Impotência sexual: Um enigma decifrado?

***
Clarice Bacelar-Lemos








"Em tudo a paixão é tudo!" (1)


F. Nietzsche







Até começar o esboço do que lhes trago hoje, eu supunha que a minha pesquisa sobre impotência sexual fosse apenas uma decorrência da minha prática clínica. Essas suposições de superfície...



Mas, ao iniciar o esboço desse escrito veio-me, inesperadamente, uma vaga lembrança que mudou o rumo do meu projeto inicial. Sim, ali estava um enigma encarnado, ou melhor, encadernado. Eu queria ler um livro e meu pai sugeria que eu adiasse a sua leitura. Situo apenas que isso se passou próximo ao Golpe Militar de 1964, porque, algum tempo depois, meu pai teve que queimar quase todos os seus livros. Estávamos então, no Brasil, vivendo o absurdo e ridículo momento da caça aos "suspeitos". Enquanto eu queria aquele livro "fetichizado", meu pai queria que eu lesse um outro, "Os sertões", de Euclides da Cunha, um dos maiores épicos da literatura brasileira, sobre a Guera de Canudos. O fato é que eu queria saber que vontade enigmática era aquela, a daquele homem que estava na capa do livro, sério, com bigode e um nome esquisito: Nietzsche.



Será preciso dizer que parei de escrever? Foi o que fiz e sai atrás de um exemplar daquele livro, pois o da minha infância havia sido queimado. Aquele livro continuava sendo proibido para mim e eu não tinha me dado conta disso. Qual era mesmo a vontade daquele homem? "Vontade de potência", dizia ele.



Em 1886, Nietzsche escreveu para sua irmã Elisabeth dizendo: "Durante os quatro anos vindouros trabalharei na conclusão de minha obra principal. O título é já de estremecer: Vontade de potência -- ensaio de uma transmutação de todos os valores. Para isso tenho necessidade de tudo, de saúde, de solidão, de bom humor." (2)



Adiante ele escreve: "Vontade de potência"não é um ser, não é um devir, mas um pathos, ela é o fato elementar de onde resultam um devir e uma ação...". "Vontade de potência" é somente o esforço para triunfar do nada, para vencer a fatalidade e o aniquilamento: a catástrofe trágica, a morte. Vontade de potência é, assim, a vontade de durar, de crescer, de vencer, de estender e intensificar a vida. É vontade de Mais, Mehrwollen". O Todo é força, e vontade de potência é esse impulso interior da força que gera o movimento. Uma força não existe mais que em sua tensão momentânea." (3)



Bem, agora deixarei Nietzsche por um tempo na estante e abrirei um rascunho de algumas anotações clínicas.



O que era mesmo aquilo, uma baioneta ou um pênis ereto? De fato, nem uma coisa nem outra, era um braço estendido para mim, hirto, estranho. Não era curioso para mim que aquele braço, como a maioria dos braços, terminasse em mão, estranho era defrontar-me com uma baioneta/pênis com dedos. Para que uma baioneta ou um pênis querem dedos? Enquanto encontrava-me com essas impressões e indagações furtivas dei-me conta que aquilo fazia parte de um corpo. Um corpo que além daquela coisa hirta, estendida em minha direção, tinha dois olhos, aliás, mais do que isso, eles olhavam-me insinuando a possibilidade de haver ali um homem, "armado"?



Estávamos então no umbral da dúvida e da porta, então decidi convidá-lo a entrar. Em seguida resolvi estender-lhe meu braço, segurei a sua mão, que até então encontrava-se suspensa no vazio; ao fazê-lo, a dele reforçou a minha suspeita que eu podia estar, patetica-mente, insistindo que uma estátua respondesse ao meu toque.



