Em busca da integração




Restaurar a imagem da deusa parece ser tarefa hercúlea, pois o patriarcado não se dispõe a partilhar seu poder. Mesmo assim, as últimas décadas assistiram a mudanças significativas. Os esforços de elevação da conscientização do movimento feminista trouxeram para frente de batalha a necessidade de igualdade entre homens e mulheres. Os atributos da mulher vêm sendo compreendidos em outros papéis que não sejam o de esposa e mãe.

Mudanças não menos significativas vêm ocorrendo no mundo interior; o aspecto separado do feminino divino vem sendo curado de dentro para fora. A cura consiste em integrar as imagens femininas antigas de tal maneira que possamos nos relacionar com elas através de nossa mitologia cultural.



Um exemplo desse fenômeno vem do inconsciente de mulher que fora, anteriormente, católica devota. A igreja lhe propiciara um modo de viver conectado com a espiritualidade, mas apenas até certo ponto. Já em sua fase adulta, ela começou a encontrar, nos ensinamentos da igreja, um sentido de esclarecimento ou de apoio para o seu senso de si própria enquanto mulher. De fato, dava-se praticamente o oposto – ela sentia estar secando, sentia que sua vida espiritual estava diminuindo.

Depois de passar por doença grave e por outros problemas pessoais, ela abandonou a igreja para buscar outras aventuras que lhe proporcionassem desenvolvimento espiritual.



A certa altura, teve muitos sonhos em que a igreja e os símbolos do cristianismo eram reduzidos a ruínas e cinzas. Ela tornou-se mais consciente da integridade de sua natureza feminina; era mais do que esposa e mãe perfeita. Mas não querendo fragmentar a sua fé, a questão agora consistia em como conciliar sua nova consciência da natureza feminina com as imagens do feminino na mitologia cristã. O processo de transformação foi apresentado num sonho:



Eu entrei numa casa antiga e muito bonita. No aposento da frente, cerca de uma dúzia de mulheres estavam sentadas em círculo. Elas celebravam algum rito religioso. Fui andando até os fundos da casa. Lá encontrei uma pequena capela. O altar havia sido preparado para a missa, mas não havia ninguém lá. Reuni-me, então, às outras mulheres e, quando entrei, trouxe ao grupo uma estátua da Virgem Maria.



O círculo de mulheres “celebrando algum rito religioso” é remanescente de antigos cultos de mulheres que mantinham vivos os mistérios femininos. Em sua busca pessoal, ela começou a apreciar esses mistérios. O ritual cristão da missa deixara de ser um fator ativo em sua vida; fora relegado aos fundos da “casa” psíquica. Mas agora ela traz uma imagem daquele lugar, uma estátua de Maria, para ser conscientemente integrada à sua recém-descoberta compreensão da natureza feminina.



Outro sonho de um padre, demonstra a tremenda dificuldade do feminino em relação aos ensinamentos ortodoxo da igreja:



O bispo e eu estamos andando por uma estrada. Há uma fazenda e um charco, e estamos atravessando uma ponte. Vemos uma enorme ave branca – maior do que uma pessoa – presa nas raízes de uma árvore. A ave nos chama, e diz que ela pode fazer grandes maravilhas e fatores. Reconheço que ela esta sofrendo e que não consegue sair dali sozinha. Tomo uma de suas asas e desembaraço-a da árvore na qual havia caído. Eu chamo o bispo e ele se ajoelha e faz uma oração; ele se debruça sobre o corpo dela, mostrando a si mesmo e a mim como sua pele e ossos estão envelhecidos. Ela fica mais calma e pede para ver os amuletos do bispo. Ele abre uma pequena bolsa e mostra-lhe três talismãs esculpidos em ossos. Um é uma cruz de osso. O outro é uma âncora quase de um formato de um coração. O terceiro não tenho muita certeza, talvez fosse um pequeno frasco com o formato do número oito.



O sonho se passa no domínio da grande mãe: solo fértil, charcos e água. Há um desvio para a terra do inconsciente. Em nível objetivo, o bispo é análogo à própria autoridade espiritual interna do padre, símbolo do Si-mesmo. A ave branca, símbolo da paz tem a ver com as imagens tanto de Afrodite quanto do Espírito Santo. É enorme, maior do que a vida, como se para enfatizar a gravidade da situação.

Quando um fator importante para a saúde psíquica é subvalorizado ou ignorado na vida consciente, suas proporções e significado serão correspondentemente ampliados no inconsciente. Vemos aqui a compensação inconsciente para a falta consciente de reverência pela natureza feminina. A árvore é fator-armadilha que impede a ave branca de ser livre.



A árvore, outro símbolo com muitos significados, é associada na psicologia do padre, com a cruz, emblema do cristianismo. Na arte cristã, a cruz é muitas vezes representada por árvore viva, aquela que morre a cada ano e ressurge para a nova vida. Na lendária Árvore da Vida, a árvore cósmica interligando céu, terra e submundo, há frequentemente um pássaro nos galhos mais altos, mas aqui a ave caiu e ficou presa nas raízes. Em outras palavras, a imagem de Afrodite, ou do aspecto feminino do Espírito Santo, está presa nas raízes da tradição cristã – da mesma forma que, quando da origem do monoteísmo, os atributos da deusa do amor eram traídos por atitudes negativas em relação à carne.

O bispo, representando tanto a autoridade espiritual interior do padre, quanto à autoridade externa da Igreja, tem em sua posse talismãs secretos, amuletos primitivos feitos de osso. São reminiscentes de amuletos de xamãs, e são frequentemente esculpidos de maneira exótica, representando o espírito auxiliar. São usados pendurados no pescoço de xamã, costurados em suas vestes ou escondidos dentro de uma trouxa. Um dos amuletos de osso do bispo é um frasco com forma do número oito. Na antiguidade, tais frascos continham os mais preciosos fluidos, perfumes ou elixires curativos. O frasco é simbólico do feminino como receptáculo.

A âncora é símbolo de Cristo, sua forma parecida com a de coração a relaciona com a função do sentimento. Também é associada à Virgem Maria: a haste da âncora, o corpo de Cristo, surge a partir de uma lâmina horizontal, em forma de lua crescente, antigo símbolo da deusa do amor.



A cruz de ossos é simbólica da morte e da ressurreição. Na visão de Ezequiel, os ossos secos voltaram à vida quando o Espírito desceu e soprou uma alma sobre eles. Ossos também são considerados sede da alma, à moldura estrutural fundamental sobre a qual tudo o mais é colocado.

Os três amuletos, então, compreendem aqueles ingredientes mágicos essenciais à vida espiritual mais profunda que o padre buscava a moldura básica para qual o espírito pode descer para inspirar a vida e a alma. O conhecimento antigo é mantido de forma subjetiva pela autoridade interna do padre e objetiva pela Igreja. O uso dessas imagens instintivas e poderosas é ainda outra questão – que o sonho não responde.



Tais imagens são ativas no inconsciente da humanidade, e de maneiras individuais estão sendo trazidas à consciência. Uma imagem feminina dinâmica e transformadora existe, de fato, em nossa tradição cristã ocidental, mas os atributos que faltam à deusa só podem ser restabelecidos para o coletivo por meio de cada um de nós, em nosso modo individual, alargando nossa percepção do feminino.

Através dos tempos, as mulheres têm sido o repositório do significado, das emoções e dos valores atribuídos à deusa do amor. Ao valorizar a natureza prazerosa, autoconfiante e sensual de sua sacerdotisa, a prostituta sagrada, tanto homens como mulheres entram em contato com alguma coisa valiosa dentro de si. As mulheres podem ser portadoras desse aspecto vital da natureza feminina para o mundo. Os homens podem mais uma vez abrir-se para o aspecto feminino dinâmico e assim facilitar as modificações que se fazem necessárias nas estruturas política, social, econômica e religiosa.



Dessa maneira a humanidade pode restaurar a consciência a força criativa e amorosa da natureza feminina, que há tanto tempo era personificada na prostituta sagrada.




 imagem alquímica do matrimônio sagrado, união dos opostos (rei e rainha, sol e lua):



Ó Lua, envolvida em meu doce abraço,

Seja tão forte quanto eu, tão linda de face.

Ó Sol, mais brilhante de todas as luzes

conhecidas pelo homem,

E ainda assim você precisa de mim, como o

Galo da galinha.



Do Rosarium philosophorum (1550).



*



Nota: Há cerca de trinta anos, o patriarcado começou a perder suas bases. O avanço tecnológico elimina a divisão sexual de tarefas. O advento dos anticoncepcionais eficazes e acessíveis desferiu o golpe definitivo nesse sistema, que tem no controle da fecundidade da mulher sua principal razão de ser e, por estar calcado na natureza biológica, sempre foi considerado universal e eterno.



Hoje, a mulher pode não só dividir o poder econômico com o homem, como ter filhos se quiser e quando quiser. Essa transformação radical se distingue do processo de evolução observado até agora. A partir daqui, não temos como avaliar as conseqüências. Estamos vivendo um processo de mutação, após milênios da única ideologia de que temos registro. Talvez tenhamos que guardar várias gerações para vê-lo concluído. Mas os sinais já começam a se esboçar.

Pressentimos a destruição de valores estabelecidos como inquestionáveis, entre eles o amor, o casamento e consequentemente a sexualidade.



A partir da relação com o mundo e com outros, de forma até agora desconhecida, podemos ser afetados por novas sensações. Uma outra sensibilidade emerge nos novos tipos de arte, música, filosofia, no momento em que se rompe com a moral que, durante tanto tempo a através de seus códigos, julgou e subjugou os desejos e o prazer das pessoas. As singularidades de cada um encontram novo campo de expressão.



Sem nos darmos conta, estamos assistindo ao fim do patriarcado e o nascimento de uma nova era.

A deusa através dos tempos


O inconsciente normalmente estabelece uma ponte sobre o vão entre as atitudes religiosas modernas e o antigo domínio da deusa.

Há correlações entre a deusa do amor e a imagem de Sofia/Sabedoria na tradição judaico-cristã. Os cânticos em que a deusa do amor e a Sabedoria descrevem a sim próprias como o ser feminino divino que reina sobre o céu e a terra e todas as coisas criadas, são notavelmente semelhantes. Os criadores dos seguintes cânticos, embora separados pelo tempo e pela distância, representam tanto a majestade quanto a influência da natureza feminina divina.



Cântico a Inana:



Ao fim do dia, a estrela Radiante, a Grande Luz que enche o céu,

A Senhora da Noite aparece nos céus.

As pessoas em todas as terras erguem seus olhos para ela...

As criaturas quadrúpedes da alta estepe,

Os jardins e pomares exuberantes, as árvores e os bambus verdes,

Os peixes das profundezas e as aves dos céus...

As criaturas vivas e o povo numeroso da Suméria ajoelham-se diante dela.



