A Torre

XVI. A Torre ou Casa de Deus
O Arcano da Libertação e da Construção



Compilação de 
Constantino K. Riemma
A Torre no Tarot de Marseille-Kris Hadar
Tarô de Marselha
www.krishadar.com
O céu está coberto de esferas coloridas; dois homens caem de uma torre fulminada por um raio. A torre – localizada num terreno montanhoso, do qual brotam seis plantas verdes – tem três janelas azuis; a maior delas parece estar num andar mais alto que as outras. Não aparece a porta de entrada, na edição Grimaud.
Um raio com várias cores, linhas exuberantes, decapita o edifício, que é arrematado por quatro ameias. Sobre o fundo incolor do céu podemos contar 4 esferas na parte superior, 14 esferas à esquerda, 19 esferas à direita.
Um dos homens está caindo na frente da torre; do outro, mais atrás, vê-se apenas a parte superior do corpo, à direita da gravura. Os dois estão de perfil. No Tarô clássico, não aparecem tijolos ou pedras caindo sobre os homens, de modo a colocar suas vidas aparentemente em risco.
As pequenas manchas que se observam no chão, na frente da torre, não têm uma definição clara: podem ser pedras, líquido, pegadas.
Significados simbólicos
Rompimento das formas aprisionadoras, liberação para um novo início. Desafios dos momentos de transição.
Destruição da rigidez. Abertura. Conhecimento.
Desmoronamento e queda.
Interpretações usuais na cartomancia
Alterações, subversões, mudanças, debilidades. Libertação da alma aprisionada; quebras.
Conhecimento súbito. Parto, crise saudável.
Modificação traumática, separação repentina. Perdas, insegurança. Desconfiança em si mesmo, inquietação provocada por negócios arriscados.
Benefício recebido devido aos erros de outras pessoas.
Austeridade, uma tendência à timidez. Temperamento piedoso, religiosidade prática que não deprecia o material.
Mental: Indica o perigo que pode haver em perseverar em certa direção, em manter uma idéia fixa. Advertência para evitar tropeços e total aniquilamento dos planos em andamento.
Emocional: Domínio sobre os seres, mas sem caridade nem amor, já que se exerce com despotismo. Tarde ou cedo, sofrerá uma rejeição afetiva.
Físico: Projeto brutalmente abortado. Sinal ou anúncio não levados em conta; deve precaver-se nas atividades e negócios.
A chama que decapita a torre pode ser interpretada, no entanto, como uma liberação. Do ponto de vista da saúde: não passar os limites das forças vitais, já que uma enfermidade espreita.
Se há alguma enfermidade, indica o restabelecimento após um período penoso.
A Torre no Tarot de Marseille-Camoin
Tarô de Marselha-Camoin
Sentido negativo: Grande cataclismo, confusão completa. Enfermidade. Falta castigada, catástrofe produzida por imprudência. Maternidade clandestina. Escândalo, hipocrisia desmascarada. Excesso, abuso. Presunção, orgulho. Empreendimentos utópicos.
História e iconografia
A imagem de um homem que se precipita no vazio, do alto de uma torre, é uma das alegorias mais remotas que se conhece para representar o orgulho. Custa pouco intuir que esta metáfora – e a aniquilação celeste que a acompanha – tem filiação direta ao destino datorre de Babel.
Maison Dieu, baixo relevo na Catedral de Amiens - França
Baixo relevo do século 13
Catedral de Notre Dame de Amiens
França
Alguns estudiosos pensam que a sua inclusão no Tarô pode ser devida a uma impressionante corroboração histórica: o processo contra os templários e a sua queda vertiginosa, contemporânea dos imagiers que compuseram o Tarô.
Mais ambígua parece ser a chuva de esferas multicolores, cuja leitura não admite outra interpretação que a da influência do “alto” (com variações, esta chuva se repete nas cartas XVIII e XIX, arcanos de evidente simbolismo sideral).
Em uma miniatura pertencente a um manuscrito da Bíblia Pauperum (1350 a 1370), vê-se que o fogo do altar é aceso por meio de uma chuva semelhante à destes três arcanos.“Celita flamma venit / Et plebis pectora lenit” ("Vem a chama celeste / E aplaca o peito do povo"), é o que diz a legenda, clara paráfrase do milagre concedido a Elias diante da multidão cética (I Reis 18, 38-39).
Além do nome com que figura aqui, o Arcano XVI é também conhecido como A Torre ferida pelo raio, e pelo enigmático La Maison-Dieu, que aparece no Tarô de Carlos VI, na versão de Marselha, e que Oswald Wirth aproveita no seu desenho atualizado.
O próprio Wirth, porém, não dá uma explicação satisfatória para este último nome, limitando-se a corroborar o evidente simbolismo arquitetônico da figura, que se refere ao homem por sua verticalidade; à casa e às obras que ele constrói sobre a Terra – de onde se poderia deduzir também uma parábola sutil sobre o orgulho, pelo despropósito da tentativa de imitar o Grande Arquiteto.
Em certas versões do Tarô, parcialmente conservadas, o Arcano XVI apresenta um diabo que bate um tambor. Mas sua figura é secundária porque em primeiro plano aparece a goela de um monstro, entre cujos dentes se debate um ser humano.
Isso parece indicar que o fundo simbólico desse arcano, vale dizer, as analogias que se pode estabelecer na série torre-casa-goela-vagina-gruta-caverna primordial são muito anteriores à sua representação no jogo de cartas.
A Torre no Tarot de Oswadl Wirth
Tarô Oswald Wirth
Podemos constatar que este é o primeiro edifício que figura no Tarô e, de longe, o mais destacado. Neste sentido é preciso agregar à série analógica proposta as seguintes indicações: toda torre é emblemática do simbolismo ascensional e na Idade Média representou freqüentemente a escala intermediária entre a Terra e o Céu. Por seu aspecto murado, cuidadosamente defendido, também estabelece analogias com a virgindade.