Foi assim aquele primeiro momento. Durante um longo período, quando eu abria a porta do meu consultório para chamá-lo ele repetia o mesmo gesto. Depois de um tempo, imaginem vocês, aquela baioneta/pênis flexibilizou, mas então parecia que ele convidava-me com um mímica para uma "luta de braço". Todavia, como a nossa aposta não era a mesma, eu não entrei numa "luta de braço" com ele. Fiquei apenas a escutá-lo.



Ele estava ali por insistência do seu sócio e da sua mulher, ele mesmo não tinha esperança de viver melhor, vinha sendo medicado há mais de quinze anos, depois de um diagnóstico de PMD, dado e confirmado por diversos psiquiatras. Para ser mais preciso, não lembrava de Ter vivido com alegria.



Conta-me que nasceu numa vila de colonos italianos, onde viveu até a adolescência. Por ser neto de imigrantes, traz na sua história vestígios de uma melancolia telúrica, presente na vida daqueles que têm de deixar a sua terra para poder sobreviver alhures. Viveu naquela vila formando com a mãe um par silencioso e triste. Seu pai dali saíra à busca de trabalho para pagar as dívidas decorrentes de uma falência. Voltava poucas vezes, e quando aparecia, sem pedir licença, desmontava aquele par ficando, então, como o homem da sua mãe, mas esque-cia sempre de se colocar como pai para ele. Sentia-se excluído e só.



Os irmãos estudavam na cidade grande e só voltavam à casa paterna nas férias. Seu sonho secreto era sair da vila e ficar muito rico, pois, acreditava que a riqueza traria a desconhecida



felicidade, e restituiria luz aos olhos da sua mãe, que, calada e triste, vivia acomodando a fúria dos credores. Nutria esse sonho com um composto de tristeza e raiva.



No começo da sua adolescência ele e a mãe foram embora para a capital, ajudados pelo irmão mais velho. Poucos anos depois, sem ele Ter ainda ficado rico, a mãe recebeu um diagnóstico de câncer e ele passou a viver a angústia de vê-la sofrer e de esperar a separação definitiva. Não se imaginava sem ela.



Depois da morte da mãe refugiou-se nos seus escritos. Antes, era ele e a mãe. Depois, ele e seus escritos. Ainda escrevia textos teatrais quando conheceu uma atriz que encarnava um de seus personagens, apaixonou-se. Formaram um par até a entrada de outro homem na vida dela. Mais uma vez, via-se excluído e só.



Não suportando viver tão só, depois daquela segunda grande perda, aceitou o convite do seu irmão mais velho para ir trabalhar e morar com ele. Trabalharam alguns anos abrindo estradas numa região da Mata Atlântica. Ali isolou-se nos dois primeiros anos trabalhando textos que lhe possibilitariam tornar-se outro. Seu projeto era exatamente esse, fazer um corte total com o passado e ser outro, acreditando que isso depende apenas do saber e de uma construção lógica.



Ainda morava nessa região quando conheceu a sua esposa. Finalmente ficou rico somando os frutos do seu trabalho com a herança deixada pelo pai dela. Estando rico, seria feliz? Com-prava o que desejava, dias depois não dava mais a mínima importância àquelas coisas, acumulava bens, consumia desmedidamente. Nesse período fez a sua maior crise melancólica.



Ele estava a dizer para mim que não sabia o que desencadeara aquela crise, quando, subita-mente, parou e disse que estava vindo uma lembrança: -- Era um final de tarde e ele encon-trava-se na sua maior fazenda. Estava sentado e quieto, como não conseguia fazê-lo há anos.



Olhava as casas dos empregados, as obras que havia feito, os armazéns abarrotados, aquele mundo de terras. Veio-lhe, então, um pensamento: que apesar de toda riqueza que havia acumulado seu filho iria morrer um dia, como os filhos dos seus empregados, e ele não podia fazer nada para evitar o inevitável. Apenas lembra que saiu daquele lugar se sentindo muito mal, depois entrou numa crise muito forte de agitação, e que foi muito difícil sedarem-no. De-pois disso não conseguia ficar no escuro e só dormia com um velho empregado, da sua confiança, que passou a acompanhá-lo até mesmo nas suas viagens. Por um tempo formaram um par inseparável.



