buscava alguma coisa que lhe proporcione mais satisfação. Essa situação é análoga à de muitos homens que, na segunda metade da vida, se sentem compelidos a se voltarem para dentro de si mesmos.



Ao partir para a sua viagem, tendo feridas abertas e doloridas, ele encontra uma mulher que é sacerdotisa de Ísis. Ele diz a si mesmo: “Essa menina de Ísis é a chama suave que cura. Sou médico, mas não possuo o poder de cura que tem a chama desta menina tão suave. Devo ousar aproximar-me deste toque suave de vida? Oh, é muito difícil”.




Ele está absorto e emaranhado em sensações novas quando a mulher se dirige ao santuário e se entrega aos sentimentos e ao anseio de Ísis. Ela é amorosa com ele, com o fogo misterioso de uma mulher forte, e ele é tocado pelo desejo que ela sente por ele. Ele estremece de medo e de prazer, dizendo a si mesmo: “Sinto quase mais medo desse toque do que sentia da morte, pois estou exposto a ele de forma mais nua”. Suas feridas começam a chorar novamente, um choro de arrependimento e culpa.



A sacerdotisa unge seus ferimentos, dizendo: “O que está dilacerado transforma-se em carne nova, o que era ferida enche-se de vida nova”. Ele conta-lhe a respeito de uma mulher que certa vez lavou-lhe os pés, limpando-os como próprio cabelo e vertendo sobre eles precioso ungüento.



[A sacerdotisa perguntou-lhe] “Você a amava?”.

“O amor havia passado para ela. Ela queria apenas servir”, replicou ele. “Ela tinha sido prostituta.”

“E você deixou que ela o servisse?” ela perguntou... “Você deixou que ela o servisse com o cadáver de seu amor?”...

Uma forte sensação de vergonha percorreu-lhe o corpo.

“Afinal de contas”, ele pensou, “eu queria que elas fizessem amor com corpos mortos”.



O homem que morreu também sentiu a dor e a morte de sua própria escuridão. Em sua nova consciência, sentiu certa agitação fervilhando, nova alvorada despontando. “Agora eu não sou mais eu, sou algo novo”. E disse: “Veja, Ísis é deusa delicada e cheia de ternura... Eu a sinto no âmago de meu ser”.



Esse é um exemplo comovente de homem encontrando sua anima na imagem da prostituta sagrada, alguém capaz de servir de mediadora entre o corpo ferido quais as energias instintivas eram negadas, e a experiência numinosa do divino. Embora temeroso de que sua natureza masculina ferida ficasse ainda mais exposta e sujeita a mais tormentos, o homem abriu-se à cura suave e aos métodos benéficos da sacerdotisa Ísis.

Aqui, a prostituta sagrada, como aspecto anima, funciona como mediadora entre consciência e inconsciência, fazendo as forças instintivas entrarem em harmonia com o divino. Sem a valorização dessa imagem, o homem contemporâneo experimenta grande desagregação entre os aspectos espiritual e sensual de Eros. Atos sexuais desprovidos de uma atitude de tributo à deusa tornam-se desempenhos meramente instintivos, sem conexão com um ser interior.

Muitos homens modernos experimentam essa desagregação. “O homem não conseguirá estabelecer conexão positiva com a sua anima enquanto essa desagregação não houver sido reconciliada e curada”, escreve Robert Stein. Inversamente, pode acontecer que essa divisão não possa ser curada enquanto não houver encontrado uma conexão positiva com a sua anima. Só então ele poderá abandonar atitudes convencionais e contraídas em relação ao feminino, e entrar para o mundo do envolvimento emocional pleno com outra pessoa.



*

Estágios da Anima



À medida que a consciência do homem se amplia, sua atitude em relação tanto ao seu lado feminino, quanto às mulheres em geral, altera-se. Jung descreve quatro estágios do desenvolvimento da anima, análogos às imagens históricas do feminino personificado por Eva, Helena de Tróia, a Virgem Maria e Sofia.



O primeiro estágio – Hawwah, Eva, terra – é puramente biológico; a mulher é igual mãe, e representada apenas algo a ser fertilizado.



O segundo estágio ainda dominado pelo sexual Eros, mais ainda estético e romântico, onde a mulher adquiriu algum valor como indivíduo.



O terceiro estágio eleva Eros às alturas de devoção religiosa, espiritualizando-o: Hawwah foi substituída pela maternidade espiritual.



E finalmente, o quarto estágio ilustra algo que, inesperadamente, ultrapassa o quase insuperável terceiro estágio: a Sapientia [Sofia]... Esse estágio representa uma espiritualização de Helena e, consequentemente, de Eros como tal. Eis por que a Sapientia era vista como paralela da sulamita no Cântico dos Cânticos.



Á primeira vista a descrição de Jung das figuras da anima em seus estágios progressivos parece restritiva, como se sugerisse que só quando a anima ultrapassa o estágio instintivo, negando sentimentos sexuais, a pessoa pudesse desenvolver uma espiritualidade. Perguntamo-nos se não se trataria ainda de algum eco da moralidade de nossa cultura, onde a sexualidade é considerada como antítese da espiritualidade. Interpretando neste sentindo, “não admira então que o conflito selvagem e confuso surja entre homem como criatura instintiva da natureza, e o homem como ser cultural, espiritualmente condicionado”.



Uma consideração mais cuidadosa do trecho, porém, sugere que Jung esteja, na verdade, dando ênfase à presença de Eros, em seu sentindo mais amplo sentido, a cada estágio do desenvolvimento da anima. Em outra passagem ele descreve: “A sexualidade não é meramente instintiva; trata-se de uma força criadora incontestável que não é apenas a causa básica de nossas vidas individualmente, mas também fator muito sério em nossa vida psíquica”.