A força cósmica de Afrodite é descrita por Eurípedes em Hipólito:



Meu reino estende-se sobre todos os homens e orgulha-se do nome que eu, deusa de Chipre, carrego, tanto nas cortes dos céus quanto entre todos aqueles que habitam dentro dos limites dos mares e as fronteiras de Atlas, contemplando a luz do sol.



A invocação a Vênus, registrada por Lúcrecio, começa:



Mãe de Enéas e sua raça, deleite dos homens e deuses, geradora-de-vida Vênus, é por sua ação que sob o girar das constelações do céu toda a natureza prolifera com vida, tanto o mar que mantém à tona os nossos barcos quanto à terra que produz o nosso alimento. Através de você todas as criaturas vivas são concebidas e surgem para ver a luz do sol... Você sozinha é a força que guia o universo e sem você nada emerge para o brilhante mundo iluminado pelo sol para crescer em alegria e encanto.



O reino, o poder e as qualidades de geradora-de-vida também são compartilhadas por Sofia/Sabedoria. Em Eclesiástico 24,3-18, a Sabedoria diz de si mesma.



Eu saí da boca do Altíssimo,

E como uma névoa cobri toda a terra.

Eu habitei nos lugares mais altos,

E o meu trono é sobre uma coluna de nuvem.

Eu só fiz todo o giro do céu,

E penetrei a profundidade do abismo.

Andei sobre as ondas do mar,

E percorri toda a terra; e em todos os povos, e entre

todas as nações tive primazia...

Elevei-me como o cedro do Líbano,

E como ciprestes do monte Sião...

Difundi um perfume como o cinamomo e o bálsamo

aromático,

E como mirra escolhida exalei suave perfume.

Como a vide lancei flores de agradável odor

E as minhas flores dão frutos de honra e de honestidade

Eu sou a mãe do amor formoso,

E do temor e da ciência, e da santa esperança:

Portanto, sendo eu eterna, sou dada a todos os meus

Filhos que foram escolhidos por ele.



O domínio majestoso da Sabedoria não conhece fronteiras, tal com a deusa. Como foi visto nos primeiros capítulos, ela é associada a fragrâncias de aroma doce, os perfumes da natureza usados pela deusa. Ampliando a descrição que a própria Sabedoria faz de si própria, Jung escreve:



Como Ruach, o espírito de Deus, ela pairou sobre as águas do começo. Como Deus, ela possui o seu trono no céu... Ela é o numem feminino... Um reflexo de Istar... A confirmação disso se dá por meio da comparação pormenorizada da Sabedoria com árvores, tais como cedro, a palmeira, o terebinto (“árvore da terebentina”), da oliveira, do cipreste etc.

Todas essas árvores têm sido desde os tempos antigos, símbolos da deusa semítica do amor e deusa-mãe. Uma árvore santa sempre permaneceu ao lado de seu altar em lugares altos... Como o Espírito Santo, a Sabedoria é dada como dádiva ao eleito...



...Ela é enviada do céu e do trono da glória como um “Espírito Santo”. Como uma psicopompa ela leva o caminho a Deus e garante imortalidade.

Sua coexistência com Jeová significa o hieros gamos perpétuo do qual os mundos são concebidos e nascem.



Não importa que nome venha a ter, a deusa do amor é relacionada à terra, ao corpo, à paixão, à sexualidade e à fertilidade. Ela é à força do amor propulsora, transformadora e mística que une um elemento humano ao divino. As imagens da deusa divina que personifica os aspectos risonho, radiante, independente e sensual da natureza feminina existe desde que há registros históricos. E pode continuar a existir em nosso tempo se permitirmos que a sua imagem seja restabelecida e que tome o seu lugar de direito na compreensão consciente.

Manto Azul





A Virgem Maria e a Nossa Senhora Negra

A outra metade de díptico cristão retrata a Virgem Mãe. Ela é a idealização da feminilidade, pessoa de absoluta pureza sobre a qual não há sombra de pecado. Era também humana, mas mais do que humana, uma vez que a tradição cristã decreta a assunção de seu corpo ao céu. Será que ela, como Maria madalena, possui precedentes arquetípicos? Será que há, por trás de sua imagem tradicionalmente aceita, retrato mais completo da plenitude e fertilidade vibrantes de sua natureza feminina?



Quando revemos os atributos da deusa, desde a primitiva civilização sumérica, até as civilizações altamente artísticas da Grécia e de Roma, descobrimos que as características em comum que elas possuem são beleza física, virgindade, associação com a lua e a morte trágica, ou o sacrifício deliberado, do filho-amante.



Com isso em mente, consideremos a imagem de Maria, mãe de Jesus. Ela é cultuada como a Virgem Maria. Na verdade, é a sua virgindade (o estado de castidade, e não o sentido original da palavra) que a separa das outras mulheres. Maria é também associada ao cosmos, costumando ser chamada Rainha do Céu. Para evidenciar sua beleza celestial, ela é frequentemente representada entronizada sobre a lua. Sua primeira associação é com o filho, que é sacrificado; o papel de Maria como esposa é insignificante.



Apesar desses paralelos com a imagem da deusa, Maria é convencionalmente associada apenas com o aspecto maternal do feminino – estático e protetor. O aspecto dinâmico e transformador, relacionado à paixão, à sexualidade e a fertilidade da deusa do amor, é visivelmente negligenciado.

Entretanto, há outras correlações entre Maria e as antigas deusas ctônicas as quais, embora não se trate de fato comumente conhecido, têm papel atuante na consciência coletiva. Num pequeno número de catredais espalhadas pela Europa, tanto em lugares populares como em locais isolados, uma Nossa Senhora negra é venerada. Não se trata da Nossa Senhora Angélica, mais familiar, em seu manto azul, mas de Nossa Senhora tão negra quanto à própria terra. Ela pertence ao mundo de baixo, não ao domínio celeste.



De tempos pré-históricos, em torno de trinta mil anos antes da era cristã, provém a Vênus Negra de Lespugue, entalhada numa presa de mamute, agora preservada no Musée de I’Homme, em Paris. Por ser anterior a uma época em que não existia conhecimento algum de agricultura, ela é mais do que terra, ela é a própria vida. Outras imagens femininas negras, simbólicas da força de vida ctônica, foram cultuadas através dos tempos.

Em Tindari, na costa do Mediterrâneo no leste da Sicília, uma estátua negra de Nossa Senhora possui a inscrição: nigra sum sed formosa – “Sou negra, porém formosa” – do Cântico de Salomão 1,5. Eruditos cristãos interpretam essa passagem como referência a uma noiva, a Virgem Maria como Ecclesia, unindo-se em matrimônio com o noivo, seu filho Cristo. Tal passagem parece ser encontrada no rito do matrimônio sagrado de Istar e Tamuz, pois há muitos paralelos entre as antigas tabuinhas cuneiformes e esse texto do Antigo Testamento. Não poderia essa “negra e formosa” Nossa Senhora ser produto da bem mais antiga imagem da deusa?



Foi a Nossa Senhora negra de Montserrat que inspirou Goethe e escrever as linhas de encerramento de Fausto, onde Maria aparece e salva o Dr. Fausto. “A eternamente feminina eleva-nos a si mesma.” Essa frase fala da mulher eterna; “não se trata do elemento divino na mulher, mas do divino como mulher”. Comentários de eruditos sobre o trabalho de Goethe reconhecem a influência da Nossa Senhora de Montserrat, embora não mencione que ela seja negra.



Quando as mulheres se adaptaram aos dogmas religiosos do patriarcado, elas também aceitaram a imagem da anima do homem como um reflexo preciso da natureza feminina. Assim sendo, elas perderam a conexão com o feminino genuíno, inclusive com os aspectos ctônicos representados pela Nossa Senhora negra.

Muitas Nossas Senhoras negras são normalmente valorizadas como símbolos religiosos, mas muito mais numerosas são as imagens de Nossas Senhoras convencionais “azuis”. Essas, enquanto anima, inspiram os homens a construírem catedrais magníficas e a criar belos trabalhos de arte, mas falta a elas uma dimensão crucial da natureza feminina.



A Nossa Senhora negra associada tanto com a terra como com a fertilidade, é imagem do feminino divino que reflete uma ligação antiga entre a natureza da mulher e a deusa do amor. Através dela, a Grande Deusa vive no cristianismo.



                                                                   Maria Madalena



Mariana Warner, em seu estudo sobre a Virgem Maria, afirma:


Juntas, a Virgem Maria e Madalena formam um díptico da idéia de mulher do patriarcado cristão. Não há lugar na arquitetura conceitual da sociedade cristã para a mulher que não seja nem solteira nem prostituta.


Dentro dessa visão convencional, maternidade e sexualidade estão divididas. Além do mais, presume-se que Maria Madalena, o lado sexual de díptico, se tenha arrependido de seus atos impuros.


Madalena, como Eva, deve sua existência à poderosa contracorrente da misoginia no Cristianismo, que associa mulheres com perigos e degradação da carne. Por essa razão, ela se tornou santa proeminente e querida.


Ela oferecia esperança aos mortais que não conseguiam atingir o estado de perfeição da Virgem e que procuravam perdão para seus pecados.


Maria Madalena continuou sendo figura proeminente na tradição cristã, também por razão psicológica. A dimensão arquetípica da natureza feminina erótica elege uma figura para ser portadora de sua projeção. A questão é que os seres humanos, em sua busca espiritual, têm que encontrar uma imagem do feminino que tenha relação com os aspectos eróticos da deusa. Mas a representação da sexualidade pelo pai cristão manipulou a imagem de maneira que Maria Madalena fosse vista como penitente, renunciando à sua sexualidade.

Diferentemente do homem antigo, cujo amor pelo erótico não era considerado incompatível com a espiritualidade, esses líderes cristãos negaram exatamente o necessário para a renovação da vida – o aspecto dinâmico, transformador e feminino da psique.



A figura de Maria Madalena permanece fortemente velada (e obscurecida) por crenças cristãs convencionais, mas, se olharmos para trás do anteparo da ortodoxia, talvez possamos encontrar lá alguns aspectos dinâmicos da natureza feminina e restaurá-los a uma posição justa e apropriada em nossa própria mitologia. Warner escreve:



Exame minucioso dos Evangelhos recusa-se a conceder a Maria Madalena uma identidade, e desafia o pressuposto tradicional de que a mulher de grande beleza e capacidade de amar, verdadeiramente uma prostituta que se arrependeu de sua vida de pecado depois de conhecer Jesus Cristo, aprendendo então a amá-lo.



Há, de fato, certa confusão a respeito de se houve três Marias separadas – Maria de Betânia, irmã de Lázaro; Maria Madalena, a quem Cristo ressuscitado apareceu; e “a pecadora” – ou apenas uma. A igreja grega celebra suas festas em três dias separados, mas a Igreja ocidental combina-as em entidade única, Maria madalena, com apenas um dia festivo (22 de julho).