Após suas grandes perdas ele procedia da mesma forma, não queria que ficasse o mínimo vestígio, sequer o menor resto do que foi vivido, fazia um corte radical, mudava de endereço e evitava de todasas formas algum vínculo com o passado. Também prometia a si mesmo que seria outro.



Depois daquele final de tarde na sua fazenda passou a evitar o por-do-sol porque o deixa angustiado.



O ocaso, invariavelmente, traga a luz do dia e oferece a escuridão. Se para alguans a noite é bem vinda, para outros é assustadora. Para ele, tornou-se insuportável. Era uma das suas queixas uma insônia crônica que só cessava quando chegava à exaustão e paralelamente ele já podia ouvir ruídos da cidade ou das pessoas da sua casa que despertavam com o amanhecer. Justificou dessa forma o fato de ter construído seu quarto separado do da mulher, pois, enquanto a sua mulher dormia, ele precisava ficar com a luz acesa. Enquanto as pessoas da sua casa dormiam, ele lia, armava jogos, vigiava a casa, a várias vezes ao quarto dos filhos, etc.. Confessa ter um apego imenso aos filhos e sofre com idéia de que um dia eles irão embora e tem tentado, obstinadamente, retardar esse momento.



Fala sobre sua mulher sem qualquer vestígio de desejo. Nela admira a alegria de viver e a despreocupação com o amanhã.



Vive frequentemente invadido pela angústia, porém a tensão ( física e psíquica) é uma constante. Sobre isso cita alguns exemplos: se a sua mulher chega perto enquanto ele dorme, pula da cama; se alguém o cumprimenta tocando-o de leve, vira-se para brigar. Fica agressivo,



Não consegue se controlar. Reconhece que sempre se antecipa estendendo a mão para cumprimentar as pessoas para mantê-las à distância. Esses períodos de grande tensão são intercalados por outros de prostração, quando se sente como num profundo sono acordado, sem devaneios. Nesses momentos recorre a um suplemento químico para suportar a vida, não deseja nada, nada lhe interessa. Frequentemente tal estado é intercalado por uma expectativa tormentosa e iminente de alguma catástrofe.



Talvez alguns entre os que aqui se encontram pensem que a impotência sexual não seja mais um enigma, desde que já se tem teorizado muito sobre esse tema. Talvez, quem sabe, haja também entre os senhores alguns que alimentem a esperança divina de viver e amar em paz.



O que posso afirmar é que o paciente, ao qual me referi, não tem essa esperança, a verdade da condição humana , a de um ser-para- morte, bate nele de forma implacável, deixando-lhe poucos recursos para se enganar. Ele e um outro paciente moveram em mim o interesse clínico para pesquisar sobre a impotência sexual. Mais precisamente, a impotência sexual na melancolia como um mais além da disfunção erétil peniana.



Não será excessivo dizer que em nenhum momento eles se queixaram de falta de eração peniana. Não padecem dessa forma de impotência sexual mais explícita que aparece, se instala, e mais do que hóspede, se faz senhora do corpo, submetendo o homem a uma assustadora e cruel detumescência peniana. Embora livres dessa explícita modalidade de impotência sexual, os referidos pacientes trazem na mala uma marcante dificuldade para a ação sexual, e uma falta de sentido que sustente o ato sexual.



Vários aspectos teóricos clínicos poderiam ser aqui trabalhados, mas optei por concentrar meu pensar em torno de movimento e sentido, por considerá-los conceitos cruciais para se pensar a inibição, ou seja, esse ponto de interseção entre a impotência sexual e a melancolia.



