Manto Azul





A Virgem Maria e a Nossa Senhora Negra

A outra metade de díptico cristão retrata a Virgem Mãe. Ela é a idealização da feminilidade, pessoa de absoluta pureza sobre a qual não há sombra de pecado. Era também humana, mas mais do que humana, uma vez que a tradição cristã decreta a assunção de seu corpo ao céu. Será que ela, como Maria madalena, possui precedentes arquetípicos? Será que há, por trás de sua imagem tradicionalmente aceita, retrato mais completo da plenitude e fertilidade vibrantes de sua natureza feminina?



Quando revemos os atributos da deusa, desde a primitiva civilização sumérica, até as civilizações altamente artísticas da Grécia e de Roma, descobrimos que as características em comum que elas possuem são beleza física, virgindade, associação com a lua e a morte trágica, ou o sacrifício deliberado, do filho-amante.



Com isso em mente, consideremos a imagem de Maria, mãe de Jesus. Ela é cultuada como a Virgem Maria. Na verdade, é a sua virgindade (o estado de castidade, e não o sentido original da palavra) que a separa das outras mulheres. Maria é também associada ao cosmos, costumando ser chamada Rainha do Céu. Para evidenciar sua beleza celestial, ela é frequentemente representada entronizada sobre a lua. Sua primeira associação é com o filho, que é sacrificado; o papel de Maria como esposa é insignificante.



Apesar desses paralelos com a imagem da deusa, Maria é convencionalmente associada apenas com o aspecto maternal do feminino – estático e protetor. O aspecto dinâmico e transformador, relacionado à paixão, à sexualidade e a fertilidade da deusa do amor, é visivelmente negligenciado.

Entretanto, há outras correlações entre Maria e as antigas deusas ctônicas as quais, embora não se trate de fato comumente conhecido, têm papel atuante na consciência coletiva. Num pequeno número de catredais espalhadas pela Europa, tanto em lugares populares como em locais isolados, uma Nossa Senhora negra é venerada. Não se trata da Nossa Senhora Angélica, mais familiar, em seu manto azul, mas de Nossa Senhora tão negra quanto à própria terra. Ela pertence ao mundo de baixo, não ao domínio celeste.



De tempos pré-históricos, em torno de trinta mil anos antes da era cristã, provém a Vênus Negra de Lespugue, entalhada numa presa de mamute, agora preservada no Musée de I’Homme, em Paris. Por ser anterior a uma época em que não existia conhecimento algum de agricultura, ela é mais do que terra, ela é a própria vida. Outras imagens femininas negras, simbólicas da força de vida ctônica, foram cultuadas através dos tempos.

Em Tindari, na costa do Mediterrâneo no leste da Sicília, uma estátua negra de Nossa Senhora possui a inscrição: nigra sum sed formosa – “Sou negra, porém formosa” – do Cântico de Salomão 1,5. Eruditos cristãos interpretam essa passagem como referência a uma noiva, a Virgem Maria como Ecclesia, unindo-se em matrimônio com o noivo, seu filho Cristo. Tal passagem parece ser encontrada no rito do matrimônio sagrado de Istar e Tamuz, pois há muitos paralelos entre as antigas tabuinhas cuneiformes e esse texto do Antigo Testamento. Não poderia essa “negra e formosa” Nossa Senhora ser produto da bem mais antiga imagem da deusa?



Foi a Nossa Senhora negra de Montserrat que inspirou Goethe e escrever as linhas de encerramento de Fausto, onde Maria aparece e salva o Dr. Fausto. “A eternamente feminina eleva-nos a si mesma.” Essa frase fala da mulher eterna; “não se trata do elemento divino na mulher, mas do divino como mulher”. Comentários de eruditos sobre o trabalho de Goethe reconhecem a influência da Nossa Senhora de Montserrat, embora não mencione que ela seja negra.



Quando as mulheres se adaptaram aos dogmas religiosos do patriarcado, elas também aceitaram a imagem da anima do homem como um reflexo preciso da natureza feminina. Assim sendo, elas perderam a conexão com o feminino genuíno, inclusive com os aspectos ctônicos representados pela Nossa Senhora negra.

Muitas Nossas Senhoras negras são normalmente valorizadas como símbolos religiosos, mas muito mais numerosas são as imagens de Nossas Senhoras convencionais “azuis”. Essas, enquanto anima, inspiram os homens a construírem catedrais magníficas e a criar belos trabalhos de arte, mas falta a elas uma dimensão crucial da natureza feminina.



A Nossa Senhora negra associada tanto com a terra como com a fertilidade, é imagem do feminino divino que reflete uma ligação antiga entre a natureza da mulher e a deusa do amor. Através dela, a Grande Deusa vive no cristianismo.

2 comentários

Leyvin disse...

Infelismente a desobediência do homem não é mais motivo para que Deus destrua a humanida como foi no princípio, no dilívio. Mas graças a misericórdia dEle é que continuamos vivos. Mas isso não quer dizer que podemos continuar errando e desobedencendo, fazendo isso de forma tão natural. Muitos já não têm mais o Espirito Santo para convencer do pecado, então adoram este pedaço de pau (madeira) e chamam de deusa. Imagem de escultura é abominação para o verdadeiro Deus. Veja em Êxodo capítulo 20, versículos 3 e 4. Veja em Deuteronômio cap. 7 Vers. 25 e 26. Não sou eu que estou dizendo, é a Palavra de Deus.

Simone Ramos disse...

Leyvin Obrigada pela visita!volte sempre.

Leyvin, siga seus valores que eu sigo os meus.

Abraço

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