Fonte: http://www.clubedotaro.com.br/



V. O Papa (O Pontífice ou o Hierofante)
O Arcano da Transcendência, da Iluminação, da Pobreza
Compilação de 
Constantino K. Riemma
O Papa no Tarot de Marselha-Camoin
Tarô de Marselha
www.camoin.com
    Um grupo de três personagens em que um deles é visto de frente, sentado, com a mão direita levantada no sinal da benção, tendo em sua mão esquerda o eixo de uma cruz de seis braços; sua cabeça está coroada por uma tiara. Os outros dois personagens que se encontram em primeiro plano, de costas para quem contempla a imagem, têm os rostos voltados para o primeiro personagem.
    Este, protagonista da figura, tem veste azul, capa vermelha ornada de amarelo. Sua mão esquerda está fechada e coberta por uma luva que tem impressa uma cruz dos templários. A barba e o cabelo do Pontífice são brancos.
    Percebe-se apenas vagamente a cadeira em que o personagem central está sentado, com duas colunas ao fundo.
    Os dois personagens que estão de costas mostram a tonsura. O da esquerda aponta sua mão direita para o solo, com os dedos separados. O homem da direita aponta para o alto com sua mão esquerda, com os dedos juntos.
Significados simbólicos
    É o arcano do ato da bênção, da iniciação, da demonstração, do ensino. Lei, simbolismo, filosofia, religião.
    Dever. Moral. Consciência. O Santo.
Interpretações usuais na cartomancia
     Autoridade moral, sacerdócio. Proteção, lealdade. Observância das convenções, respeitabilidade. Ensino, conselhos equilibrados. Benevolência, generosidade indulgente,
perdão. Mansidão.
    Busca de sentido, revelação, hora da verdade, confiança, indicações do caminho da salvação.
   Mental: O Pontífice representa a forma ativa da inteligência humana, que traz principalmente as soluções lógicas. Significa também os pensamentos inspirados por um nível mais alto de consciência.
    Emocional: Sentimentos poderosos, afetos sólidos, solicitude, sem cair em sentimentalismos. O Pontífice indica os sentimentos normais, tal como devem ser manifestados na vida, de acordo com as circunstâncias.
    Físico: Equilíbrio, segurança na situação e na saúde. Segredo revelado. Vocação religiosa ou cientifica.
    Sentido negativo: Indica um ser desprovido de sua razão e seus instintos, na obscuridade, carente de apoio espiritual. Projeto retardado.
    Chefe sentencioso, moralista estreito, rígido, prisioneiro das formalidades, metafísico dogmático, professor autoritário, teórico limitado, pregador da “boca pra fora”.
    Conselheiro desprovido de sentido prático.
    Problemas com saúde, indecisão, negligência.
O Papa no Tarot de Marselha-Kris Hadar
www.krishadar.com
História e iconografia
    O Arcano V é uma das figuras que permitiram precisar com maior exatidão a antiguidade do Tarô, já que seus detalhes iconográficos remontam a um modelo perdido em que se inspirou necessariamente o desenho de Fautrier (Tarô de Marselha), o que é confirmado pelas diferenças e semelhanças com maços mais antigos, como os de Baldini (1436-1487) e Gringonneur (1450).
    Em primeiro lugar, é preciso destacar que o Pontífice do Tarô de Marselha é barbudo, enquanto seus precursores renascentistas e medievais não o são. Há estudos que estabelecem uma curiosa cronologia da moda papal neste aspecto. Torna-se assim evidente que o tarô clássico copia um modelo mais antigo que não chegou até nós, mas que assegura a continuidade evolutiva do Tarô desde os imagiers du moyen age até a atualidade.
    Outro detalhe interessante é o da evolução da tiara papal na iconografia do Tarô. A tiara (com seu simbolismo sobre a existência dos três reinos ou mundos) não é um elemento litúrgico que permaneceu invariável ao longo da História. Boa parte dos estudiosos tende a concluir que as composições das tiaras representadas no Tarô clássico foram inspiradas em
O Papa no Tarot de Oswald Wirth
Tarô de Oswald Wirth
 gravações bem anteriores ao final do século XV, possivelmente dos fins do primeiro milênio.
   A luva papal ornada com a cruz-de-malta indica também a origem remota da imagem, já que desde os tempos de Inocêncio III (1197-1216) a cruz havia sido substituída por uma plaqueta circular.
   Arcano da capacidade adivinhatória, da intuição filosófica, do conhecimento espontâneo, o Pontífice simboliza também (por seu número) o homem como intermediário entre a divindade e o plano das coisas criadas.
    A soma destes simbolismos permite associá-lo ao mediador por excelência, o pacifista, o construtor de pontes, o que encontra a saída para situações aparentemente insolúveis, mediante um luminoso clarão intuitivo.
    O Papa também é visto como representante da lei moral, não escrita, que domina a consciência e, no setenário que as pontas da sua cruz organizam, as virtudes necessárias para vencer os sete pecados capitais:
- orgulho (Sol), preguiça (Lua),
- inveja (Mercúrio), cólera (Marte), luxúria (Vênus), 
- gula (Júpiter) e avareza (Saturno).
    Wirth o imagina um ancião pleno de indulgência para com as debilidades humanas, pontificando ante duas categorias de fiéis: aqueles que compreendem (representados pelo personagem com a mão para o alto); e os que formam o rebanho cego e inconsciente que obedece por temor ao castigo, e não por autodeterminação (representados pelo personagem que aponta a mão para o chão). Estas combinações (alto e baixo, direita e esquerda) voltam a colocar a ordem do quaternário como modelo de organização. Considerado do ponto de vista do quaternário formado pelos arcanos anteriores, o Pontífice representaria o conteúdo da forma, a quintessência concebível (se bem que imperceptível), o domínio da quarta dimensão.