Confesso que revisitar Nietzsche lendo a obra proibida da minha infância afetou-me ao ponto de desconfiar que Freud leu Nietzsche atrás da porta e não confessou a taravessura. No entanto, Nietzsche, mais despudorado do que Freud não hesitava em confessar: "Ó minha avidez! Em minha alma não há desinteresses. [...] Maldita seja a chama de minha avidez! Ó não poder me reencarnar em mil seres diferentes!" (4)



Pois é, enquanto Nietzsche se colocava como um livre pensador, não suportando sequer algumas amarras do universo filosófico, Freud, ainda comedido, percorria um caminho balizado pelos ideais da Ciência, tentando comportar o seu pensar no bojo do modelo neo-positivista. Por causa desses balizamentos metodológicos Freud, num primeiro momento, imprensa a pulsão nos limites desse modelo. Consequentemente, o fator quantitativo ganha realce nas suas primeiras teorizações sobre a pulsão.



Certamente isso se deu como uma tentativa de Freud de querer dar um matiz fisicalista às suas teorizações, pois, amenizando o caráter ficcional das suas conjecturas, teria mais chance de apresentar o seu projeto de modo que ele obtivesse maior aceitação enquanto projeto científico. Ele, naquela época, ainda aspirava fundar uma nova ciência acreditando ser possível fazê-lo sem produzir uma ruptura radical com o estabelecido. Talvez ele ainda não tivesse se dado conta que já havia tomado outra direção.



Apesar da tônica fisicalista dada por Freud às suas primeiras produções, já podemos entrever nos seus interstícios, elementos antecipatórios que darão corpo à sua próxima concepção do processo pulsional, que só foi apresentado quase vinte anos depois em As pulsões e suas vicissitudes, possibilitando consideráveis avanços no estudo sobre pulsão.



Relembremos então parte do que Freud produziu inicialmente, abrindo caminho para suas futuras teorizações. Refere-se a quantidade, enquanto investimento e ocupação, mas, desde então, ele deixa perpassar a noção de movimento. Na sua primeira arquitetura do aparelho psíquico Freud o concebe como tendo uma direção privilegiada que vai da parte sensorial --



Que recebe a variação da quantidade de movimento, logo, o impacto de um objeto que altera sua quantidade de movimento -- para a parte motora, onde a aceleração imprimida é anulada, zerada, de modo a retornar ao repouso. Quantidade é aqui definida como modificação de um estado, como diferença entre repouso e movimento. Se a quantidade for igual a zero, não haverá mudança de estado. Se for diferente de zero, uma de duas coisas ocorrerá: ou ir-se-á de um estado de movimento para um de repouso, ou , ao contrário, de um de repouso para um de movimento. Freud introduz a lei geral do movimento, ou seja, a lei da inércia. Isto é, um corpo tende a conservar a sua quantidade de movimento enquanto não for perturbado por outro corpo. O aumento quantitativo descreve a passagem de um estado de menos movimento para um estado de mais movimento. A diminuição descreve a passagem inversa.



Quanto ao deslocamento quantitativo indica a passagem de um estado de movimento de um local, de um lugar, para outro. Descarga denomina a passagem de um estado de movimento para um estado de ausência de movimento. Podemos verificar assim, que todas as noções envolvendo quantidade são puramente qualitativas e não quantitativas. Inércia não se refere a um zero absoluto, mas apenas a um estado de ausência de diferença na quantidade de movimento. (5)



Freud (1888-93), no seu artigo sobre "Algumas considerações para um estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas afirma que "cada acontecimento, cada impressão psíquica, é dotado de um certo montante afetivo (Affekbetrag), descarregado pelo eu ou pela via de reação motora ou por um trabalho psíquico associativo." Num outro momento, no seu trabalho sobre "As neuropsicoses de defesa"( 1894) ele chama atenção para o fato de que "[...] cabe diferenciar algo nas funções psíquicas ( cota de afeto, soma de excitação) que tem todas as propriedades de uma quantidade -- embora não tenhamos nenhum meio de medí-la --, algo capaz de aumento, diminuição, deslocamento e descarga, espalhada sobre os traços de memória de representações, algo como uma descarga elétrica sobre a superfície de um corpo".



