Os ladrões na cruz




(Mateus 27:38-44; Marcos 15:27-28,32; Lucas 23:32,39-43)



Muitos falam, especulam, argumentam e escrevem sobre o ladrão da cruz, como se houvesse um só ladrão crucificado ao lado de Jesus. As Escrituras, no entanto, claramente afirmam sem sombra de dúvida: "Com ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita, e outro à sua esquerda" (Marcos 15:27). Os ladrões sobre as cruzes estavam posicionados como ninguém, embora não merecessem ser invejados, para contemplar a crucificação de Cristo no meio deles. Aquela cena terrível já se deu há muito tempo, mas em certo sentido ainda podemos contemplá-la, como aconteceu com os gálatas: "Ante cujos olhos foi Jesus Cristo exposto como crucificado" (Gálatas 3:1). Isso foi possível mediante a pregação eficaz da cruz de Cristo, e tem hoje o mesmo poder para aqueles que "têm olhos para ver".



Os dois ladrões eram o extremo oposto em caráter daquele que se achava no meio deles. Eles eram "ladrões"; roubavam as pessoas para enriquecer; ao passo que Jesus "se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos" (2 Coríntios 8:9). Eles eram "malfeitores"; ao passo que ele "andou por toda parte, fazendo o bem" (Atos 10:38), completamente inocente. Eles eram "transgressores" (literalmente, fora-da-lei), sem se preocuparem com a lei dos homens ou de Deus; ao passo que só Jesus guardava a lei de Deus à risca e mostrava consistentemente em sua vida e em seu ensino o respeito por toda lei devidamente constituída. O contraste entre o caráter dos ladrões e o de Cristo era evidente mesmo nas cruzes, quando "os que com ele foram crucificados o insultavam"; ao passo que ele "quando ultrajado, não revidava com ultraje" (1 Pedro 2:23).



Desviando um pouco a atenção dos ladrões, devemo-nos perguntar em quanto o nosso caráter deixa de atingir o caráter daquele que era "santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores" (Hebreus 7:26). O auto-exame pode mostrar que somos, em alguns aspectos, mais como os ladrões do que gostaríamos de imaginar. Os ladrões cumpriram sem querer a profecia a respeito de Cristo. "E cumpriu-se a Escritura que diz: Com malfeitores foi contado." Que essa profecia de Isaías 53 encaixa-se à cena da crucificação fica claro em Lucas 22:37, em que Jesus disse, na noite anterior: "Importa que se cumpra em mim o que está esrito: Ele foi contado com os malfeitores". Assim, os ladrões involuntariamente contribuíram com mais uma prova profética de que Jesus é de fato o Cristo. O fato de Jesus ser "contado com os malfeitores" não fez dele um transgressor. Em vida, ele era conhecido como "amigo dos pecadores", considerado um deles, mas não participou de seus pecados nem desculpou de jeito algum o pecado deles. No entanto, ele morreu como se fosse pecador, ou transgressor, por causa de nossos pecados. Como afirma Paulo, "Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós" (2 Coríntios 5:21). Como também disse Isaías: "Foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo" (Isaías 53:8).



Os ladrões se mostraram diferentes no fim. "Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também. Respondendo-lhe, porém, o outro, repreendeu-o, dizendo: Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença? Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino. Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" (Lucas 23:39-43). Um dos ladrões permanece impenitente na presença da cruz de Cristo, insultando o Salvador, sem ouvir a repreensão e os apelos do companheiro que também ia morrer. O outro é tocado e tem o coração aquebrantado, repreendendo o companheiro, reconhecendo-se culpado, declarando a inocência de Cristo e suplicando para que o Senhor se lembrasse dele após a morte. Em nossa resposta à pregação da cruz de Cristo hoje, podemos ou ficar empedernidos por aquela terrível cena como um dos ladrões, ou ser tocados como o outro.