A questão permanece: quem é Madalena e por que a sua imagem, embora importante, é tão incerta e indefinida?



A incerteza existe em parte porque a imagem foi alterada. Ela ficou presa entre as incongruências da interjeição moral cristã e a imagem arquetípica da natureza feminina erótica. Paradoxalmente, parece haver vínculo entre as forças opostas da imagem de Maria Madalena.



Nos Evangelhos Gnóticos, ela é mulher capaz, ativa e amorosa, com habilidades para conhecer e falar “o Todo” – o que talvez seja uma referência a mais alta Sabedoria, certa compreensão que o coração recebe e contém. Maria Madalena possuía a habilidade de saber de coisas inexplicáveis, como em sua visão de Cristo. Ela não questionava esse seu lado, como faziam os outros. Ela confiava em sua fonte mais íntima. Ela conseguia ver o emissário divino e transmitir sua mensagem aos humanos. Como a prostituta sagrada, ela era mediadora entre o mundo do divino e o mundo dos humanos.



Há mitos que representam à capacidade de Maria Madalena de operar milagres. Diz-se de quando ela viu e falou a Cristo ressuscitado, pois se crê que ela foi a primeira a vê-lo. Ela saiu correndo para contar aos outros discípulos. No caminho, encontrou Pôncio Pilatos, e falou-lhe sobre a maravilhosa novidade. “Prove-o”, disse Pilatos. Naquele momento, passava uma mulher carreando uma cesta de ovos, e Maria Madalena tomou um nas mãos. Quando o ergueu diante de Pilatos, o ovo adquiriu cor vermelho-vivo. Como testemunho desse feito lendário, na catedral em Jerusalém que porta seu nome há uma estátua de Maria Madalena segurando um ovo colorido.



O ovo é muito apropriado nesse contexto, uma vez que é simbólico da nova vida e da capacidade de dar à luz. O ovo colorido é também associado à Astarte, deusa da primavera, de cujo nome nosso termo “Páscoa” é derivado. Ovos coloridos são usados em celebrações da primavera em honra à deusa, como o são hoje em dia na Páscoa.





Outro mito, proveniente da tradição cristã é aclamado na sexta estação da cruz, fala de mulher que limpou o rosto de Jesus cheio de poeira, suor e lágrimas, quando ele passava a caminho do Calvário. A face de Cristo ficou estampada no pano. Através dos tempos e da tradição, a mulher foi chamada de Verônica, mas este é um nome a que se refere ao fato, “Verônica” é combinação de “verdadeira” (Vera, em latim) e “imagem” (icona). Isso conduzia a especulação sobre se havia verdadeiramente uma mulher chamada Verônica, ou se essa mulher poderia ser Maria Madalena.

Ninguém podia dizer com certeza. Mas o mais importante é o significado psicológico do mito, ou seja, que a natureza feminina ativa encerra a imagem do divino. Como elemento complementador, é a natureza feminina que leva a pessoa ao Si-mesmo.



Outra faceta de uma reconsiderada Maria Madalena vem dos compositores Tim Rice e andrew Webber, na ópera rock Jesus Chist Superstar. Aqui ela é retratada como prostituta profana que se apaixonou pelo homem de Jesus, não pelo Salvador, e por meio de seu amor foi transformada. Ela é representada como que reconforta e acalma o seu amante. A letra da canção sugere que ela era bem parecida com a prostituta sagrada (“O ungüento é doce para o fogo em sua cabeça e em seus pés... fecha os olhos e relaxa”).



Eu não sei como amá-lo,

O que fazer, como tocá-lo,

Eu fui transformada, sim, realmente transformada.

Nos últimos dias, quando olhei para mim mesma,

Senti-me como se fosse outra pessoa.



Maria Madalena, então, a partir de ponto de vista não restrito a atitudes patriarcais, é figura feminina com quem as mulheres podem se relacionar sem trair sua natureza essencial. Sua imagem, como da prostituta sagrada, é capaz de encerrar todos os aspectos dinâmicos e transformadores do feminino – paixão, espiritualidade e prazer.

Filme:
Vídeo do Filme:

 Maria Madalena, se não puder assistir aqui, veja no Youtube:

                                      
                               

Ana: uma mulher casada


Ana: uma mulher casada



Muitas mulheres realizam-se no casamento e tornam-se cientes de sua natureza feminina através das circunstâncias variadas envolvidas na vida familiar. Há muitas outras, no entanto, com quem as coisas não se dão assim.



A mulher que se identifica com o papel da persona de esposa ou mãe, ou que se torna psicologicamente dependente do seu marido, nunca chega a conhecer as plenas possibilidades dinâmicas do feminino. Sendo o aspecto da mãe-esposa tão dominante em sua vida, sua própria virgindade psicológica não pode ser realizada. Ainda que ela tenha todo o conforto material, há uma necessidade não atendida que chora dentro dela. A mulher descrita como tendo uma “corrente de lágrimas” em volta de seu coração sentia tal necessidade como um som abafado e como lágrimas em seu rosto, geralmente durante o intercurso sexual.



É fácil culpar o parceiro por esse mal-estar, mas abandonar o relacionamento não é, necessariamente, a resposta. Antes de dar esse passo drástico, a mulher deve procurar ter a sabedoria de fazer tudo o que ela puder para estabelecer boa relação com a deusa. Dar ao lado ativo – erótico e prazeiroso – a mesma expressão que ao lado estável e conservador de mãe-esposa pode ter efeito dramático sobre a qualidade de sua vida de casada.

Ana tinha pouco mais de quarenta e cinco anos, casada e mãe de dois filhos adolescentes. Levava também vida profissional que a realizava. Apesar de tudo, estava deprimida e vivia um vazio desconcertante. Retornar aos estudos e dedicar seu interesse a causas sociais oferecia-lhe apenas alívio temporário. Ela estava a ponto de desistir de seu segundo casamento quando começou a fazer análise. Buscava implacavelmente o amor de um homem, não o amor de mãe do tipo de amor que compartilhava com seus colegas profissionais.



Em sua maior parte, a história psicológica de Ana parecia saudável. Mesmo assim, várias circunstâncias haviam inibido o desenvolvimento do aspecto dinâmico de sua natureza feminina. Fora criança adotada e, quando já adulta, pensava muito em seus pais biológicos e na razão pela qual não a criaram. Apesar de seus pais adotivos lhe darem muito amor e segurança, permanecia nela a sensação profundamente arraigada de rejeição. (Esse trauma também pode ocorrer em crianças não adotadas).

Seu pai adotivo morrera no princípio de sua adolescência. Ela se lembrava dele como pessoa amorosa e afável, ativa e espirituosa. Após sua morte, ela se tornou a filha dócil e condescendente, de modo a não criar mais problemas para a mãe. No colégio, quando cursava o segundo grau, sua segunda experiência sexual dera em gravidez, e ela, em segredo, teve aborto, completamente sozinha. Sua vergonha e culpa ficaram enterradas sob a compulsão de não fazer nada a não ser estudar. Ela não teve mais namorados até conhecer aquele com quem viria a se casar, quase um ano depois do aborto.

Aos quarenta e três anos Ana teve que se submeter a uma mastectomia, devido a câncer, a mesma doença que levara sua mãe adotiva à morte um ano antes. Alguns anos mais tarde, ela também teve histerectomia, por motivos médicos não relacionados com a cirurgia no seio. Seus órgãos femininos doentes simbolicamente apontavam o mal-estar que permeava sua vida psicológica.




No primeiro encontro com Ana, vi uma mulher charmosa, com sorriso estampado no rosto, aparentemente muito capaz. Entretanto, logo ficou evidente que se tratava simplesmente de persona bem desenvolvida. Ela guardava seus sentimentos mais profundos tão bem que nem ela mesma conseguia encontra-los. Seus traumas iniciais continuavam como feridas abertas, embora estivessem cercados por muros. A sensação de abandono decorrente de sua adoção, a morte do pai e o aborto, tudo contribui para que ela erguesse esse muro. Ele fora útil, em certa época, pois enquanto menina e mocinha, ela tivera que prevenir-se contra a dor psicológica que a destruição de seu ego em desenvolvimento produzia; construiu forte defesa e desenvolveu grande habilidade de lutar.



Um sonho, no começo da análise, revelou a situação psicológica de Ana:



Uma cobra comprida e preta fugiu de sua gaiola e está solta. Ela entra numa caverna. Há um gato na caverna e ele fica com medo da cobra, mas não pode sair da caverna porque a cobra impede-lha a passagem. O gato mia para a cobra.



A cobra comporta numerosos significados simbólicos, e aqui pode ser interpretada de diversas maneiras. Pode ser vista como o falo desencarnado do homem que engravidou o feminino não desenvolvido, representado pelo gato. A natureza feminina de Ana, na época de sua primeira gravidez, ainda estava psicologicamente imatura, e o trauma do aborto, a que ela se submeteu a nível físico, e ainda psicologicamente reprimido, fixou sua verdadeira natureza feminina no útero, a caverna.

Ou então, a cobra pode ser interpretada como o poder masculino do pai. O pai positivo para a filha, em especial durante a adolescência, lha dá apoio à medida que ela vai se tornando consciente de sua natureza feminina dinâmica. Ela ampara e fortalece esse aspecto, contribuindo para que a mulher seja capaz de lavá-lo ao mundo dos relacionamentos. A mãe é modelo para os vários aspectos do feminino, enquanto a influência do pai serve como instrumento para torná-los mais conscientes. O pai de Ana dissera-lhe que ela era pessoa bonita e adorável, e sua natureza feminina que desabrochava cresceu com consciência desse aspecto. Mas a morte dele acabou esse desenvolvimento, e, como acontece com freqüência em tais situações, ele tornou-se super-homem na memória dela; segundo a frase de Harding, ele se tornou um “amante fantasma”, e nenhum homem real conseguia afrouxar essa ligação psicológica.



A cobra também é associada à Grande Mãe (veja a seguir) [Deusa cobra. Terracota, de kwossos, Creta. Período Minóico III Médio; Museu britânico.], representando mulher forte e de seios nus, com braços firmemente esticados para fora, segurando uma cobra em cada mão. A partir desse ponto de vista, o sonho mostra o aspecto maternal do feminino – conservador, estável e seguro – retendo o feminino dinâmico em caverna-útero. Na verdade, apaziguar o maternal, ser boa filha, com tudo o que isso implica em termos de expressão sexual restrita, foi o modo de vida ao qual Ana adaptou-se em seus anos de adolescência. Mais tarde, como adulta, continuou sendo uma menininha obediente e, como princesa-virgem, esperava ser salva por herói. O casamento foi apenas outro papel adaptativo, no qual ela continuava a reprimir seu lado feminino dinâmico.