Desde as suas primeiras elaborações sobre pulsão Freud tem o cuidado de não igualar pulsão e estímulo mental afirmando que: "Um estímulo pulsional não surge do mundo exterior, mas de dentro do próprio organismo. Por esse motivo ele atua diferentemente sobre a mente, e diferentes ações se tornam necessárias para removê-lo. Além disso, tudo que é essencial num estímulo fica encoberto, se presumimos que ele atua com um impacto único, podendo ser removido por uma ação conveniente. Um exemplo típico disso é a fuga motora proveniente da fonte de estimulação. Uma pulsão, por outro lado, jamais atua como um impacto momentâneo, mas sempre como uma força que imprime um impacto constante." (6) Desse modo Freud introduz nas suas elaborações o princípio de constância. Diferentemente dos estímulos externos ou mesmo da necessidade, que atuam como uma força de choque momentânea, algo que do ponto de vista energético seria aproximado a uma energia cinética, a excitação pulsional teria que ser concebida como uma energia potencial. Não se trata de um fator apenas impelidor de um movimento entendido como uma descarga ou um behavior, mas de um processo de transformação complexo O aparato psíquico já é então concebido como um aparato de captura, transformações e ordenação de intensidades que lhe chegam de fora, de fora do aparato, sendo que as intensidades que mais lhe afetam são as pulsionais.



Nas suas formulações metapsicológicas ( 1915) Freud conceitua pulsão como "medida do trabalho exigido do aparelho psíquico em razão de sua ligação com o corpo"e tenta decompor seus quatro termos: pressão ( impulso), finalidade, objeto e fonte. Sobre a pressão da pulsão diz Freud: "Por pressão ( Drang ) de uma pulsão compreendemos seu fator motor, a quantidade de força ou a medida da exigência de trabalho que ela representa. A característica de exercer pressão é comum a todas as pulsões; é, de fato, sua própria essência. Toda pulsão é uma parcela de atividade; se falarmos em termos gerais de pulsões passivas, podemos apenas querer dizer pulsões cuja finalidade é passiva."(7)



Freud, 1920, em "Além do princípio de prazer", conclui que para poder avançar nas suas teorizações precisa reformular radicalmente a sua teoria das pulsões e introduzir o novo conceito de pulsão de morte. A partir daí a oposição entre a pulsão sexual e o eu é sucedida pela oposição entre pulsão de morte e a pulsão de vida.



De difícil apreensão pela experiência, a pulsão de morte costuma aparecer fusionada com a pulsão de vida, à exceção da epilepsia onde pode se manifestar no seu estado puro. Comumente ela se manifesta entrelaçada com a pulsão de vida, "o que é evidenciado na pulsão de agressão onde encontramos a tendência a se apropriar do objeto, pertencente ao registro da pulsão de vida, pois ela visa antes de mais nada unir-se a ele, e tendência a destruí-lo, que provém da pulsão de morte." (8)



Depois de uma década em "O mal-estar na cultura, Freud consegue aproximar-se de forma mais efetiva da pulsão de morte, suportando reconhecer a sua plena autonomia enquanto pulsão de destruição. Freud, então, aproxima-se de uma formulação demoníaca ou nitzscheana?



Penso que Nietzsche, se antecipou a Freud vislumbrando a pulsão, -- inclusive a sua expressão enquanto pulsão de morte -- ao afirmar que "ontade de potência" não é um ser, não é um devir, mas um pathos, --- ela é o fato elementar de onde resultam um devir e uma ação..."



