Da letra à produção

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Anícia Ewerton

Simpósio de São Luís, 03 e 04 de setembro de 2004.







APRESENTAÇÃO

No trabalho que ora apresento procuro fazer uma análise de alguns pontos que me chamaram atenção quando fiz a leitura do livro “Gêmeas Silenciosas”. Para essa análise tomo por base alguns conceitos discutidos nos grupos de estudos que venho participando aqui em São Luís.



HISTÓRICO



“Gêmeas Silenciosas” é um livro escrito pela Jornalista Inglesa, Marjorie Wallace. Trata-se de um fato verídico, que ocorre com uma família de negros de Barbados (ilha localizada na América Central) que migram para a Inglaterra. Uma família composta por cinco filhos, sendo que dentre os cinco filhos existem duas Gêmeas, que segundo a autora são idênticas. A mãe porém acha que elas apresentam uma pequena diferença. A jornalista teve conhecimento do fato em abril de 1982, quando era redatora do “Sundy Times” e escreveu um artigo sobre o julgamento no qual June e Jennifer (as gêmeas) foram acusadas de roubo e de provocar incêndio. Segundo a escritora foi o conhecimento da sentença que a levou a procurar os pais das gêmeas .



RESUMO



June e Jennifer nascem em 11 de abril de 1963 na Inglaterra, os pais já tinham outros dois filhos que nasceram no Caribe, também nasce na Inglaterra mais um filho deste casal. Segundo a autora o pai envolvia-se muito pouco com as crianças. Era como muitos homens de Barbados ( ilha do Caribe); ele achava que sua contribuição para a vida em família começava e acabava em promover abrigo, também era constante a mudança de base, pois sua profissão era de controlador de tráfego aéreo e consequentemente, a família o acompanhava. Todas as outras atividades domésticas ficavam por conta de sua esposa, que sozinha tinha que cuidar das gêmeas e de duas outras crianças pequenas, tinha poucos amigos e nenhum apoio. Na hora do parto das gêmeas, June foi a primeira a nascer, contudo, era a mais fraca e logo nos primeiros meses Jennifer venceu-a em todos os marcos do desenvolvimento: sentar, engatinhar, andar. Apesar de Jennifer ter superado sua irmã nesses marcos, mesmo assim, foi notado pela mãe que desde a fase de bebês, as gêmeas queriam fazer tudo junto. A mãe amamenta esses bebês durante os primeiros meses e, de acordo com o livro a mãe ficava exausta porque as garotas lutavam para mamar ao mesmo tempo.



O livro ilustra várias fotos dessas garotas, onde se pode observar que na infância suas roupas eram iguais, a mãe fazia o mesmo penteado nas duas.



Aos três anos de idade June e Jennifer só conseguiam juntar as frases mais simples de duas ou três palavras, fato este que não preocupou a mãe pois sabia que era freqüente o atraso na fala de gêmeos. Em 1967, quando nasce o quinto filho, elas já estavam na escola, mas ainda não falavam muito. Na escola, as gêmeas começam a escrever. Contudo, de acordo com um relatório da professora, June começa a escrever, mas ainda não se sente segura para falar ou ler. Aos oito anos de idade conforme relatório escolar as gêmeas escreviam e liam fluentemente, contudo, não falavam. Em 1977, June e Jennifer foram submetidas à uma cirurgia para soltar a língua, momento este que as deixou muito ressentidas e infelizes. Elas nunca falaram com o pai e os dois irmãos mais velhos, porém, gostavam de brincar com a irmã caçula. A comunicação entre as mesmas era em forma de código secreto para evitar que os outros as entendessem.



No mesmo, ano elas são levadas para uma nova escola, ou melhor, para um Centro de Educação Especial que cuidava de crianças com comportamento destrutivo. Apresentavam uma lentidão física e também uma rigidez dos corpos. As gêmeas reagiam as críticas desligando-se totalmente do que estavam fazendo e quando atacadas elas se abraçavam com força, de pé, como forma de se protegerem e darem força uma a outra. Quando uma atacava a outra, ficavam cara a cara revezando-se nos golpes . Outro ponto que é observado nesse livro é que conforme o relato, as gêmeas andavam sempre juntas, envolvidas numa espécie de jogo de “passo de ganso”, uma andando uns cinco metros atrás da outra, bem devagar, como se participassem de uma estranha e majestosa procissão. Na escola, ninguém as via indo ao banheiro ou comendo. Enquanto frequentavam a escola conseguiram fazer amizade com uma única garota que era asmática e religiosa, a mais nova de oito filhos, de uma família fervorosa de cristãos pentecostais. June e Jennifer chegaram a ir para um grupo terapêutico, o qual o livro não relata que dinâmica é usada.



Naquele ano, fizeram uma tentativa de separação das gêmeas. June escreve em seu diário que será bom para elas a separação. Jennifer também escreve em seu diário seu posicionamento a respeito da separação e chega a dizer: “queremos levar nossas vidas independentes, mas quando estamos juntas sempre dependemos demais uma da outra” (pg 38).