Fonte: http://www.clubedotaro.com.br/


A Justiça

VIII. A Justiça
O arcano do Equilíbrio, da Imparcialidade
 
Compilação de 
Constantino K. Riemma
 
A Justiça no Tarot de Marselha-Camoin
Marselha-Camoin
 
Uma mulher, sentada num trono, tem em sua mão direita uma espada desembainhada com a ponta virada para cima, e na esquerda uma balança com os pratos em equilíbrio. A mão que segura a balança encontra-se à altura do coração.
Este personagem, que é visto de frente, está vestido com uma túnica cujo panejamento sugere uma mandorla (ver arcano 21 – O Mundo), espaço de conciliação das polaridades.
Não se vêem os pés da mulher nem a cadeira propriamente dita. Aparece, em compensação, com toda nitidez, o espaldar do trono: as esferas que o arrematam estão talhadas de maneira diferente.
Significados simbólicos
Justiça, equilíbrio, ordem.
Capacidade de julgamento.
Conciliação entre o ideal e o possível. Harmonia. Objetividade, regularidade, método.
Balança, avaliação, atração e repulsão, vida e temor, promessa e ameaça.
Interpretações usuais na cartomancia
Estabilidade, ordem, persistência, normalidade. Lei, disciplina, lógica, coordenação. Flexibilidade, adaptação às necessidades. Opiniões moderadas. Razão, sentido prático. Administração, economia. Obediência.
Soluções boas e justas; equilíbrio, correção, abandono de velhos hábitos.
Mental: Clareza de juízo. Conselhos que permitem avaliar com justeza. Autoridade para apreciar cada coisa no momento oportuno.
Emocional: Aridez, secura, consideração estrita do que se diz, possibilidade de cortar os vínculos afetivos, divórcio, separação. Este arcano representa um princípio de rigor.
Físico: Processo, reabilitação, prestação de contas. Equilíbrio de saúde, mas com tendência a problemas decorrentes de excessos (obesidade, apoplexia), devido à imobilidade da carta.
Sentido negativo: Perda. Injustiça. Condenação injusta, processo com castigo. Grande desordem, perigo de ser vítima de vigaristas. Aburguesamento.
A Jutiça no tarô Visconti Sforza
Visconti Sforza (1450)
História e iconografia
Gerechtigkeit. Representação medieval da Justiça
Bamberg (1237)
 