Na sua acepção mais geral pathos significa "algo que acontece", quer em referência ao próprio evento, quer à pessoa afetada. O pathos é tanto o que acontece aos corpos, como o que acontece às almas. Ele é uma capacidade para a mudança num sujeito ou então a própria mudança em si, e mudança particularmente qualitativa. (9)



Finalmente Freud irá teorizar sobre a pulsão de morte reconhecendo não apenas a sua ação destruidora mas a sua ação transformadora, atuando disjuntamente e impedindo a perpetuação de formas ou uniões constituídas por Eros. Ora, se entendermos o desejo como pura diferença, o projeto de Eros seria o da eliminação da diferença, e, portanto, do desejo. A pulsão de morte não traz na sua força apenas o poder de destruição, mas também constitui-se numa força criadora e não conservadora, impondo novos começos ao invés de reproduzir o mesmo. Sendo a verdadeira morte a do desejo, da diferença, que, em verdade, provém da ação de Eros, na sua busca incessante da unificação, da indiferenciação.



No primeiro livro de "Vontade de potência", filosofando sobre o niilismo nos diz Nietzsche: "O bem da totalidade exige o abandono do indivíduo" [ ...] Ora, não existe semelhante totalidade! [...]" (10) No primeiro capítulo do livro quarto, ao falar sobre "o eterno retorno" ele diz: "Meios de suportá-lo: transmutação de todos os valores. Não mais o prazer causado pela certeza, mas pela incerteza; não mais a "causa" e o "efeito", mas a criação contínua; não mais a vontade de conservação, mas a vontade de potência; não mais a expressão humilde "tudo é subjetivo --- mas "é também a nossa obra! Sejamos dela orgulhosos" (11) ( N. p. ) Acrescentando adiante: " A força, o repouso, o permanecer igual a si mesmo, contradizem-se entre si... A medida de força ( como quantidade) é fixa, sua essência é fluida [...] A força não pode se deter [...] A teoria da constância da energia exige o "Eterno Retorno".(12) ( N. p. ...)



Temos aí o movimento pulsional semi-descrito. A chave para a ação e a paixão é a oposição, as coisas idênticas não podem atuar umas sobre as outras.



Vejam os senhores que não foi um mero descuido meu deixar que Nietzsche falasse lá da estante, lugar onde tentei deixá-lo por alguns minutos. Mas como eu começaria a falar sobre pulsão, movimento, potência, sem considerá-lo?



Bem, podem ficar tranquilos porque agora eu fiz um acerto com Nietzsche: ele ficará calado por um tempo para que eu possa tentar algumas articulações psicanalíticas, pois o meu tempo nessa Reunião já está acabando. É a descontinuidade... seria terrível se tudo fosse um permanente contínuo, um bloco uniforme. Como aquele braço baioneta esquecido de flexibilizar, de produzir movimento. Ou como o pênis insistentemente ereto de um outro paciente melancólico que não sabia que direção dar àquilo, não via sentido em penetrar o corpo de uma mulher; por mais que alguma tentasse seduzí-lo seu corpo não se movimentava, Não havia desejo para movimentá-lo, sentia-se ôco e tudo ôco de sentido. Ao seu pênis não faltava reção, mas seu corpo não se movimentava em direção ao outro; não se erigia, não se expandia, permanecia ôco e parado frente ao chamado sexual.



Já o paciente do qual falei inicialmente, passava as noites insone, angustiado e tenso, enquanto a sua mulher dormia numa cama distante da dele para não ser incomodada com a luz que ele deixava acesa. Quando recém casados ele trabalhava pela madrugada a dentro para ficar rico. Se ele não pensa numa separação conjugal, com ela faz um par para quê? Para não usufruir da sexualidade com ela e ter , certamente, uma boa desculpa para as mulheres que o abordam. Paixão mesmo só sentiu por aquela atriz que curiosamente encarnava uma personagem sua. Ao se ver excluído e desesperadamente só, prometeu a si mesmo que não se apaixonaria nunca mais. Deixar-se afetar tanto assim pelo outro, nunca mais!