No dia 13 de março de 1978, o plano da separação foi efetivado. Quatro dias depois da separação retornaram para casa para passar o feriado da páscoa e retornam no dia 10 de abril, um dia antes do aniversário delas. June caiu num estado de angústia do qual ninguém da unidade residencial podia livrá-la. Os 15 anos de June segundo a autora, foram o pior de sua vida; ela ignorou os cartões e os presentes, parou praticamente de se mover, rígida como um pequeno animal ameaçado, rejeitou a comida. O único momento que June dava sinal de vida era na hora do almoço, quando deixavam ela telefonar para Jennifer. Aquela tentativa de separação foi um fracasso. June entra em uma profunda depressão. No dia 8 de maio de 1978, a idéia da separação foi abandonada, depois que June foi passar um final de semana em casa e não retornou à unidade. E nesse mesmo dia Jennifer fugiu do abrigo onde estava. A aparência física das duas após esta tentativa tinha deteriorado refletindo a tristeza que sentiam.



Segundo o livro, Jennifer exercia um poder sobre June. Porém em um dos diários de June - pois as duas escreviam compulsivamente-, ela escreve de maneira paradoxal: “Ninguém nos conhece melhor do que nós mesmas. Podemos ser Gêmeas, mas somos gêmeas diferentes. Somos exatamente iguais em tudo o que fazemos....”. June queria ser diferente, mas era repetido constantemente por ambas o seguinte: “Você é Jennifer. Você é eu”. (pg . 45 e 46)



A autora também relata que depois de deixar a escola, as meninas não falaram mais com ninguém, exceto com a irmã caçula, Rosi. Até a mãe, Glória, com quem antes trocavam umas poucas palavras práticas, foi incluída na lista do silêncio. A mãe recebia ordens por meio de notas rabiscadas deixadas no topo da escada, e já havia algum tempo que elas tinham resolvido não mais sentar à mesa com nenhum membro da família.



Aos dezesseis anos, June e Jennifer passavam o dia brincando com seus bonecos. Nessas brincadeiras, os bonecos que faziam o papel dos pais, eram exigente para com seus filhos imaginários, insistiam nos padrões de educação e disciplina.



As gêmeas amarraram bandagens bem apertadas nos seios, pois não queriam crescer preferiam continuar como crianças.



No natal de 1979, as gêmeas ganharam de presente diários vermelhos, nos quais passaram a registrar meticulosamente os detalhes corriqueiros de suas existências.



No dia 12 de janeiro de 1980, June começou a escrever seu primeiro romance “Viciado em Pepsi-Cola”, o qual ainda conseguiu publicar. Neste período foi solicitado uma foto de June para ilustrar na capa do livro. Por causa disso as gêmeas passaram a tirar fotos de maneira obsessiva, pois queriam melhorar a aparência. Jennifer diante desse fato, também tomou a iniciativa de escrever o seu primeiro livro o qual intitulou de “O Pugilista”. Contudo, o mesmo foi rejeitado pela editora. Jennifer ainda escreveu outros livros que também foram rejeitados pela editora. Então, em meio a toda aquela frenética atividade literária, a irmã caçula Rosi, foi excluída.



Elas mantinham em dia seus diários, liam vorazmente, participaram de vários concursos de poesias. Diante do desapontamento pela recusa das editoras, começaram a achar frustrante a presença uma da outra, chegaram a pensar em cada qual descobrir outras partes de si mesma, que não pertencesse à companheira. Mas, sempre voltavam atrás. Chegaram a relacionar-se com dois garotos, foi um relacionamento bastante tumultuoso e de curta duração.



A passagem das gêmeas para a vida de delinquência não se limitou à invasão de uma única instituição, atearam fogo em escolas e por esses crimes foram julgadas e condenadas. Ao lê a sentença o Juiz diz que as provas apresentadas mostram que as duas acusadas sofrem de distúrbios psicopáticos, com isso ordenou a detenção de ambas no hospital de Broadmoor. Em 18 de junho de 1982, já com 19 anos de idade June e Jennifer foram transferidas para o referido hospital.



Após o término da leitura do livro, levantei dois questionamentos que me levaram a tecer alguns comentários sobre esse caso: o primeiro, refere-se a questão de um ambiente saudável na infância, diante de uma situação de migração; e o segundo, diz respeito a função de espelho no gêmeo.



AMBIENTE FAMILIAR X MIGRANTE

Quanto à questão do migrante, a abordagem foi feita no capítulo I do livro “O migrantre na rede do Outro”, de Ademir Pacelli Ferreira, cujo livro foi escrito a partir de observações feitas pelo autor brasileiro no hospital Pedro Ernesto no Rio de Janeiro. Aí, o autor relata os dramas, as tragédias e as lutas dos migrantes nordestinos, quando se deslocam para o sul do país Essa abordagem é iniciada com o argumento de que alguns estudos têm por tendência atribuírem ao migrante à idéia de carência.



Nesse livro, Pacelli esforça-se para remar contra essa corrente e diz que existe um outro lado da moeda e tenta mostra a positividade e a riqueza da experiência do migrante, que seria um complexo processo de enfrentamento da diferença, de elaboração da estranheza intrigante, que remete o sujeito a uma reinvenção de si, a uma reconstrução de suas referências, a um processo complicado, doloroso, mas potencialmente criativo de afirmação de si.