No todo, o sonho representa situação psicológica onde o feminino dinâmico, associado com sexualidade e amor, está cativo no inconsciente. O desejo profundo de Ana por relacionamento maduro não podia realizar-se, porque a natureza feminina dinâmica nunca fora completamente desenvolvida ou compreendida. Mais positivamente, o sonho também mostrava a possibilidade de mudanças. A cobra está fora da gaiola (suas defesas se afrouxaram); o gato, símbolo do feminino, está encurralado, mas pronto para lutar. Agora a mulher tem a oportunidade de se tornar consciente das emoções que ela reprimia durante sua vida.



Durante a análise, Ana teve dois sonhos relacionados com banheiros, nos quais tinha que limpar a sujeira; em outros sonhos, manifestava inclinação por pequenos animais ou crianças machucadas. Depois de boa dose de trabalho sobre si mesma, sonhou com uma linda jovem, imagem de sua prostituta sagrada interna:



Estou deitada na grama com uma moça de uns vinte e poucos anos.

Seu cabelo é escuro e comprido, suas roupas, soltas e esvoaçantes, seu rosto é gracioso e natural (sem maquiagem). Estamos deitadas bem próximas, beijando-nos. Sensações ardentes e eróticas percorrem-me o corpo – juntamente com a sensação de grande bem-estar e de gostar muito dela.



Alguns meses mais tarde, através da imaginação ativa, Ana encontra seu animus estranho:





Estou sentada na clareira de uma floresta perto de pequeno lago que alimenta um riacho. Na extremidade da floresta há uma pequena capela de madeira. A porta está aberta. (Num exercício de imaginação ativa interior, eu tentava aproximar-me da capela e entrar, mas não conseguira, devido a uma barreira invisível que circulava a capela.) Estou sentada num tronco olhando para a capela, tentando decidir o que fazer em seguida. Então um homem puxando um cavalo vem saindo da floresta. Ele vem de longa viagem e parece cansado e triste. Sinto que o conheço de algum lugar, mas não me lembro de onde. Ele tem mais ou menos a mesma idade que eu, olhos azuis e sua barba e seu cabelo encaracolados são castanhos avermelhados, com fios grisalhos.



Ele senta-se sobre o tronco e começa a falar.

Ele: Até que enfim a encontrei. Venho tentando chamar a sua atenção há muito tempo.

Eu: Quem é você? Já nos conhecemos antes?

Ele: Muitas vezes. Eu sou aquele que você vem buscando o verdadeiro amor. Você tem-me visto em muitos homens, e confunde-me com eles. Você estava procurando nos lugares errados... Eu venho trazer-lhe plenitude de vida.

Eu: Então porque sinto vontade de fugir de você, de resistir a você?

Ele: Quando você não me vê, você não precisa lutar com sua própria criatividade e sua própria força.

Eu: Não acredito ser criativa e poderosa. Mas, diga-me, porque não consigo entrar na capela?

Ele: Ela está enfeitiçada... Ninguém entra lá há muitos anos. Há uma sacerdotisa presa numa armadinha lá dentro e não consegue sair.

Eu: Não há nada que possamos fazer?

Ele: Eis porque estamos aqui. Mas primeiro precisamos ir pescar. Depois vamos comer o peixe e refrescar-nos um pouco.





O feminino dinâmico, imaginado no sonho anterior de Ana como gato preso na caverna-útero maternal, aparece agora como sacerdotisa presa na capela. Esse desenvolvimento da imagem, de animal para humano, é conquista considerável. Embora a sacerdotisa ainda não esteja acessível à compreensão consciente, o animus estranho sai da floresta (o inconsciente) para tornar conhecida a sua presença e a aflição dela. Ele tem que ensinar Ana a pescar e a comer peixe.



O peixe, como a cobra, é antigo símbolo com muitos significados. Na literatura rabínica, é símbolo do Messias que vai agarrar o Leviatã e alimentá-lo para o Bendito no Paraíso. É símbolo do Salvador na tradição cristã. O peixe também pertende à deusa Astarte, que deu à luz Ichthys (termo grego para peixe), e Istar, em cuja casa havia o símbolo de um peixe, indicativo de fertilidade. Psicologicamente, escreve Jung, “o peixe significa um conteúdo autônomo do inconsciente”. Mais especificamente, ele “ocasionalmente significa a criança que ainda não nasceu, porque a criança antes de seu nascimento vive na água como peixe... O peixe é, portanto, símbolo de renovação e renascimento”.

A tarefa de Ana, então, consiste em incorporar o significado dessa poderosa imagem arquetípica, em integrá-la à consciência. Isso é necessário a fim de quebrar o feitiço da capela e libertar a sacerdotisa - a prostituta sagrada – símbolo do seu lado feminino dinâmico.





O estranho no portão



No exemplo acima, de uma mulher em sua viagem de individuação, o processo foi relacionado a eventos psíquicos internos. Mas ele não se dá apenas aí. Só se chega a discernir a natureza feminina instintiva, a prostituta sagrada encarnada no corpo feminino, através da ligação íntima com os outros. Como escreve Esther Harding, “ a espiritualidade da mulher deve ser destilada a partir da experiência concreta: não pode ser obtida diretamente”.

O animus interno estranho pode facilitar a conscientização, pela mulher, de sua sexualidade, mas requer um homem de verdade para concretizar a experiência do amor.





Os olhos do estranho penetram o ser interior da mulher; sua própria presença desperta a prostituta sagrada adormecida e a sensual natureza feminina lá contida. Ela pode se esconder atrás de padrões convencionais, negando sua relação inata e de direito com a deusa do amor, mas tal anteparo apenas retarda ou aborta seu desenvolvimento psíquico. Erich Neumann escreve: “A lua volta-se para o ego e ou se revela, ou vai-se embora e some na escuridão”.

O estranho surge como emissário do divino, a deusa da lua; se ele não é bem-vindo, a deusa também é desconhecida, e volta seu lado escuro para a mulher. A conseqüência é que a mulher permanece desligada de sua espiritualidade que viria conter e realçar sua natureza sexual.



Muitas vezes o homem humano que aparece é, literalmente, estranho. Não há romance ou intenção aberta de sua parte de salvá-la de sua existência vazia. E não há promessas de relacionamento duradouro. Tal encontro não pode ser planejado, pois isto seria tramar, tentando manipular o destino. A mulher aguarda ativamente receptiva, até que um dia o homem esteja simplesmente lá e que ela fique honestamente surpresa.

Existência desse tipo ocorreu na vida de Lisa. Ela era mulher de pouco mais de quarenta anos, bem formada e com carreira produtiva. Tivera muitos romances, fora casada por vários anos e estava agora vivendo com um homem, num relacionamento bastante conturbado. Ela tinha a atenção de muitos homens, uma vez que era espirituosa divertida e compassiva. Sabia instintivamente como relacionar-se com homens, o que era o seu triunfo, mas também sua maldição. Ela era a típica “mulher-anima” que inconscientemente intui e se torna a imagem ideal do homem, em detrimento de si própria.

Lisa estava profundamente insatisfeita, pois em seus relacionamentos ela sentia que seu ser mais interior nunca fora visto, nunca fora amado. A despeito de sua independência, de sua experiência de vida, de sua capacidade, ela ainda esperava pela chegada do seu herói, não para tomar conta dela, mas para amá-la.



Certa noite, depois de um dia de trabalho atarefado em outra cidade, ela arrumou-se para um jantar especial num restaurante caro. Lá encontrou “o estranho”, um homem estrangeiro que estaria voltando para seu país de origem no dia seguinte. Durante o curto espaço de tempo em que estiveram juntos Lisa conseguiu sentir a prostituta sagrada, o aspecto dinâmico de si mesma que honrava a deusa do amor. A beleza ressoante dessa mulher interna foi bastante valorizada e bem recebida pelo estranho.



Eis o que Lisa escreveu sobre sua experiência:



Eu estava um pouco alarmada com o que estava acontecendo comigo. Não estava descontrolada, mas o meu controle não estava como eu sempre conhecera, como se houvesse algo mais intervindo. Havia certo medo, e falei com ele a esse respeito... Ele falou do medo existencial como se conhecesse os meus pensamentos mais íntimos. Lembro-me da libertação que senti fazendo amor. Libertação não é a única maneira de explicá-lo. Era uma libertação maravilhosa! Debaixo do chuveiro, no dia seguinte, sentia felicidade, abraçava meu corpo, meu bonito corpo. Ria e cantava com sensação de recém-descoberta de energia e contentamento. Não havia sensação de vergonha ou culpa como sempre pensara que poderia haver, mas, ao contrário, a antecipação de volta para casa, para o homem com quem compartilha minha vida.



A libertação que Lisa sentiu deveu-se ao afrouxamento da ligação inconsciente com o aspecto da virgindade, algo bem parecido com a experiência de uma iniciada no templo do amor. Ela se libertava da culpa e da dependência inapropriada, libertava-se da compulsão de agir de determinada maneira de modo a ganhar ou manter atenção do homem.

O verdadeiro ser de Lisa tornou-se vivo quando uma prostituta sagrada foi constelada pelo estranho. Ela permitiu que seu corpo respondesse naturalmente ao chamado do amor, em vez de refugiar-se em sua cabeça para encontrar a resposta apropriada ou inteligente. Ela honrou a essência espiritual do Si-mesmo. Fazendo isso, ela conseguiu conhecer a beleza de seu corpo e de sua sexualidade, numa conexão autêntica com a deusa. O espírito despertou para a vida no corpo, e a mulher interna de lisa tornou-se uma plena participante de sua vida.

*

A mulher que aceita sua feminilidade física e psicológica vive em harmonia com a prostituta sagrada que vive dentro dela. Ela serve à deusa do amor, atendendo ao fogo sagrado de seus sentimentos internos. Trata-se do calor central de seu ser, e é preciso tomar cuidado para que ele não se incendeie ou se extinga. Só através do serviço prestado por livre escolha à deusa ela se liberta do jugo da servidão a muitos senhores, o que lhe dá capacidade de sacrificar exigências do ego – a necessidade de dominar, de possuir, de encontrar segurança na devoção de um homem. O ego então passa a admitir autoridade mais alta, o Si-mesmo.

As mulheres que têm consciência do seu verdadeiros ser feminino ouvem a sabedoria do coração; não permitem que essa sabedoria seja contaminada por normas ou ideais coletivos. Tal sabedoria (tanto em homens com em mulheres) reside no corpo e está relacionada com o princípio de Eros. Por meio dela as mulheres alcançam à compreensão de sua verdadeira natureza instintiva quando esta se une ao espírito, o homem estranho, no ritual do matrimônio sagrado.


O desenvolvimento da anima na meia-idade




Descontentamento, tédio e falta de entusiasmo generalizado são sintomas comuns de problemas na anima, particularmente na segunda metade da vida. Se o homem vive o feminino apenas como maternal – e, sendo assim, como algo a ser fertilizado ou temido – pode a influência transformativa da prostituta sagrada ser realizada? A monotonia interminável de relacionamento confortável e previsível é frequentemente, a Cilas e Caribes que provocam a busca interior da anima e do seu desenvolvimento.