Para estar imune aos riscos de ser excluído, de defrontar-se com a verdade de que na paixão e no sexo não se faz Um, buscou a segurança de uma vida amorosa sem maiores interesses, sem avidez, absolutamente monótona, como uma jibóia digerindo sua presa. Uma linha reta, sem oscilação, sem acaso, sem maiores incertezas. Tenta se escorar num amor predominantemente fraterno que só imagina ameaçado pela morte. Sentir-se afetado, com seu lado objeto às escâncaras, nunca mais.



Desculpem-me, eu fiz uma promessa a vocês mas estou sem poder cumprí-la. Nietzsche ainda insiste em falar algo sobre o amor apaixonado, ele está aqui dizendo bem baixinho: "Quem não amar com sabedoria desespera-se com o poder do amor." (13)



A pulsão é pura potência, a pulsão é vazia de forma, de sentido; não sexual, nem agressiva, mas apenas pulsão. Ela é externa ao aparato psíquico e se situa para além da linguagem e da ordem, portanto, no lugar do acaso e da dispersão.



É o outro materno quem, no começo da vida do indivíduo, dá à pulsão qualidade e sentido, quer dizer, significação e direção. Ao dar valor e sentido aos movimentos dispersos e desordenados do seu bebê, a mãe ou seu substituto o faz sentir que existe e que não lhe é indiferente. Inicia-se assim um jogo de trocas entre os lados sujeito e objeto de cada um. O que se joga e como se joga, nesse primeiro par, deixará marcas e trilhas, livres ou com impedimentos.



O devoramento do Outro/objeto pelo melancólico promove uma paralisação, ou seja, uma forma dolorosa de fazer Um. Ele encontra-se paralisado, impotente, para viver o amor apaixonado. Supõe estar livre de ser afetado pelo Outro não cedendo sua face de objeto. Assim defende-se dessa modalidade de amor que inexoravelmente leva o sujeito a sentir-se afetado na medida que introduz a diferença, a disjunção, a perda, o desejo, a incerteza...



Ao incorporar o objeto (o Outro), defende-se de: "Uma dor -- a dor de existir -- que corresponde à zerificação, a uma ausência total do Outro. Dito de outro modo, há aqui um estilhaçamento do Outro, uma separação total do Outro como tesouro de significantes ou como Outro que cuida, o Outro do amor." (14)



O melancólico traz uma outra modalidade de impotência sexual que está para além da disfunção erétil peniana. Se na relação de amor encontram-se meios de se dar a mão novamente ao desejo, ao melancólico falta a possibilidade de uma ilusão mínima que cause o desejo e permita seu corpo erigir-se e voltar-se em direção ao outro acreditando poder ser desejado e amado por ele. Em verdade, o Outro já foi tragado e encontra-se bem guardado no Eu do melancólico.



Entre outras coisas, falta ao melancólico a plasticidade para construir e sustentar ilusões. Tal dificuldade inicia-se na sua relação com um Outro materno que não consegue oferecer-se para um jogo de demandas, de significantes amorosos, de dar sentido ao sem sentido, de receber e fazer retornar significantes e demandas.



Desamparado, sem contar amorosamente com um Outro materno para lhe iniciar na vida acreditando na ilusão do amor, o melancólico tende a ficar parado, inibido, frente à verdade da castração.



Temos na música popular brasileira uma composição que chama muito minha atenção por falar de algo que falta ao melancólico para ele poder amar com sabedoria: ilusão. Certamente seria mais fácil se ele pudesse viver o que diz Mário Lago:



"Nada além, nada além de uma ilusão

Chega bem, é demais para o meu coração

Acreditando em tudo que o amor mentindo sempre diz

Eu vou vivendo assim feliz na ilusão de ser feliz

Se o amor só nos causa sofrimento e dor

É melhor, bem melhor, a ilusão do amor

Eu não quero e não peço para o meu coração

Nada além de uma linda ilusão."

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