A representação da Justiça como uma mulher com balança e espada (ou livro) data provavelmente de um período remoto da arte romana.
Durante a primeira parte da Idade Média, espada e balança passaram a ser atributos do Arcanjo Miguel, comumente designado por Micael ou São Miguel, que parece ter herdado as funções do Osíris subterrâneo, o pesador de almas.
Mais tarde estes elementos passam para as mãos da impassível dama, da qual há figurações relativamente antigas na arte medieval: um alto-relevo da catedral de Bamberg, datado de 1237, a representa deste modo
Tudo indica que a iconografia do Arcano VIII seguiu com bastante fidelidade a tradição artística.
A espada e a balança são, para Aristóteles, os elementos representativos da justiça: a primeira porque se refere à sua capacidade distributiva; a segunda, à sua missão equilibradora. Ao contrário das alegorias inspiradas na Têmis grega, a Justiça do Tarô não tem venda sobre os olhos.
É comum relacionar este arcano ao signo zodiacal de Libra. Ele representa, como aquele, nem tanto a justiça exterior ou a legalidade social, mas sim a função interior justiceira que põe em movimento todo um processo psíquico (ou psicossomático) para determinar o castigo do culpado, partindo já da idéia de que “a culpa não é, em si, diferente do castigo”.
Também se atribui à balança uma função distributiva entre bem e mal, e a expressão do princípio de equilíbrio. A espada, por sua vez, representa a sentença, a decisão psíquica, a palavra de Deus.
 
Miguel Arcanjo
Miguel Arcanjo
A Justiça no Tarot de Oswald Wirth
 
Na repartição do Tarô em três setenários, a ordem que Oswald Wirth estabelece é descendente, correspondendo aos arcanos I-VII a esfera ativa do Espírito; aos VIII-XIV, a esfera intermediária,anímica; aos arcanos XVI-XXI, a esfera passiva do Corpo.
O segundo setenário – que se inicia com a Justiça – corresponde àAlma ou ao aspecto psicológico da individualidade.
“O primeiro termo de um setenário – diz Wirth – desempenha necessariamente um papel gerador. Assim, o espírito emana da Causa Primeira (O Prestidigitador), a alma procede do Arcano VIII, e o corpo, do XV (O Diabo)”.
Examinado do ponto de vista dos ternários, a Justiça (8), ocupa o segundo termo do terceiro ternário, sendo precedida pelo Carro (7), que cumpre aí a função geradora, enquanto ela, a Justiça, passa a exercer a função de organizadora.
<-- a="" de="" div="" justi="" no="" oswald="" tar="" wirth="">
Neste sentido – confirmado por sua localização na ordem dos ternários – Wirth ressalta o caráter esotérico do Arcano VIII: nada pode viver sem cobrir a distância entre a origem e o equilíbrio, já que os seres não existem a não ser em virtude da lei à qual estão submetidos.
É interessante também analisar a correspondência simbólica entre aJustiça (8) e o Imperador (4), já que há uma aliança evidente entre os princípios de Poder e Lei e a busca da harmonia do governo (de um estado, de uma situação, da individualidade). Vale lembrar a esse respeito que, tradicionalmente, cabe ao soberano a aplicação da justiça.
Na mitologia grega, Zeus gera em Têmis (a fraternal divindade justiceira do Olimpo grego), entre outras filhas, as Horas ou Quatro Estações, e Diké (ou Diqué), a personificação da Justiça. Essa filiação permite relacionar o Arcano VIII à ordem do quaternário, detalhe que já se evidencia a partir de seu número (8 = 2 x 4).
Diké, a deusa grega da Justiça -->
 
Têmis, a deusa grega da Justiça
  






Contato Instagram

Instagram

contato no twitter