Era o caso de João, homem de uns quarenta e poucos anos. Ele falava de profunda insatisfação com sua vida; faltavam-lhe energia e interesse tanto em casa quanto no trabalho. Era trabalhador extremamente dedicado, mas não via os frutos de seus esforços, e encontrava-se muito pessimista por causa de reveres freqüente. Esse pessimismo refletia-se também em seu casamento de dezoito anos, pois tinha a sensação de que tudo o que fizera até então não tinha valor algum. Costumava sentir uma resignação mórbida por seu “destino infeliz”, ainda que, ocasionalmente, demonstrasse uma nesga de esperança de que sua vida pudesse ser diferente.



Como sua analista, eu inicialmente senti João como pessoa rígida e obstinada, apegada a valores antigos de maneira inflexível. Ele tinha necessidade crescente do álcool, o que, em várias ocasiões, terminou em embebedamento. Isso, por sua vez, transformava-se em culpa, remorsos e depressão. Tais sintomas estão descritos por Jung como indicativo da necessidade de se estabelecer contato com a anima.



Depois da metade da vida... A perda da anima significa diminuição da vitalidade, da flexibilidade e da delicadeza humana. O resultado, via de regra, é rigidez prematura, aspereza, estereotipia, unilateralidade fanática, obstinação, pendatismo, ou então resignação, fastio, desleixo, irresponsabilidade e, finalmente, remollissment [letargia] infantil com propensão ao álcool. Após a meia-idade, porém, a conexão com a esfera arquetípica da experiência deve se possível, ser restabelecida.



Jung apontou para a semelhança entre conceito de “perda da alma” entre os primitivos e aquilo que acontece com o homem que perde o contato com a sua anima.



A perda da alma equivale à perda dilacerante de parte da própria natureza; é a desaparição e a emancipação de complexo que, daí por diante, torna-se usurpador tirânico da consciência, oprimindo o homem como um todo. Atira o homem para fora de seu percurso e o induz as ações cuja unilateralidade cega inevitavelmente conduz à autodestruição.



Era isso que se passava com João, pois no caso dele havia ego masculino muito forte e desenvolvimento consciente considerável, mas havia pouco reconhecimento da base feminina terrena e irracional do inconsciente.

Logo no princípio do processo analítico, a anima começou a insinuar-se, como no seguinte sonho:



Estou numa fazenda, num pasto, e decidi levar uma arma e caçar. Havia algumas construções que lembravam escolas. Minha mulher estava lá, mas todos os outros homens eram muito convencionais, do tipo beatos. Eu carregava uma garrafinha de uísque na mão, mas, para sentir-me mais à vontade, coloquei-a no bolso. Havia um celeiro redondo. Diriji-me para lá, mas ele ficava abaixo do nível do solo. Lá estava uma menina chamada Lola. Era prostituta. Eu quis fazer amor com ela, mas quando comecei ela disse: “Não, não faça isso”; eu sabia, no entanto, que ela queria e continuei. Vários homens tentaram interromper-me, um da companhia de força e outro do departamento de conservação. Não terminamos o ato e acordei frustrado e insatisfeito.





Os pastos abertos pertencem à Mãe Terra, e é aqui que o ego onírico busca a mulher (no vernáculo ir “caçar”) com o símbolo fálico na mão. Isso mostra a imagem de um tipo de homem voltado para o exterior, lado sombra de João que não transparecia com freqüência em suas maneiras cavalheirescas. A persona de João estava, de fato, relacionada com as “construções que lembravam escolas”: racional, intelectualizada e conservadora. Essa era a imagem com a qual ele se identificava (e, aparentemente, a que sua esposa via e apoiava). O lado “beato” de si próprio não é, aparentemente, compatível com sua natureza forte, “caçadora” erótica, que se encontrava reprimida e, portanto, conscientemente incongruente para João. O aspecto do uísque na garrafinha, seu lado sombra, estava de fato sendo dramatizado através de suas bebedeiras.

Nas associações de João em relação ao sonho, ele contou que na infância conhecera uma menina chamada Lola, que fora prostituta. Ele a descreveu como “astuta, porém limpa”. Ele também pensou no musical Damm Yankees, no qual a Líder, Lola, é mulher bonita que tem parte com o demônio. Ela canta uma canção: “Whatever Lola wants, Lola gets” (Tudo que Lola quer, Lola consegue”). Outra associação foi a de que a sua esposa era professora escolar, e que havia diferença gritante entre as duas mulheres do sonho, a esposa e a prostituta.



O celeiro onde a menina fora encontrada está relacionado com Deméter e Core (Perséfone) – Deméter, imagem associada com o grão, e Core, filha de Deméter, que fora raptada por Hades, o demônio. Aqui o ego onírico (a sombra de João caçador) encontra Lola (o aspecto dinâmico do feminino, sua própria Core interna) “abaixo do nível do solo”, o que, psicologicamente, indica seu ser contido no útero maternal do inconsciente, Lola é mulher indistinta, objeto a ser usado. O ato sexual é como estupro, uma vez que Lola não se entrega a ele livremente. O fato de um homem tomar uma mulher mais ou menos pela força, não levando em consideração seu “não”, é indicativo de atitude sexual primitiva, que aqui, aparentemente, é característica da sombra de João.

Os homens da “companhia de força” e do “departamento de conservação” são análogos àqueles comportamentos psíquicos auto-reguladores que controlam o fluxo de energia psíquica – a libido – e alertam contra o mau uso dos recursos naturais. O ato sexual foi buscado para autogratificação instantânea, sem nenhum respeito pela alteridade da mulher ou pela deusa do amor. O aparecimento dos outros homens para interromperem o ato sexual deixa João frustrado e insatisfeito.



O sonho perturbou João e levou-o a lutar conscientemente contra seu lado sombra e a reprimir atitudes em relação ao feminino, o que prendeu sua anima no estágio de Eva – como menina ainda intimamente ligada à mãe. A imagem do feminino como prostituta é promissora, mas nesse ponto ela é simplesmente usada pela sombra e não existe senso do sagrado.

Na luta com sua sombra, João também se tornou consciente de sua hostilidade, e até mesmo de seu temor, em relação à mulher. Novamente, esse lado de si próprio era tão incompatível com a sua auto-imagem consciente, que fora reprimido. Usando a técnica da imaginação ativa, ele fez amizade com sua Lola interna que, a certa altura lhe disse: “Você não me amava o bastante”. Em determinada ocasião, ele sentiu necessidade impulsiva de tocar música para ela, como que para criar um sentimento de harmonia entre ambos.

Gradualmente, houve transformação nas atitudes conscientes de João, como reflete o seguinte sonho:



Eu estava procurando bezerros no alto de um morro. Aproximei-me de uma casa velha e entrei. Havia quatro ou cinco mulheres lá dentro. Uma moça estava sentada a uma mesa de recepção, e havia uma outra atrás dela. Conversamos e rocei os meus lábios contra os dela. A segunda moça sussurrou-me que queria que eu fosse com ela. Eu a segui por vários quartos. Ela estava nua e era surpreendentemente bonita. Entramos num quarto no qual havia palha no chão, como num pombal. Senti como se ela fosse ao mesmo tempo meretriz e amante.



“Procurado bezerros” indica a crescente percepção de João em relação à deusa que, como foi mencionado anteriormente, era frequentemente imaginada com coroa com duas meias-luas que se assemelhavam a chifres de vaca. Os bezerros, imagem ou representação da deusa “recém-nascida”, devem ser encontrados. Esta procura leva o homem a uma casa de mulheres.

A casa, no sonho, é reminiscente de bordel; o fato de ser velha pode ser indício de que João estivesse relegando ao passado atitudes coletivas em relação ao sexo e mulheres. Mas, devido à sua atmosfera erótica, a causa pode também indicar diferenciação crescente em sua atitude pessoal em relação ao feminino, movimento no sentido de buscar e valorizar as mulheres como seres sexuais.



Muitas vezes, quando um homem sonha com várias mulheres, uma se aproxima e se apresenta; esta detém uma qualidade especial e é particularmente atraída pelo ego onírico. Aqui, tal mulher torna-se guia do ego onírico através de labirinto desconhecido. Essa mulher sedutora e receptiva à sua potência masculina; ela não é pressionada nem forçada, como no sonho anterior. Há uma atmosfera humilde e despretensiosa, o que se denota pela palha no chão. João ainda é ambivalente, sentindo a mulher no sonho tanto como prostituta como pessoa capaz de amar. Ao mesmo tempo, ele se sente fascinado por sua beleza, encanto e promessa de amor.



O sonho representa o começo do estágio de helena do desenvolvimento da anima, o que se manifesta através dos esforços de João no sentido de buscar conexão interna com a deusa doa mor. Fascinado, ele a segue por lugares desconhecidos do domínio feminino. Agora ele demonstra certo respeito – fica aterrado por sua beleza límpida, atitude bem diferente da do sonho anterior, onde o masculino tinha o “direito” de violentar o feminino.



A anima agora torna-se mais receptiva, mais acessível. Aqui encontramos forte paralelo com o estranho que procura honrar a deusa; João aproxima-se da prostituta sagrada e é bem recebido por ela. Ao ser receptiva para com ele, ela traz a novo reconhecimento do Outro, sua própria mulher interior.

Em sua realidade externa, João experimentava grande confusão; como ele mesmo o exprimiu, “meu mundo está virando de cabeça para baixo”. À medida que novos elementos psíquicos começaram a se tornar conhecidos, outros estavam em estágio de transformação; naturalmente, havia um senso de desorientação. As crostas endurecidas das velhas atitudes lentamente se dissolviam, enquanto vários esboços de atitudes novas se formavam. Ainda assim, apesar de sentir-se em meio ao caos, João ia aceitando novas dimensões de vida que lhe proporcionavam excitamento e senso de jovialidade. Ele começou a experimentar coragem inusitada, distante de sua resignação anterior, que o impelia a perseguir novos caminhos de auto-expressão através da escrita, da música e da descoberta da literatura clássica, contrabalançando assim a superdedicada ligação com o trabalho.



Em resumo, a prostitua sagrada, na psicologia masculina, corresponde ao aspecto da anima que funciona como força psíquica propulsora e transformadora. Ela tem relação direta com a compreensão consciente e com a integração no homem de sua própria natureza contra-sexual. Ela modifica a auto-imagem do homem, seus valores e atitudes em relação à mulher em sua vida externa.



O aspecto de prostituta sagrada da anima traz alegria e riso, e torna o homem capaz de ver a beleza e sentir as emoções do amor. Como uma imagem-alma relacionada com a deusa do amor, aspecto feminino divino do Si-mesmo do homem, ela transforma a expressão sexual instintiva em fazer amor, experiência estimulante, de modo algum incompatível com sua natureza espiritual.