A resposta de esperança após a morte, que o Senhor deu ao ladrão, tem sido muitas vezes mal usada para dar a falsa esperança aos que desejam passar pela morte sem obedecer à condição do Novo Testamento do batismo "para a remissão de pecados" (Atos 2:38). Esse mal uso comum toma como pressuposto que o ladrão penitente não foi batizado com o batismo de João e desconsidera o fato de que ele viveu e morreu sob a velha lei e não sob a nova. Cristo, com sua morte na cruz, encerrou o Antigo Testamento e ratificou o Novo Testamento, no qual ele nos apresenta a esperança do céu para nós hoje (Colossenses 2:14; Hebreus 9:15-18). Se quisermos "estar sempre com o Senhor" no "paraíso celeste de Deus", devemos, como crentes penitentes, ser "batizados em Cristo" (Gálatas 3:27), habitar nele e morrer nele (1 Tessalonicenses 4:16-17).



-por Hugh W. Davis

Autor: Antônio Rodrigues de Lemos Augusto


Mark Twain é um dos principais escritores da literatura norte-americana. Seus textos normalmente faziam críticas ácidas e, por vezes, bem humoradas da sociedade. Em 1876, ele produziu um dos seus mais famosos clássicos: “As aventuras de Tom Sawyer”, um romance infanto-juvenil, baseado em personagens que realmente existiram. Ao final, há uma frase que se enquadra perfeitamente na sociedade brasileira. Dois garotos, personagens principais da história, debatem se é melhor ser ladrão ou pirata: “Um ladrão é uma pessoa de categoria mais alta que um pirata. Isso de um modo geral, você sabe, porque na maioria dos países vive entre a nobreza, entre duques e outros que tais”, diz o menino Tom Sawyer.




É engraçado como a constatação de Mark Twain poderia ter sido feita perfeitamente no Brasil do século XXI, mais de 130 anos depois da primeira edição da obra. E é preocupante como, muitas vezes, tal cultura é aceita entre a sociedade. O “rouba, mas faz” virou espécie de lema político, tão perverso quanto a deturpação pecaminosa dos versos da oração de São Francisco: “é dando que se recebe”. Que brasileiro que discordaria de que há muitos ladrões entre a nossa elite? Certamente os ladrões mais danosos à sociedade...



Se fizermos um apanhado do noticiário local, encontramos construtores envolvidos em licitações fraudulentas de obras sociais, supostos empreendedores que traficam madeira, advogados que se envolvem com tráfico e jogatinas, oficiais da polícia que se metem em grilagem de terras, políticos de renome relacionados a bicheiros, gente graúda que se aproveita da prostituição infanto-juvenil, empresários conceituados que bancam caixa dois em campanhas políticas, gente de sobrenome que entra de forma estranha em concursos públicos, fazendeiros que captam empréstimos agrícolas e aplicam em outros bens, patrões que se apropriam indevidamente dos descontos do FGTS e do INSS e por aí vai...



Avançamos, claro que sim! Sou otimista! Exemplo: O Conselho Nacional de Justiça e o Conselho Nacional do Ministério Público fizeram uma faxina no empreguismo de sangue dentro do Judiciário e das Promotorias e Procuradorias. Quanta esposa, marido, filho que tiveram que sair para o bem do país... Mas até este avanço é relativo, posto que o Supremo Tribunal Federal, ao combater o nepotismo, o considerou existente somente até o nível de 3º grau de parentesco, que não alcança os primos... Quanto primo feliz por aí...



Essa relação entre ladrões e elites há de se fortalecer, considerando que o Brasil será palco de grandes obras em razão da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. E dizer isso já é lugar comum!!! É triste verificar que a população trata como normal a provável roubalheira nas licitações públicas. Temos uma Lei de Licitações que não evita os acordos, as pressões, as combinações de valores (e cujo número contém os três seis do capeta... 8.666). Temos tribunais de contas nos Estados com uma forma de se indicar conselheiros altamente promíscua, deixando o enorme rabo das relações entre Executivo e Legislativo à mostra. Temos poucos promotores de Justiça atuando na esfera do patrimônio público. Temos um processo judicial lento, apesar da Lei de Improbidade Administrativa ser considerada uma norma legal positiva. Temos, enfim, ingredientes ótimos para que ladrões realmente roubem a sociedade, em atos oriundos da nossa real nobreza tupiniquim.



Certa vez, um engenheiro civil já falecido me contou sobre o que via na época da construção de Brasília. Ele via, como técnico, algumas relações entre empreiteiros e poder público extremamente de má fé com a probidade. “Com o dinheiro que se fez Brasília, poderia ter sido feito muito mais, se o gasto tivesse sido honesto”, realçava. Assim, Brasília – cuja importância não questiono – nasceu superfaturada, definindo a sua vocação para o futuro: a de servir de berço para embalar acordos que utilizam o bem público em proveito do particular. Se bem que no Rio de Janeiro já era assim... Em Salvador também... Êta herança colonial portuguesa.