O que ora questiono é: como se deu a reconstrução das referências dessa família? E que fantasmas foram ressurgidos naquela mãe? O que a levou-a a parir gêmeos logo após a quebra de vínculo com seu país de origem, onde foi deixado para trás todo um grupo familiar?



Freud em seu texto “O Estranho”, de 1919, diz que diante do estranho pode emergir eventos que nunca, ou muito raramente, acontecem de fato. O mesmo também é visto como oriundo de complexos recalcados.



O ambiente saudável na infância é colocado por Winnicott (1988) como aquele que dá condições a quem exerce a função materna, de estar presente mais ou menos no momento e no lugar certo, para favorecer a adaptação às necessidades. E diz mais, que segurar e manipular bem uma criança facilita os processos de maturação e segura-la mal significa uma incessante interrupção destes processos, devido às reações do bebê às quebras de adaptação. Segundo este autor, por terem sido segurados suficientemente bem, os bebês tornam-se capazes de atravessar bem todas as fases de seu desenvolvimento emocional. Em um outro artigo sobre os Gêmeos (Winnicott 1982), diz que a mãe de gêmeos tem uma tarefa extra, acima de todas as outras, que é dar-se toda a dois bebês ao mesmo tempo.



Assim, partindo dessas considerações o que associei com essa leitura foi que, devido à mãe dessas garotas encontrar-se sozinha para cuidar das gêmeas, dos dois filhos menores e mais do marido, que se preocupava somente em prover abrigo para sua família, faltando-lhe também o grupo familiar e tempo adequado para atender às necessidades dessas garotas, a singularidade das gêmeas, sua estrutura como sujeito, ficou profundamente prejudicada.



FUNÇÃO DO ESPELHO NO GÊMEO



Nos Escritos de Lacan, encontramos o artigo “O estádio do espelho como formador da função do eu” , no qual ele diz que devemos compreender o “estádio do espelho” como uma identificação, ou melhor, como a transformação produzida no sujeito, quando ele assume sua imagem.



Segundo Berger & Balbo no livro “A Criança e a Psicanálise” no caso de gêmeos, é preciso que a mãe funcione para dois, que seja a função de dois. Contudo, o próprio contingente perceptivo está afetado, marcado, pois o espelho, no gêmeo, é puramente de domínio. Os movimentos desordenados da jubilação, objetos do enquadramento do espelho recortados pela mãe, não são recortados tampouco pelo Gêmeo; é isso a fascinação, pois os objetos em questão mantêm juntos os dois gêmeos; então como que fascinados um pelo outro. Assim, não há um domínio da imagem que vá marcar o juízo de atribuições.



Consideram ainda que existe um estatuto particular da suplementação entre os gêmeos, e que para o funcionamento de um, o outro é o objeto a .



A agressão entre as gêmeas, neste caso que está sendo apresentado, levou-me a pensar na questão colocada por Berger & Balbo de que a imagem em espelho é a do gêmeo. E esta imagem é continuamente destitutiva do sujeito, que dela não pode assumir nada, sem desejar a morte do outro que é supostamente a sua própria perda, existindo sempre um demais: mas qual? Acrescenta, ainda que a relação gemelar é o próprio exemplo do sadomasoquismo. Aproveito para citar uma frase escrita por Jennifer Gibbons (a gêmea) em um de seus diários que retrata muito bem este posicionamento de Bergés&Balbo : “Ela devia ter nascido morta. Caim matou Abel. Nenhum gêmeo devia se esquecer disso”. (pg . 147)



Na linguagem comum dos gêmeos, esse código de comunicação desenvolvido por eles é percebido de forma bem singular, como no caso dessas gêmeas, que para Bergês & Balbo é um dos mecanismos usados pelos gêmeos para jamais perder uma relação especular.



Analisando o comportamento das gêmeas, pode-se dizer que foi um comportamento agressivo entre elas, um isolamento de seus familiares, uma total reclusão no seu quarto e uma comunicação codificada que só elas entendiam, que as levou à não tolerança da separação. E o domínio de Jennifer sobre June leva-me a pensar em um significante que não fez marca que não conseguiu estabelecer uma diferença nessas meninas. Além disso, pode-se pensar também em uma falha na função paterna, na falta de um terceiro para interditar essa relação.



Encerro este trabalho com um registro feito por June em seu diário, quando já se encontrava no hospital Broadmoor (1982), depois da sua condenação:



“Sou imune à sanidade ou à insanidade.



Sou uma caixa de presente vazia; toda



Desembrulhada para ser jogada fora por outra pessoa.



Sou uma casca de ovo jogada fora,



Sem vida dentro de mim, pois não sou



Tangível, mas uma escrava do nada.







Nada sinto, nada tenho, pois sou

Transparente para a vida; sou uma fita



Prateada num balão; um balão



Que vai voar para longe sem



Nenhum oxigênio dentro. Nada sinto



Pois nada sou, mas posso



Ver o mundo daqui de cima”.







June Gibbons

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