Em nosso mundo moderno, a imagem da prostituta sagrada está enterrada sob os valores religiosos, políticos e econômicos do patriarcado. Ela ainda vive, entretanto, e pode ser redescoberta como companheira-de-alma por qualquer homem que possua o desejo e a coragem de sacrificar papéis de persona masculinos estereotipados e valores coletivos antiquados. Estas são as ofertas que ele traz à prostituta sagrada no templo do amor, lá ela o aguarda, pronta para iniciá-lo no significado de sua vida e despertar sua consciência para uma nova sabedoria.


O homem que morreu, de D.H. Lawrence.



A estupefação experimentada por um homem encontrando sua anima – a guia interior que pode conter os mistérios da sexualidade e da espiritualidade – è ilustrada na curta novela de D.H. Lawrence, The Man Who Died (O homem que morreu).

Trata-se da estória de um andarilho, em Jerusalém figura de Cristo que levava vida pública atormentada, e que agora buscava alguma coisa que lhe proporcione mais satisfação. Essa situação é análoga à de muitos homens que, na segunda metade da vida, se sentem compelidos a se voltarem para dentro de si mesmos.



Ao partir para a sua viagem, tendo feridas abertas e doloridas, ele encontra uma mulher que é sacerdotisa de Ísis. Ele diz a si mesmo: “Essa menina de Ísis é a chama suave que cura. Sou médico, mas não possuo o poder de cura que tem a chama desta menina tão suave. Devo ousar aproximar-me deste toque suave de vida? Oh, é muito difícil”.




Ele está absorto e emaranhado em sensações novas quando a mulher se dirige ao santuário e se entrega aos sentimentos e ao anseio de Ísis. Ela é amorosa com ele, com o fogo misterioso de uma mulher forte, e ele é tocado pelo desejo que ela sente por ele. Ele estremece de medo e de prazer, dizendo a si mesmo: “Sinto quase mais medo desse toque do que sentia da morte, pois estou exposto a ele de forma mais nua”. Suas feridas começam a chorar novamente, um choro de arrependimento e culpa.



A sacerdotisa unge seus ferimentos, dizendo: “O que está dilacerado transforma-se em carne nova, o que era ferida enche-se de vida nova”. Ele conta-lhe a respeito de uma mulher que certa vez lavou-lhe os pés, limpando-os como próprio cabelo e vertendo sobre eles precioso ungüento.



[A sacerdotisa perguntou-lhe] “Você a amava?”.

“O amor havia passado para ela. Ela queria apenas servir”, replicou ele. “Ela tinha sido prostituta.”

“E você deixou que ela o servisse?” ela perguntou... “Você deixou que ela o servisse com o cadáver de seu amor?”...

Uma forte sensação de vergonha percorreu-lhe o corpo.

“Afinal de contas”, ele pensou, “eu queria que elas fizessem amor com corpos mortos”.



O homem que morreu também sentiu a dor e a morte de sua própria escuridão. Em sua nova consciência, sentiu certa agitação fervilhando, nova alvorada despontando. “Agora eu não sou mais eu, sou algo novo”. E disse: “Veja, Ísis é deusa delicada e cheia de ternura... Eu a sinto no âmago de meu ser”.



Esse é um exemplo comovente de homem encontrando sua anima na imagem da prostituta sagrada, alguém capaz de servir de mediadora entre o corpo ferido quais as energias instintivas eram negadas, e a experiência numinosa do divino. Embora temeroso de que sua natureza masculina ferida ficasse ainda mais exposta e sujeita a mais tormentos, o homem abriu-se à cura suave e aos métodos benéficos da sacerdotisa Ísis.

Aqui, a prostituta sagrada, como aspecto anima, funciona como mediadora entre consciência e inconsciência, fazendo as forças instintivas entrarem em harmonia com o divino. Sem a valorização dessa imagem, o homem contemporâneo experimenta grande desagregação entre os aspectos espiritual e sensual de Eros. Atos sexuais desprovidos de uma atitude de tributo à deusa tornam-se desempenhos meramente instintivos, sem conexão com um ser interior.

Muitos homens modernos experimentam essa desagregação. “O homem não conseguirá estabelecer conexão positiva com a sua anima enquanto essa desagregação não houver sido reconciliada e curada”, escreve Robert Stein. Inversamente, pode acontecer que essa divisão não possa ser curada enquanto não houver encontrado uma conexão positiva com a sua anima. Só então ele poderá abandonar atitudes convencionais e contraídas em relação ao feminino, e entrar para o mundo do envolvimento emocional pleno com outra pessoa.



*

Estágios da Anima



À medida que a consciência do homem se amplia, sua atitude em relação tanto ao seu lado feminino, quanto às mulheres em geral, altera-se. Jung descreve quatro estágios do desenvolvimento da anima, análogos às imagens históricas do feminino personificado por Eva, Helena de Tróia, a Virgem Maria e Sofia.



O primeiro estágio – Hawwah, Eva, terra – é puramente biológico; a mulher é igual mãe, e representada apenas algo a ser fertilizado.



O segundo estágio ainda dominado pelo sexual Eros, mais ainda estético e romântico, onde a mulher adquiriu algum valor como indivíduo.



O terceiro estágio eleva Eros às alturas de devoção religiosa, espiritualizando-o: Hawwah foi substituída pela maternidade espiritual.



E finalmente, o quarto estágio ilustra algo que, inesperadamente, ultrapassa o quase insuperável terceiro estágio: a Sapientia [Sofia]... Esse estágio representa uma espiritualização de Helena e, consequentemente, de Eros como tal. Eis por que a Sapientia era vista como paralela da sulamita no Cântico dos Cânticos.



Á primeira vista a descrição de Jung das figuras da anima em seus estágios progressivos parece restritiva, como se sugerisse que só quando a anima ultrapassa o estágio instintivo, negando sentimentos sexuais, a pessoa pudesse desenvolver uma espiritualidade. Perguntamo-nos se não se trataria ainda de algum eco da moralidade de nossa cultura, onde a sexualidade é considerada como antítese da espiritualidade. Interpretando neste sentindo, “não admira então que o conflito selvagem e confuso surja entre homem como criatura instintiva da natureza, e o homem como ser cultural, espiritualmente condicionado”.



Uma consideração mais cuidadosa do trecho, porém, sugere que Jung esteja, na verdade, dando ênfase à presença de Eros, em seu sentindo mais amplo sentido, a cada estágio do desenvolvimento da anima. Em outra passagem ele descreve: “A sexualidade não é meramente instintiva; trata-se de uma força criadora incontestável que não é apenas a causa básica de nossas vidas individualmente, mas também fator muito sério em nossa vida psíquica”.



No ápice de seu desenvolvimento, então o aspecto espiritual da anima abrange a sua sexualidade. Está contida na própria natureza da Sapiência (Sofia), que era a noiva de Deus. Na Bíblia ela diz: “Eu estava com ele, regulando todas as coisas; e cada dia me deleitava, brincando sobre o globo da terra, e achando as minhas delícias em estar com os filhos dos homens”. De acordo de um texto de alquimia, o Rosarium philosophorum, “em sua veste está escrito em letras douradas... eu sou a única filha do sábio. Completamente desconhecida do louco”.

A mais alta ordem da natureza erótica da anima é vista na imagem da Sulamita, e através dessa imagem encontramos a ligação com a prostituta sagrada. Sulamita era sacerdotisa de Istar; Jung diz que ela significa “terra, natureza, fertilidade, tudo aquilo que floresce sob a luz úmida da lua, e também o impulso natural pela vida”.



A prostituta sagrada, então, ainda que não seja sinônimo de anima, é imagem feminina relevante para cada estágio de desenvolvimento da mulher interna do homem. Ela oferece-lhe prazer, estímulo e vitalidade, personificação tanto da espiritualidade quanto da mundanidade. Ela é a amante cuja beleza é excitante, cuja natureza virginal traz vida nova e conduz Sabedoria – que é mais do que simplesmente intelecto.



Cada estágio sucessivo da anima provoca novas realizações e alterações de atitude; ao mesmo tempo, paradoxalmente, a influência do estágio precedente, ao invés de reduzida, é enfatizada. Inicialmente, como Eva, a prostituta sagrada está sintonizada com sua natureza biológica e sexual. Ela deseja o prazer físico. Em sua licenciosidade, ela deseja não o homem, mas um homem. Ela não é apenas quem oferece prazer sexual, mas também quem recebe. Ela é matéria, corpo e terra.



Como Helena, cuja beleza e encanto foram idealizados como protótipos do amor erótico através dos tempos, a prostituta sagrada possui esses mesmos atributos. Ela é a bela cujas vestes e perfume, cuja percepção de suas formas arredondadas nos movimentos de sua dança encanta homem e excita a sua paixão. Nesse estágio de desenvolvimento de anima, ela é vista como mais do que corpo – ela é indivíduo em seu próprio direito, experimentado como o Outro feminino. Ela assume personalidade particular.



A prostituta sagrada também tem característica comum com a Virgem Maria, embora isto seja difícil de compreender, pois nossa imagem cultural normal de Maria está nublada por uma noção difusa de pureza e piedade. É o efeito da desagregação entre sexual e o santo. Mas há outra imagem de Maria – como Nossa Senhora “negra” – que contém e valoriza esses conceitos aparentemente contraditórios. Como Maria, a prostituta sagrada é considerada virginal (psicologicamente); tal como o útero de Maria, que gerou a criança de Cristo, ou seja, de consciência elevada.



Na tradição católica romana, Maria é vista como intercessora entre Deus e o homem, conduzindo o homem a Deus para assegurar imortalidade. De modo similar, era a prostituta sagrada que, ao dar ao homem as boas vindas a seu recinto sagrado e introduzi-lo ao culto da divindade, servia como intercessora, como mediadora entre a divindade e o homem. A mulher interior, através de vários estágios de desenvolvimento, desempenha a mesma função que a mediadora, principalmente no ato de amor sexual, no qual o físico e o pessoal se transcendem.

Como foi escrito acima, Sofia (Sapientia / a Sulamita) estabelece paralelos com aspectos da anima, embora ela deva ser também considerada como aspecto do ser divino, análogo ao arquétipo do Si - mesmo. Sófia é a sabedoria. Na tradição bíblica, ela é tanto a noiva de Deus quanto a mãe, e amante que estava com Deus antes da Criação. Ela é o ser feminino que é “amiga e companheira desde o princípio do mundo, a primeira a nascer dentre todas as criaturas de Deus, um reflexo imaculado de sua glória e um mestre-de-obras”. Jung cita a sabedoria de Salomão para descrevê-la:



Ela é “sopro do poder de Deus”, emanação pura fluindo da glória do Todo-poderoso, “fulgor da luz eterna, espelho límpido do poder de Deus”, “o mais sutil” dos seres, que “passa e atravessa todas as coisas em razão de sua pureza”. É “conhecedora profunda de Deus”, e o Senhor de toas às coisas a amava... Ela é enviada dos céus e do trono da glória como um “Espírito Santo”.