Mas, como bem disse Mark Twain, os ladrões estão entre a nobreza na maioria dos países. Claro que mais em alguns do que em outros...



Antônio Rodrigues de Lemos Augusto, jornalista, advogado e professor universitário em Cuiabá-MT. E-mail: lemosaugusto@uol.com.br. Twitter: http://twitter.com/antoniolemos

Ladrões e como tratá-los

Por Millôr Fernandes

Amigo meu surpreendeu um ladrão em casa. Desceu pé ante pé a escada e acendeu a luz da sala, rapidamente. O ladrão, ao ver a luz acesa, saiu correndo. Passou pela porta, saltou um muro, ganhou a rua. Meu amigo correu atrás do ladrão até a porta da rua e, para garantir-se da fuga do ladrão, deu um tiro para o ar. Seu erro. O ladrão parou de correr subitamente e, deitando ódio pelas narinas, voltou como um raio em direção ao meu amigo, disparando também o seu revólver, e gritando com fúria: "Tiro não, seu cachorro! Tiro não!".Trancando-se em casa e dominado pelo terror, meu amigo ficou refletindo que devia ter ferido algum ponto fundamental da ética larápia. Sentou-se à máquina. e fez então um código de como tratar ladrões. Ei-lo:


QUANDO, COMO E POR QUE SE DEVE ATIRAR NUM LADRÃO

Atire imediatamente:

1) Se for um ladrão que fala à maneira da literatura policial corrente. 2) Se ele, em vez de correr pra lá, corre pra cá: 3) Se ele provar que é vítima de uma estrutura social mal formulada e que não está fazendo mais do que lançar mão de algumas coisas que a sociedade lhe deve por tê-lo posto no mundo. 4) Se ele não parece disposto a despir sua melhor camisa esporte. 5) Se sua esposa ou filha achar que ele é um amor de ladrãozinho.

Evite atirar:

1) Quando o ladrão se encaminha para o quarto de seu tio rico, cujo único sobrinho é você. Nesse caso, evidentemente, cabe a seu tio o direito de atirar primeiro. É preferível deixar o ladrão um tanto chocado com a nossa não interferência, do que desagradar nosso tio quando é seu o legítimo direito de abater o larápio. Isso poderia levá-lo a um grande desgosto e, portanto, a nos deserdar. O fato de não interferirmos entre ele e o ladrão; muito ao contrário. 2) Se o nosso Terra Nova conseguiu agarrar o ladrão pelo gogó. Nesse caso, com a pontaria que temos, poderíamos ferir o cão e deixar solto o ladrão. E se você já viu um cão com raiva, fácil lhe será imaginar um ladrão hidrófobo. 3) Este ponto redunda no anterior. Você nunca deve disparar quando não for capaz de acertar um mosquito a cinqüenta metros. Os ladrões em geral acertam no olho esquerdo de pulgas a duas milhas de distância. (Medida inglesa). 4) Se sua esposa é uma Assistente Social. Ela pode aplicar sobre ele suas lições de "como reajustar o indivíduo à sociedade". 5) Se você está a beira da falência. Um ladrãozinho inopinado explica muito fundo ausente.

Peça ao ladrão para atirar antes:

1) Se você há muito tempo não tira férias. 2) Se você tem um ótimo seguro contra acidentes. Neste caso você pode até escolher o lugar do corpo em que o ladrão deve atirar, mediante uma comissão paga adiantadamente.Além disso previne-se também que para entrar em luta com um ladrão não é necessário convidá-lo a escolher as armas antecipadamente; já que um ladrão prefere normalmente as que tem à mão. Outrossim não se deve dirigir a palavra a um gatuno antes de lhe apontar o revólver. Ele pode ficar emocionado se você lhe falar sem ser apresentado e sentir-se na obrigação de lhe dar uma salva de tiros. A natureza dos ladrões, sabem os entendidos, é muito reclusa.

Texto extraído do livro "Lições de um Ignorante", José Álvaro, Editor – Rio de Janeiro, 1967, pág. 119.

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