No ápice de seu desenvolvimento, então o aspecto espiritual da anima abrange a sua sexualidade. Está contida na própria natureza da Sapiência (Sofia), que era a noiva de Deus. Na Bíblia ela diz: “Eu estava com ele, regulando todas as coisas; e cada dia me deleitava, brincando sobre o globo da terra, e achando as minhas delícias em estar com os filhos dos homens”. De acordo de um texto de alquimia, o Rosarium philosophorum, “em sua veste está escrito em letras douradas... eu sou a única filha do sábio. Completamente desconhecida do louco”.

A mais alta ordem da natureza erótica da anima é vista na imagem da Sulamita, e através dessa imagem encontramos a ligação com a prostituta sagrada. Sulamita era sacerdotisa de Istar; Jung diz que ela significa “terra, natureza, fertilidade, tudo aquilo que floresce sob a luz úmida da lua, e também o impulso natural pela vida”.



A prostituta sagrada, então, ainda que não seja sinônimo de anima, é imagem feminina relevante para cada estágio de desenvolvimento da mulher interna do homem. Ela oferece-lhe prazer, estímulo e vitalidade, personificação tanto da espiritualidade quanto da mundanidade. Ela é a amante cuja beleza é excitante, cuja natureza virginal traz vida nova e conduz Sabedoria – que é mais do que simplesmente intelecto.



Cada estágio sucessivo da anima provoca novas realizações e alterações de atitude; ao mesmo tempo, paradoxalmente, a influência do estágio precedente, ao invés de reduzida, é enfatizada. Inicialmente, como Eva, a prostituta sagrada está sintonizada com sua natureza biológica e sexual. Ela deseja o prazer físico. Em sua licenciosidade, ela deseja não o homem, mas um homem. Ela não é apenas quem oferece prazer sexual, mas também quem recebe. Ela é matéria, corpo e terra.



Como Helena, cuja beleza e encanto foram idealizados como protótipos do amor erótico através dos tempos, a prostituta sagrada possui esses mesmos atributos. Ela é a bela cujas vestes e perfume, cuja percepção de suas formas arredondadas nos movimentos de sua dança encanta homem e excita a sua paixão. Nesse estágio de desenvolvimento de anima, ela é vista como mais do que corpo – ela é indivíduo em seu próprio direito, experimentado como o Outro feminino. Ela assume personalidade particular.



A prostituta sagrada também tem característica comum com a Virgem Maria, embora isto seja difícil de compreender, pois nossa imagem cultural normal de Maria está nublada por uma noção difusa de pureza e piedade. É o efeito da desagregação entre sexual e o santo. Mas há outra imagem de Maria – como Nossa Senhora “negra” – que contém e valoriza esses conceitos aparentemente contraditórios. Como Maria, a prostituta sagrada é considerada virginal (psicologicamente); tal como o útero de Maria, que gerou a criança de Cristo, ou seja, de consciência elevada.



Na tradição católica romana, Maria é vista como intercessora entre Deus e o homem, conduzindo o homem a Deus para assegurar imortalidade. De modo similar, era a prostituta sagrada que, ao dar ao homem as boas vindas a seu recinto sagrado e introduzi-lo ao culto da divindade, servia como intercessora, como mediadora entre a divindade e o homem. A mulher interior, através de vários estágios de desenvolvimento, desempenha a mesma função que a mediadora, principalmente no ato de amor sexual, no qual o físico e o pessoal se transcendem.

Como foi escrito acima, Sofia (Sapientia / a Sulamita) estabelece paralelos com aspectos da anima, embora ela deva ser também considerada como aspecto do ser divino, análogo ao arquétipo do Si - mesmo. Sófia é a sabedoria. Na tradição bíblica, ela é tanto a noiva de Deus quanto a mãe, e amante que estava com Deus antes da Criação. Ela é o ser feminino que é “amiga e companheira desde o princípio do mundo, a primeira a nascer dentre todas as criaturas de Deus, um reflexo imaculado de sua glória e um mestre-de-obras”. Jung cita a sabedoria de Salomão para descrevê-la:



Ela é “sopro do poder de Deus”, emanação pura fluindo da glória do Todo-poderoso, “fulgor da luz eterna, espelho límpido do poder de Deus”, “o mais sutil” dos seres, que “passa e atravessa todas as coisas em razão de sua pureza”. É “conhecedora profunda de Deus”, e o Senhor de toas às coisas a amava... Ela é enviada dos céus e do trono da glória como um “Espírito Santo”.



Vimos anteriormente que a prostituta sagrada, na celebração do matrimônio sagrado, personificava a deusa e identificava-se com ela. Ela era a noiva de Deus, representado pelo rei. Na união do matrimônio sagrado, ela trazia o poder regenerativo da Sabedoria para o contato efetivo com as vidas dos homens.



A cada um desses estágios, o homem vai travando conhecimento com um aspecto diferente de sua própria natureza feminina. Ele é conduzido, por assim dizer, por uma imagem da anima a outra por meio de experiências de vida.

Idealmente, em seu caminho de individuação, ele virá a incorporar o pleno continuum de suas energias instintivas e de sua essência espiritual, experiência que culmina com o hieros gamos, o matrimônio sagrado ou a união de opostos. Tal homem entra para o ato sexual não a partir de um desejo pelo poder ou de uma necessidade de domínio, mas com o sentimento de honra e devoção para o mistério feminino.

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