Vimos anteriormente que a prostituta sagrada, na celebração do matrimônio sagrado, personificava a deusa e identificava-se com ela. Ela era a noiva de Deus, representado pelo rei. Na união do matrimônio sagrado, ela trazia o poder regenerativo da Sabedoria para o contato efetivo com as vidas dos homens.



A cada um desses estágios, o homem vai travando conhecimento com um aspecto diferente de sua própria natureza feminina. Ele é conduzido, por assim dizer, por uma imagem da anima a outra por meio de experiências de vida.

Idealmente, em seu caminho de individuação, ele virá a incorporar o pleno continuum de suas energias instintivas e de sua essência espiritual, experiência que culmina com o hieros gamos, o matrimônio sagrado ou a união de opostos. Tal homem entra para o ato sexual não a partir de um desejo pelo poder ou de uma necessidade de domínio, mas com o sentimento de honra e devoção para o mistério feminino.

Mulheres promíscuas


A prostituta sagrada



A prostituta sagrada é mulher mortal devotada à deusa. Sua beleza, seus movimentos graciosos, sua liberdade da ambivalência, suas ansiedades ou autoconsciência em relação à sua sexualidade, bem como os atributos da deusa derivam da reverência que ela presta à sua natureza feminina.

A prostituta sagrada pode ser considerada imagem arquetípica, no sentido em que sua energia associada a emoções específicas e a padrões de comportamento – porém ela é humana. A deusa do amor e a prostituta sagrada pertencem a princípio único, o princípio de Eros; o princípio em si, contudo, é humano e divino. Esse conceito tem paralelo na crença cristã em relação à dualidade do Pai e do Filho, que são, no entanto, Um. Cristo, o Filho, é o aspecto mais próximo à humanidade; através dele é que chegamos ao conhecimento do Pai: “Ninguém vem ao Pai a não ser por mim”.



De maneira semelhante, podemos ampliar o significado da deusa e compreender as implicações psicológicas da imagem, mas, por ser arquetípica, ela nunca poderá ser completamente integrada à consciência. Não podemos penetrar o domínio dos deuses ou nos identificar com seu poder, isso leva a insanidade, à opressão do ego humano. Através da prostituta sagrada conseguimos compreender os atributos da deusa do amor. Podemos conscientemente integrar em nossa vida humana o significado de suas qualidades características.



Em sonhos, em imaginação ativa ou em fantasia, o padrão arquetípico da iniciação é ativado quando se está pronto. Jung fala dos “grandes sonhos”, que em certo estágio do desenvolvimento psicológico funcionam como os antigos rituais religiosos, conduzindo a pessoa á integridade pessoal.

O seguinte sonho é de uma mulher adulta que, embora muito brilhante e competente, não vivera a vida plenamente. Por escolha própria, permanecera solteira. Possuía muitos amigos, mas nunca se havia envolvido em relacionamento sexual ou amoroso e, como afirmara em sua sessão inicial de análise, tinha “medo de homens”. O sonho ocorrera na véspera do Ano Novo, ocasião simbólica de novos começos.



Estou num quarto e as paredes começam a mudar. Surge outro lugar, o qual vem em ondas, repetidamente. Aprendi a reconhecer os primeiros sinais dessa experiência porque um quadro, uma mesa ou uma luminária começavam a se derreter, e então o quarto inteiro começava a se ondular.

O quarto transformava-se em outro lugar, coisas estranhas começavam a ocorrer. Eu tinha que ter duas mentes, para sobreviver à experiência. Por exemplo, tinha literalmente que me segurar a meu corpo para não ser tragada por um vórtex turbilhonante de energia. Ao mesmo tempo, tinha que permitir que tudo isto acontecesse para que a experiência pudesse continuar.



Durante um dos episódios (depois de o quarto ter mudado), uma longa videira cheia de folhas enroscou-se em torno do meu corpo. Não foi difícil desvencilhar-me da videira, e joguei-a ao chão: imediatamente ela se transformou em cobra, a qual atacou-me entre as pernas. Pulei fora assim que ela encostou em mim, mas senti um choque percorrer o meu corpo.



Este sonho ocorreu em época da vida da mulher em que a compreensão racional estava em estado de fluxo, havendo poucos pontos familiares de orientação para ela. O “vórtex turbilhonante de energia” é análogo à inconsciência caótica e indiferenciada, dentro da qual a sonhadora é capaz de permanecer conectada consigo mesma através de seu corpo. A videira simboliza o deus Dionísio, cujo poder fálico manifesta-se na cobra que lhe penetra a virgindade. A cobra também é associada com a cura, sabedoria e transformação. Trata-se de sonho poderoso, parente de ritual de iniciação. Seu efeito sobre a mulher foi poderoso; as atitudes conscientes dela, bem como sua imagem de si mesma, se transformaram.



A prostituta sagrada é imagem arquétipica de alguém que foi iniciada nos mistérios e alcançou profunda conexão com a deusa do amor. Tendo integrada a potência da deusa, ela pode então servir como mediadora das exigências do inconsciente para outras mulheres quando são levantadas dúvidas a respeito da segurança das estruturas convencionais.

Assim sendo, a prostituta sagrada é mulher humana que, através de ritual formal ou de desenvolvimento psicológico, conseguiu conscientemente conhecer o lado espiritual do seu erotismo, e vive-o na prática, de acordo com suas circunstâncias individuais. Encontramos esse tipo de mulher em todas as esferas sociais. È possível sentir certa presença em seu interior, uma combinação de alegria e felicidade. Ela é “uma-em-si-mesma”, livre dos confinamentos da convenção; vive de acordo com sua própria escolha.



Tal mulher não pode ser considerada sexy ou provocante, no sentido habitual destes termos, pois sua sexualidade não é superficial, não é motivada por projeto consciente ou por exigências conscientes. Não se trata de comportamento aprendido, de capacidade adquirida ou de questão de habilidade, mas sim de sutileza de seu ser, emergindo das profundezas de sua alma. Seu semblante exprime força, “uma força misteriosa que todos sentem, mas que filósofo algum jamais explicou”.



A prostituta sagrada é também um aspecto da anima do homem, a imagem feminina interna que leva o homem a valorizar aspectos de si mesmo que envolvem espiritualidade erótica. Ela é imagem dançante, radiante e estimulante do feminino, imagem da qual ele precisa ter plena consciência enquanto imagem interna, se é que ele deseja manter relacionamento amoroso com mulher real.



O estranho


O estranho que vinha ao templo para cultuar a deusa do amor em intercurso com a prostituta sagrada era, em tempos antigos, visto como um emissário dos deuses, ou até como um deus disfarçado.

O arquétipo do estranho funciona de maneira semelhante no processo psicológico. Trata-se de imagem frequentemente encontrada em mitos, na religião e em contos de fadas, assim como em sonhos, indicando um aspecto do inconsciente que irrompe no consciente para instigar mudança. Quando quer que apareça, ele provoca a sensação de estranheza, como “algo diferente” que penetra, e a elevada espiritualidade do divino é experimentada.



Na mitologia teutônica o deus Wotan, disfarçado de mendigo, batia à porta de um pobre e insuspeito mortal. Dependendo de como era recebido, a família seria ricamente abençoada ou cairia em desgraça sob a maldição do irado deus.

Na tradição judaica, durante a celebração religiosa do Seder, um lugar vazio é reservado e uma cadeira é deixada à disposição para receber o visitante não convidado, o estranho que pode chegar. Essas preparações são feitas para o profeta Elias, o emissário de Deus, que virá anunciar a vinda do Messias.



Na tradição cristã, o estranho apareceu diante de Maria, anunciando que o Espírito Santo desceria sobre ela e que ela conceberia o filho de Deus. Também foram dois estranhos, homens em vestimentas brilhantes, que revelaram à mulher que veio ao túmulo vazio que Jesus crucificado havia ressuscitado dos mortos.



O estranho é tipicamente alguém que não foi convidado, não é aguardado, e é de natureza estrangeira. Vem de lugar de fora do mundo, e instiga mudança. Uma aura sobrenatural o envolve. Essa é a essência do estranho no contexto dos rituais de iniciação desempenhados pela prostituta sagrada: ele facilita sua transição da inocência da virgindade para a compreensão da plena natureza feminina. Psicologicamente, na mulher, trata-se de estágio onde o princípio masculino irrompe:



A mulher é capturada por uma força desconhecida e irresistível, que ela experimenta como “numinoso” disforme. Através de sua captura total pelo [princípio] masculino, a mulher supera o estágio de autoconservação e chega à nova fase de sua experiência. A captura orgiástica total possui caráter espiritual, embora ela se dê no corpo. Esse caráter espiritual, entretanto, não tem nada a ver com a lógica abstrata do espírito patriarcal masculino, mas pertence à forma especificamente feminina da experiência espiritual que na mitologia é frequentemente relacionada ao símbolo da lua.



N psicologia da mulher, o estranho é um aspecto daquilo que Jung chamou de animus, o lado contra-sexual da psique feminina – um homem interno, por assim dizer. Na melhor das hipóteses, ele funciona como ponte entre o ego da mulher e suas próprias fontes criativas. Na pior, ele se manifesta através de opiniões e pressupostos que destroem seus relacionamentos.

A palavra animus em latim significa espírito. O animus positivo inspira a mulher, conduzindo-a para fora, para o mundo dos objetos, da criatividade e das idéias. È essa função psíquica que fornece senso de direção, discernimento e continuidade ordenada a todos os esforços.



O animus aparece em muitas formas além da do estranho, como a mulher velha e sábia, como um Adônis juvenil, ou até com um bebê menino, e cada manifestação possui significado psicológico particular. Em sua forma negativa, o animus pode aparecer, por exemplo, como estuprador ou um ladrão que leva os pertences mais estimados da mulher, símbolos de sua natureza feminina.



Uma mulher de uns trinta e poucos anos teve o seguinte sonhos. Ela havia sido sexualmente ativa de maneira indiscriminada – fato a que ela se refere como “estourar bolhas” - por vários anos desde seu divórcio. Vários meses antes do sonho, ela começara a sentir um vazio muito profundo, e descrevia seu peito como se estivesse interligado por “cadeia de lágrimas”. Ela passou muito tempo auto-refletindo, tentando conectar-se com a mulher chorando dentro dela. Seu sonho ocorreu durante esse tempo.



Estou limpando a casa, e então tomando banho e vestindo-me, pois um convidado muito distinto está para chegar, embora não saiba quem ele será. Sinto a extrema importância da ocasião e estou nervosa. O embaixador do Japão chega. Cumprimentamo-nos cordialmente, embora ainda esteja nervosa. Ele executa a cerimônia do chá para mim. Entramos no quarto (que na realidade não é o meu) e fazemos amor. Sem emitir uma simples palavra, ele vai embora e eu permaneço em estado de êxtase.



Este sonho reflete o esforço planejado pela mulher para entender o que se estava passando dentro dela. A faxina psíquica e o ritual de purificação de seu corpo preparam-na para receber o importante convidado do “outro mundo”, símbolo do animus do estranho. O emissário do divino executa um ritual através do qual a dignidade dos relacionamentos é honrada. A união deles é extática – transpessoal e transformadora.



Mulheres sexualmente promíscuas, a quem falta laço emocional ou até que abrigam ressentimento profundo em relação ao parceiro, encontram-se desvinculadas de sua natureza feminina essencial. Essa é precisamente a situação que alimenta o animus negativo. O animus é tão negativo na vida interior dessa mulher quanto é o modo como ela vê o homem em sua vida externa. Ele mostra-lhe a face cruel, podando toda tentativa de avanço por parte dela. Quanto mais inexoravelmente ela acredita serem os homens seus inimigos, menos ela é capaz de compreender que o inimigo está dentro dela mesma. Na há ritual de preparação, tal como a pessoa acima sonhou, não há recepção de boas-vindas para o Outro misterioso.



De maneira semelhante, mulheres que passam por ansiedades sexuais nunca experimentaram de forma plena a ruptura, a penetração pelo masculino. Tais mulheres permanecem, por assim dizer, como a menina do conto de fadas, vivendo em meio à pobreza emocional da casa do pai. Os temores que sente em relação ao animal fálico impedem-na de vivenciar o amor e seus efeitos transformadores, não apenas nela mesma, mas também em seus parceiros. O animus interior permanece em estado não desenvolvido, um eterno sapo, nunca reconhecido como príncipe em que se transformaria.



O animus positivo do estranho permite que a mulher focalize e saiba discernir os atributos e a beleza de sua natureza feminina. Ele a guia para a compreensão consciente de sua feminilidade. Ela então adquire a capacidade de fazer escolhas que não o comprometam. Exatamente como a prostituta sagrada, que saía para o mundo, quando o ritual terminava, preparada para entrar no casamento como pessoa plenamente consciente de sua capacidade, assim também a mulher moderna que tenha integrado seu animus está preparada para a vida.


O que quer que ela assuma, ela o faz com segurança sem regressão, sem submissão ou sem o sentimento de inferioridade em relação a um sistema patriarcal (o que significaria retornar à casa do pai). Ela não precisa competir com homens, nem adotar qualidades masculinas, isto é, identificar-se com o animus. A mulher quer conseguiu reconhecer a presença do masculino dentro dela passa a ser sua própria autoridade, e mantém-se constante em relação à sua natureza feminina. Ela pode não ser capaz de mudar o sistema patriarcal em volta dela; mas, o que é mais importante, não permite que o sistema a altere.

A Deusa


A Deusa



A deusa do amor, da paixão e da fertilidade era conhecida por vários nomes em épocas diferentes e em locais diferentes.


Na Suméria ela era chamada Inana, e na babilônia ela era Istar. Os persas veneravam Anaíta, enquanto os cananeus, os hebreus e os fenícios reverenciavam o altar de Anat, também chamada de Astarte ou Astart. No Egito, ela chamava-se Ísis, anteriormente identificada como Hátor. Na Lídia, ela era identificada como Cibele, e os romanos a conheciam por Vênus.

Na Grécia, ela era a formosa Afrodite. Afrodite não era associada com á deusa da fertilidade, que era identificada á deusa Rea e Deméter. O reino de Afrodite era do amor e da paixão, e sua imagem talvez seja a mais renomada por esses atributos hoje em dia.



Independente de nome e lugar, a deusa do amor era associada com a primavera, com a natureza desabrochando, com o tempo em que as sementes em repouso explodem em esplendor. A beleza é o componente principal; a nudez de Afrodite é glorificada. Ela é a única deusa a ser retratada nua em esculturas clássicas. O encanto do seu corpo feminino é adorado e adornado.

Da mesma maneira que Inana preparava seu corpo com perfumes e cosméticos quando antecipava sua união com seu amor, também o fazia Afrodite, como cantam os hinos homéricos.



Ela foi a Chipre, e penetrou seu templo perfumado em Pafos, onde ela possuía um recinto e um altar perfumado. Depois de entrar, ela fechava as portas reluzentes, e as Graças banhavam-na, untavam-na com óleo de oliva sagrado, do tipo que todos os deuses usam, aquela ambrósia agradável com a qual ela se perfumava. Tendo envergado suas lindas vestimentas e tendo se enfeitado com ouro, Afrodite, amante do riso, apressava-se em direção a Tróia, deixando em Chipre um odor adocicado, e rapidamente trilhava um caminho através das nuvens lá em cima.



Afrodite era frequentemente citada como “a dourada”. Bachofem também afirma que o domínio do consciente em Afrodite não é espiritual, e sim a consciência terrena “exaltada a mais alta pureza”.

A deusa exemplifica os aspectos da natureza feminina que se manifestam na matéria. Beleza física, consciência feminina integrada no corpo, isto é, sabedoria instintiva, e capacidade de conectar emoções profundamente sentidas com relacionamentos (o princípio de Eros), tudo isso é associado com a deusa.



A deusa era considera virginal. Dentro de nossa compreensão moderna, é paradoxal ver a deusa como virginal, se ela é identificada com paixão e amantes múltiplos. Mas não há paradoxo; em latim virgo significa solteira, enquanto que virgo intacta refere-se á falta de experiência sexual. Hoje em dia, a palavra “virgem” encerra apenas o último significado.

O atributo virginal da deusa simplesmente significa que ela não pertence a homem algum; ela pertence a si mesma. Ela não é vista como correspondente dos outros deuses, ou como versão feminina de um deus. Embora possa ser casada, seu esposo é visto como consorte. Sua condição de esposa não altera seus próprios atributos, nem lhe concede status especial. A deusa do amor existe por direito próprio, como “uma em si mesma”. Ela é verdadeira para com a sua natureza e seu instinto próprio. Fala-se de floresta virgem, que é livre e espontânea, grávida de vida, de acordo com as leis da natureza. É desimpedida e intocada pelo homem. Semelhantemente, a deusa do amor comportava-se de acordo com suas próprias leis divinas da natureza, livre e desvinculada das leis elaboradas pelo homem.



A deusa do amor era deusa da lua. Em tempos antigos, em alguns dos lugares em que era venerada, o clima era quente e árido. As pessoas presumiam que, uma vez que o sol tórrido e ofuscante secava a terra e destruía o solo verde incipiente, era a lua, com sua iluminação fresca e suave, que oferecia vida e abundância. A lua e sua deusa eram os poderes fertilizadores. Daí a deusa usar um adorno de cabeça em forma de lua crescente, assim como Ísis é representada com uma espécie de chifres em forma de meia-lua, sendo por isso associada à vaca, a fonte de leite de bondade humana. Em festividades religiosas especiais para a deusa da lua, costumava-se servir pequenos bolos com formato de meia-lua.

Mas a lua também possuía o poder de gerar a insanidade ilimitada em sua destruição implacável. Plutarco dizia a seu respeito: “A lua cheia é um bom desígnio, mas lua minguante traz doença e morte”. Como a lua, ela era cíclica, seguindo um ritmo constante de mudança.


Outro fio comum que se entrelaça nos mitos de todas as deusas do amor é o tema do filho-amante. A deusa em si é eterna; todavia, o filho amante é morto ou sacrificado para ressurgir de novo.


Um mito grego fala de Afrodite e de seu belo Adônis (nome que significa senhor e mestre). Afrodite encontra Adônis quando de seu nascimento de uma árvore, na qual sua mãe se transformará. Afrodite colocou a criança num cofre e a confiou à deusa do submundo, Perséfone.

Quando, mais tarde, Afrodite voltou para reclamar o cofre, ela descobriu que Perséfone já o tinha aberto e contemplado a grande beleza da criança, e recusava-se a perdê-la. A briga entre as duas deusas foi levada a Zeus, que solucionou o conflito decidindo que Adônis passaria metade do ano na terra, e a outra metade no submundo.



Durante metade do ano em que ficava com Afrodite, ela procurava agrada-lo ao máximo. Adônis tinha paixão pela caça, e apesar de Afrodite temer que um destino trágico o abatesse, ela não conseguia desestimulá-lo.

Certo dia, durante uma caçada nas matas selvagens, Adônis foi atacado e fatalmente ferido pelos chifres de um javali. Ao correr em direção a ele, Afrodite arranhou a perna numa rosa, que até então fora branca. A rosa tornou-se vermelha por causa de seu sangue. (A rosa vermelha, símbolo de Afrodite, ainda é considerada como presente de amor.) Afrodite beijou Adônis que morria, e sentiu então a mesma dor penetrante que ele sentia.


Perda e morte, amor não correspondido e abandono, tudo isso faz parte do reino de Afrodite. Na verdade, é apenas através dessas sombras escuras que seu brilho dourado torna-se criação completa, sorrindo seu sorriso imortal, e olhando para a morte com seus olhos imortais. A permanência faz parte do mundo de Hera, não do de Afrodite. O que faz parte de Afrodite é a profunda aceitação de que o amor apaixonado não dura para sempre; e a aceitação igualmente profunda de que o homem é feito para amar.

*

A mulher que vem a conhecer a deusa cresce na compreensão daquele aspecto divino de sua natureza feminina que parte do Si - mesmo, do arquétipo da totalidade e do centro regulador da personalidade. Em vez de tentar dominar sua vida, seu ego age juntamente com o Si - mesmo. Ela é guiada, por assim dizer, por suas mais profundas necessidades, por idéias e atitudes que vêm de dentro. Ela não é contaminada por circunstâncias externas ou excessivamente atingida por críticas.





Eu acho meu corpo belo


A mulher que tem consciência da deusa cuida de seu corpo com alimentação e exercícios adequados, e aprecia os rituais como banhar-se, vestir-se a aplicar cosméticos. Não se trata de propósito superficial de apelo pessoal, relacionado à gratificação do ego, mas sim de respeito por sua natureza feminina.



Tal mulher é virginal. Isso não tem nada haver com estado físico, mas com atitude interior. Ela não é dependente das reações dos outros para definir seu próprio ser. A mulher virginal não é apenas o reverso do homem, seja ele pai, amante ou esposo. Ela mantém-se em pé de igualdade em relação a seus direitos. Não é governada por idéia abstrata do que ela “deveria” ser ou “do que as pessoas vão pensar”.



A mulher que é virgem, uma em si mesma, faz o que faz – não por causa de algum desejo de agradar, não para ser amada, aprovada,... Não por causa de algum desejo de conquistar poder sobre alguém, para conseguir seu interesse ou amor, mas porque o que ela faz é verdadeiro... Na condição de virgem, ela não é influenciada pelas considerações que a mulher que não é virgem faz; seja casada ou não, ela apruma suas velas e adapta-se às circunstâncias...

Ela é o que é porque é assim que ela é.


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